Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena chegou dez minutos antes do horário combinado, não por exigência, mas por instinto. O tipo de instinto que nasce quando a necessidade anda de mãos dadas com o medo de errar. A portaria do prédio a reconheceu imediatamente — o nome já estava liberado no sistema — e isso, de alguma forma, fez tudo parecer ainda mais real. Ela não estava apenas entrando em um prédio de luxo, estava entrando em uma rotina que não era a sua. Em uma vida que não havia sido feita para acolhê-la, mas que, ainda assim, agora exigia sua presença.
O elevador subiu em silêncio outra vez, mas dessa vez Helena não se sentia uma estranha absoluta. Ainda havia nervosismo, claro, mas também havia algo diferente: responsabilidade.
Quando a porta do apartamento se abriu, foi recebida por uma mulher de meia-idade, postura rígida e olhar avaliador.
— Você deve ser a nova babá. — disse, sem sorrir — Sou Cecília, a governanta.
Helena assentiu rapidamente.
— Helena. Prazer.
Cecília fez um gesto breve para que ela entrasse.
O apartamento estava vivo agora. Não no sentido comum — não havia música alta nem conversas —, mas havia sinais de uso. Um tênis infantil jogado perto do sofá, um desenho colorido preso à porta da geladeira, uma caneca com marcas de café esquecida sobre a bancada.
— O senhor Monteiro já saiu. — informou a governanta, enquanto caminhava — Ele costuma sair cedo, tudo aqui funciona com horários e regras bem definidos. Vou explicá-las.
Helena a acompanhou, atenta.
— Sofia acorda às sete. Café da manhã às sete e meia. Escola às oito e meia. — Cecília enumerava com precisão — Nada de açúcar durante a semana, nada de televisão antes da escola e tablet, apenas aos fins de semana e por tempo limitado.
— Entendido. — respondeu Helena, absorvendo cada detalhe.
Cecília parou em frente a uma porta branca, decorada com adesivos de estrelas e planetas.
— O quarto dela.
Antes que pudesse bater, a porta se abriu de dentro para fora. Sofia apareceu de pijama, os cabelos castanhos presos de qualquer jeito em um rabo de cavalo frouxo, os olhos grandes e atentos fixos em Helena.
— Você voltou! — constatou, sem surpresa, mas com cautela.
Helena se abaixou instintivamente.
— Voltei! — confirmou com um sorriso leve — Bom dia!
Sofia inclinou a cabeça, analisando-a como se estivesse resolvendo um quebra-cabeça importante.
— Você vai ficar hoje também?
— Vou.
— E amanhã?
Helena hesitou por uma fração de segundo — o suficiente para não mentir.
— Pretendo ficar todos os dias, mas a gente pode ir com calma. — disse, carinhosa.
Sofia pareceu considerar a proposta, então deu de ombros.
— Tudo bem. — virou, caminhando de volta para o quarto — Meu vestido azul está feio hoje.
Helena reprimiu um sorriso e levantou-se, seguindo-a. Enquanto ajudava Sofia a se trocar, percebeu detalhes que ninguém colocaria em um relatório: a forma como a menina falava pouco enquanto era observada, mas se soltava quando esquecia que estava sendo analisada; o jeito como segurava a barra do vestido quando ficava insegura; o silêncio pesado que surgia sempre que o nome do pai não era mencionado, mas estava presente.
— Seu pai já foi trabalhar. — disse Helena, casualmente, enquanto fechava os botões.
— Ele sempre vai. — disse, dando de ombros.
Não havia ressentimento na voz, apenas constatação.
Na cozinha, Cecília observava à distância enquanto Helena preparava o café da manhã. Sofia se sentou à mesa e começou a desenhar no verso de um papel.
— O que você está fazendo? — Helena perguntou.
— Um mapa.
— Um mapa de quê?
Sofia apontou para o papel.
— Da casa. Pra você não se perder. — respondeu, óbvia.
Helena sentiu algo apertar no peito.
— Obrigada. É muito gentil. — Sofia sorriu de canto, satisfeita.
Quando Arthur retornou à noite, a casa estava estranhamente… calma. Ele deixou a pasta sobre o aparador e afrouxou a gravata, atento a qualquer sinal de caos que normalmente encontraria após a presença de alguém novo. Mas não havia nada fora do lugar. Nenhum choro. Nenhuma tensão no ar.
A voz de Sofia vinha da sala.
— Não, assim não vale! Você mudou a regra!
Arthur parou no corredor, observando sem ser visto. Helena estava sentada no tapete, com peças de um jogo espalhadas à frente delas. Sofia estava completamente envolvida, gesticulando, rindo — rindo de verdade.
— Eu não mudei! — Helena defendeu-se — Está escrito aqui.
— Mas eu não gosto dessa regra!
— Então vamos criar outra. Juntas.
Arthur sentiu o impacto da palavra juntas como algo inesperado.
Sofia olhou para o pai ao notar sua presença.
— Papai! — disse, correndo até ele, abraçando suas pernas — A Helena ficou o dia todo!
Arthur pousou a mão nos cabelos da filha.
— Vejo isso.
Ele ergueu os olhos para Helena, que se levantou imediatamente, como se lembrasse de repente de onde estava.
— Boa noite, senhor Monteiro.
— Arthur. — corrigiu ele, automaticamente — Em casa, não precisa me chamar assim.
Houve um breve silêncio. Pequeno, mas carregado.
— Sofia jantou, tomou banho e fez a lição. — continuou Helena, profissional — Cecília pode confirmar.
Arthur assentiu, mas não era isso que o fazia observá-la com mais atenção do que pretendia. Era a tranquilidade no olhar dela, a ausência de esforço excessivo. Como se não estivesse tentando impressionar — apenas existindo ali.
— Sofia. — disse ele, baixando o olhar para a filha — Hora de dormir.
— Cinco minutos! — pediu a menina, rapidamente.
Arthur ia negar, era automático. Mas antes que falasse, a garotinha interrompeu-lhe.
— A Helena prometeu ler uma história. — ele hesitou.
— Tudo bem. Cinco minutos.
Sofia comemorou silenciosamente, puxando Helena pela mão.
Arthur observou as duas se afastarem pelo corredor. Sentiu algo estranho se formar em seu peito — não ciúmes, nem raiva. Algo mais próximo de alívio… misturado com medo. Porque aquela mulher estava se encaixando rápido demais. E Arthur Monteiro sabia, melhor do que ninguém, que coisas que se encaixam rápido também podem partir com facilidade e ele não tinha certeza se estava pronto para lidar com mais uma ausência.







