Os números digitais avançavam com uma precisão quase arrogante, refletindo-se nas paredes espelhadas como se multiplicassem a própria ansiedade dela. Vinte e sete andares. Cada um parecia afastá-la um pouco mais do mundo simples que conhecia — e aproximá-la de algo que não sabia nomear.
Quando as portas se abriram, o corredor se revelou amplo, silencioso, revestido de tons neutros e um perfume discreto de madeira e limpeza impecável. Não havia quadros, nem plantas. Nada que denunciasse vida. Helena respirou fundo e seguiu até a última porta, guiada pela placa minimalista: MONTEIRO.
Bateu duas vezes.
— Entre! — disse uma voz masculina, firme, do outro lado.
Helena girou a maçaneta e entrou.
O escritório era ainda mais impessoal do que o corredor. Vidros do chão ao teto revelavam a cidade lá embaixo, distante, quase irrelevante. Uma mesa de linhas retas ocupava o centro, com um notebook aberto e alguns documentos organizados com rigor. Atrás dela, de pé, estava Arthur Monteiro. Ele não sorriu.
Arthur tinha a presença de quem estava acostumado a ser obedecido. Alto, postura impecável, camisa branca perfeitamente alinhada, mangas dobradas até o antebraço. Os cabelos escuros estavam penteados com cuidado, e o rosto carregava um cansaço discreto — daqueles que não aparecem em fotos de revistas, mas pesam no olhar.
— Senhorita Duarte, obrigado por vir. — disse ele, consultando o tablet por um segundo antes de erguer os olhos.
A forma como ele a analisou foi rápida, objetiva, quase clínica. Nada de malícia, nada de curiosidade gratuita. Ainda assim, Helena sentiu como se tivesse sido colocada sob um microscópio.
— Eu que agradeço pela oportunidade. — respondeu, mantendo a voz firme apesar do coração acelerado.
Arthur indicou a cadeira à frente da mesa.
— Sente-se, por favor.
Ela obedeceu, ajeitando a saia discretamente. O silêncio que se seguiu não era constrangedor — era calculado. Ele parecia medir cada segundo antes de falar novamente.
— Vou ser direto. — começou — Preciso de alguém para cuidar da minha filha. Alguém estável, responsável e… preparada. — ela assentiu — Li seu currículo. Formação em pedagogia, experiência em educação infantil, referências sólidas... — pausou — Também li que a senhorita deixou o último emprego há pouco tempo.
Ela engoliu em seco.
— Sim. A família se mudou para fora do país.
Era meia verdade, mas Arthur não parecia interessado em detalhes emocionais. Apenas registrou a informação e seguiu.
— Este não é um emprego comum. — continuou — Minha filha, Sofia, tem cinco anos. É inteligente, curiosa… e sensível. — explicou, com uma leve dureza na voz — Ela já teve muitas babás. Nenhuma durou.
Helena sentiu um aperto no peito.
— Crianças percebem quando alguém vai embora. — disse, antes de pensar demais.
Arthur ergueu os olhos para ela. Pela primeira vez, havia algo diferente ali. Não surpresa, mas atenção.
— Exatamente. — respondeu, duro — E eu não posso permitir mais instabilidade. — se levantou e caminhou até a janela, observando a cidade como se ela tivesse respostas que as pessoas não tinham — Trabalho demais, viajo demais. — pausou, brevemente — Tento compensar como posso, mas não sou ingênuo. Sei que isso não é suficiente.
Helena não disse nada, apenas ouviu. Às vezes, ouvir era o que realmente importava.
— Por isso, este cargo exige mais do que técnica. — concluiu ele, virando-se para ela — Exige discrição absoluta, minha vida é constantemente observada. Funcionários, imprensa, investidores. Qualquer deslize vira um problema. — ele deslizou um documento pela mesa — Este é o contrato. — Helena baixou os olhos para as páginas, mas não leu de imediato — Há regras claras. — continuou Arthur — Horários definidos. Funções específicas. Nada além do que foi acordado. E uma em especial: profissionalismo total. Não tolero envolvimentos pessoais que comprometam o ambiente da minha casa. — ela ergueu o olhar devagar.
— Entendido.
Arthur a observou por alguns segundos. Longos o suficiente para que Helena se perguntasse se tinha dito algo errado, mas então ele assentiu, satisfeito.
— Ótimo. Se aceitar, começa amanhã.
A rapidez a pegou de surpresa.
— Amanhã?
— Sim. — ele consultou o relógio — Preciso de alguém com urgência.
Helena pensou nas contas atrasadas, no aluguel, na sensação constante de estar sempre a um passo do descontrole financeiro. Pensou também no que deixaria para trás se aceitasse. Em quem ela teria que ser naquele lugar.
— Eu aceito. — disse.
Arthur estendeu a mão.
— Então, seja bem-vinda.
O aperto foi breve, formal. Ainda assim, algo percorreu o braço dela — não como eletricidade, mas como consciência. Aquele homem não era apenas um chefe exigente. Era alguém que carregava silêncios demais.
Minutos depois, uma porta lateral se abriu.
— Papai?
A voz infantil cortou o ar com uma doçura inesperada. Uma menina de cabelos castanhos claros e olhos atentos apareceu, segurando uma boneca de pano. Ela parou ao ver Helena, analisando-a com a mesma seriedade que Arthur usara antes.
— Sofia. — disse Arthur, suavizando a voz de um jeito quase imperceptível — Esta é a Helena. Ela vai ficar com você enquanto eu trabalho.
Sofia se aproximou devagar. Olhou para Helena, depois para o pai.
— Ela vai embora? — perguntou, sem rodeios.
Helena sentiu o impacto da pergunta como um golpe silencioso. Arthur abriu a boca para responder, mas ela foi mais rápida. Ajoelhou-se para ficar à altura da menina.
— Eu pretendo ficar. — disse com um sorriso gentil — Mas só se você quiser.
Sofia a observou por alguns segundos, séria demais para a idade. Então, estendeu a boneca.
— Ela é minha boneca preferida! — informou.
Helena sorriu, pegando o brinquedo.
— Gosto de bonecas! — respondeu, sorridente.
Arthur observou a cena em silêncio. Algo dentro dele — algo que ele não se permitia analisar — cedeu um milímetro, talvez aquele contrato não fosse apenas sobre trabalho. Talvez fosse o início de algo que nenhum deles estava preparado para controlar.