CAPÍTULO 2 - PRIMEIRAS REGRAS

Helena chegou dez minutos antes do horário combinado, não por exigência, mas por instinto. O tipo de instinto que nasce quando a necessidade anda de mãos dadas com o medo de errar. A portaria do prédio a reconheceu imediatamente — o nome já estava liberado no sistema — e isso, de alguma forma, fez tudo parecer ainda mais real. Ela não estava apenas entrando em um prédio de luxo, estava entrando em uma rotina que não era a sua. Em uma vida que não havia sido feita para acolhê-la, mas que, ainda assim, agora exigia sua presença.

O elevador subiu em silêncio outra vez, mas dessa vez Helena não se sentia uma estranha absoluta. Ainda havia nervosismo, claro, mas também havia algo diferente: responsabilidade.

Quando a porta do apartamento se abriu, foi recebida por uma mulher de meia-idade, postura rígida e olhar avaliador.

— Você deve ser a nova babá. — disse, sem sorrir — Sou Cecília, a governanta.

Helena assentiu rapidamente.

— Helena. Prazer.

Cecília fez um gesto breve para que ela entrasse.

O apartamento estava vivo agora. Não no sentido comum — não havia música alta nem conversas —, mas havia sinais de uso. Um tênis infantil jogado perto do sofá, um desenho colorido preso à porta da geladeira, uma caneca com marcas de café esquecida sobre a bancada.

— O senhor Monteiro já saiu. — informou a governanta, enquanto caminhava — Ele costuma sair cedo, tudo aqui funciona com horários e regras bem definidos. Vou explicá-las.

Helena a acompanhou, atenta.

— Sofia acorda às sete. Café da manhã às sete e meia. Escola às oito e meia. — Cecília enumerava com precisão — Nada de açúcar durante a semana, nada de televisão antes da escola e tablet, apenas aos fins de semana e por tempo limitado.

— Entendido. — respondeu Helena, absorvendo cada detalhe.

Cecília parou em frente a uma porta branca, decorada com adesivos de estrelas e planetas.

— O quarto dela.

Antes que pudesse bater, a porta se abriu de dentro para fora. Sofia apareceu de pijama, os cabelos castanhos presos de qualquer jeito em um rabo de cavalo frouxo, os olhos grandes e atentos fixos em Helena.

— Você voltou! — constatou, sem surpresa, mas com cautela.

Helena se abaixou instintivamente.

— Voltei! — confirmou com um sorriso leve — Bom dia!

Sofia inclinou a cabeça, analisando-a como se estivesse resolvendo um quebra-cabeça importante.

— Você vai ficar hoje também?

— Vou.

— E amanhã?

Helena hesitou por uma fração de segundo — o suficiente para não mentir.

— Pretendo ficar todos os dias, mas a gente pode ir com calma. — disse, carinhosa.

Sofia pareceu considerar a proposta, então deu de ombros.

— Tudo bem. — virou, caminhando de volta para o quarto — Meu vestido azul está feio hoje.

Helena reprimiu um sorriso e levantou-se, seguindo-a. Enquanto ajudava Sofia a se trocar, percebeu detalhes que ninguém colocaria em um relatório: a forma como a menina falava pouco enquanto era observada, mas se soltava quando esquecia que estava sendo analisada; o jeito como segurava a barra do vestido quando ficava insegura; o silêncio pesado que surgia sempre que o nome do pai não era mencionado, mas estava presente.

— Seu pai já foi trabalhar. — disse Helena, casualmente, enquanto fechava os botões.

— Ele sempre vai. — disse, dando de ombros.

Não havia ressentimento na voz, apenas constatação.

Na cozinha, Cecília observava à distância enquanto Helena preparava o café da manhã. Sofia se sentou à mesa e começou a desenhar no verso de um papel.

— O que você está fazendo? — Helena perguntou.

— Um mapa.

— Um mapa de quê?

Sofia apontou para o papel.

— Da casa. Pra você não se perder. — respondeu, óbvia.

Helena sentiu algo apertar no peito.

— Obrigada. É muito gentil. — Sofia sorriu de canto, satisfeita.

Quando Arthur retornou à noite, a casa estava estranhamente… calma. Ele deixou a pasta sobre o aparador e afrouxou a gravata, atento a qualquer sinal de caos que normalmente encontraria após a presença de alguém novo. Mas não havia nada fora do lugar. Nenhum choro. Nenhuma tensão no ar.

A voz de Sofia vinha da sala.

— Não, assim não vale! Você mudou a regra!

Arthur parou no corredor, observando sem ser visto. Helena estava sentada no tapete, com peças de um jogo espalhadas à frente delas. Sofia estava completamente envolvida, gesticulando, rindo — rindo de verdade.

— Eu não mudei! — Helena defendeu-se — Está escrito aqui.

— Mas eu não gosto dessa regra!

— Então vamos criar outra. Juntas.

Arthur sentiu o impacto da palavra juntas como algo inesperado.

Sofia olhou para o pai ao notar sua presença.

— Papai! — disse, correndo até ele, abraçando suas pernas — A Helena ficou o dia todo!

Arthur pousou a mão nos cabelos da filha.

— Vejo isso.

Ele ergueu os olhos para Helena, que se levantou imediatamente, como se lembrasse de repente de onde estava.

— Boa noite, senhor Monteiro.

— Arthur. — corrigiu ele, automaticamente — Em casa, não precisa me chamar assim.

Houve um breve silêncio. Pequeno, mas carregado.

— Sofia jantou, tomou banho e fez a lição. — continuou Helena, profissional — Cecília pode confirmar.

Arthur assentiu, mas não era isso que o fazia observá-la com mais atenção do que pretendia. Era a tranquilidade no olhar dela, a ausência de esforço excessivo. Como se não estivesse tentando impressionar — apenas existindo ali.

— Sofia. — disse ele, baixando o olhar para a filha — Hora de dormir.

— Cinco minutos! — pediu a menina, rapidamente.

Arthur ia negar, era automático. Mas antes que falasse, a garotinha interrompeu-lhe.

— A Helena prometeu ler uma história. — ele hesitou.

— Tudo bem. Cinco minutos.

Sofia comemorou silenciosamente, puxando Helena pela mão.

Arthur observou as duas se afastarem pelo corredor. Sentiu algo estranho se formar em seu peito — não ciúmes, nem raiva. Algo mais próximo de alívio… misturado com medo. Porque aquela mulher estava se encaixando rápido demais. E Arthur Monteiro sabia, melhor do que ninguém, que coisas que se encaixam rápido também podem partir com facilidade e ele não tinha certeza se estava pronto para lidar com mais uma ausência.

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