Klaus Joseph
5 anos depois da fuga
Cinco anos se passaram e ainda posso ouvir as últimas palavras de Hamlet.
Honre teu pai. Ele não hesitaria.
E depois tudo foi uma mistura de sangue, carne entre os dentes e gritos eufóricos da ascensão.
Coço a barba por fazer.
O escritório está silencioso.
Há vários livros com lombadas de couro gasto, outros ainda novos.
A mesa de madeira negra cravejada por emblemas da tribo do Lobo está repleta de papéis.
Alguns amassados, outros para serem assinados.
Giro entre os dedos a medalha de obsidiana que carrego ao peito.
Fora a última coisa que consegui encontrar no antigo aposento de meu pai.
A gravura do lobo majestoso de olhos escuros me encara.
Afago o semblante agressivo da medalha.
Fecho os olhos.
Tudo se inquieta.
Ouço o tic-tac no breu da mente.
Mas, de repente, batidas ecoam pela porta.
Abro os olhos.
— Entre.
A pesada porta se abre, revelando um macho de olhos cor de ferrugem cravados em mim.
Um meio sorriso estampa seu semblante.
Félix.
O prisioneiro que foi tão útil na fuga e mapeação da fossa.
Seu rosto é duro, cabelos curtos quase raspados, castanho acobreado.
Roupas de couro de duas peças e braçadeiras.
— Trago notícias boas, meu alfa.
Reviro os olhos.
Odeio a pompa do título, muitos aqui me tratam como o rei, outros apenas me obedecem.
Mas, no fundo, quase ninguém me vê apenas por Klaus.
O título meio que apaga quem o exerce.
— Fala logo, Félix.
Ele puxa a cadeira à frente, se senta sem modos.
— Ainda não posso contar, Salém solicitou que você vá à biblioteca, Joshuel estará lá também.
— Agora virou garoto de recados?
Vejo a diversão em seu rosto, ele mascara rápido.
— Apenas obedeço, meu alfa.
Bato a mão na mesa, ele entende que a paciência já se esgotou e se retira.
Bufo.
Félix só solicitara uma única coisa quando nos ajudou, a liberdade da torre.
E, depois da coroação, fez-me um voto de sangue.
Jurando servir minha tribo até sua morte.
Nesses últimos anos, tudo se seguiu com regras, aulas e mais burocracias.
Depois do torneio, passei a ficar recluso no castelo, sendo conhecido como o alfa fantasma.
Fico de pé, sentindo aquela inquietação em meu peito.
A lua se aproxima, ouço o cantar clamando a liberdade.
Caminho até a janela.
A brisa traz o cheiro de neve. Avisto as colinas cobertas pelos véus brancos.
Preciso reunir mantimentos para levar à aldeia.
Esse inverno está sendo bastante rigoroso.
Passo a mão bagunçando meus fios ondulados que caem na minha testa.
Fecho as cortinas.
Possigo para a biblioteca, deixando para trás aquele cheiro de linhagem antiga que emana do escritório.
Avanço.
Os corredores repletos de colunas enfeitados por rosas azuis e vermelhas deixam o perfume doce no ar.
Quase espirro com tanto pólen.
Ajeito o colarinho do casaco.
O piso de mármore de ébano ecoa meus passos.
Viro para a direita.
Parando na porta com o símbolo de meia-lua.
Bato lá uma única vez.
Ouço passos e o cheiro familiar preenchendo o ar.
O macho de vestes brancas abre a porta.
Seus olhos dourados recaem sobre mim, e um sorriso estampa seu rosto.
— Pensei que teria que te trazer.
Reviro os olhos.
Ele abre passagem.
Sou mais alto que ele, mesmo sendo o mais novo.
Joshuel está sentado segurando um livro de capa marrom, seus olhos se erguem para mim.
Ele fecha rapidamente o livro, pousando-o sobre a cadeira vazia.
— Está se isolando novamente.
Cruzo os braços.
Não respondo.
Joshuel inclina-se para o lado, me avaliando.
— Joshuel está certo, parece que vai se fundir aquele escritório.
Salém desponta atrás de uma estante.
— Não consigo socializar como vocês.
Falo com os lábios apertados.
Eles se entreolam.
— Vai precisar.
É tudo que Joshuel fala antes de retornar à sua leitura.
Solto o ar devagar.
Esse macho sabe muito bem a influência paterna que tem sobre mim, mesmo que nem o sangue e nem a linhagem nos una.
Nada disso o impediu de me ensinar tudo o que hoje eu sei.
Salém sempre parece com a minha consciência me lembrando do motivo de tê-lo escolhido como meu conselheiro real.
O suor cobria boa parte da minha pele, enquanto os primeiros raios de sol aqueciam onde antes era só frio e poeira.
Coloco a espada no chão.
Ela afunda sobre a relva verde.
O macho ergue uma sobrancelha com piercing para mim.
Uma mistura de diversão com orgulho passa no seu semblante.
— Um guerreiro não se acovarda, levanta-se, Joseph.
Joshuel impõe sua espada em um arco perfeito, cortando o ar.
O metal pousa na minha garganta.
Eu poderia ceder ou deixar que avance.
Mas não irei ficar nas sombras enquanto tudo acontece.
Giro-me para a esquerda e saio rolando.
A dor me toma, mas nem por isso vou desistir.
Fico de pé.
Ele avança brandindo seu escudo.
Algo primitivo se parte em mim.
Avanço.
O metal faz um barulho.
Meus pés dançam desviando dos cortes que seriam fatais.
Joshuel não se cansa.
E eu não irei.
Até ganhar.
Porque eu consigo.
Sou Klaus Joseph o Segundo.
Sou arrancado das lembranças por um barulho ao lado de fora.
Minha audição captura um som de briga.
Avanço.
Olho da janela.
Tudo está quieto, há dois soldados duelando.
— O que é aquilo?
Salém se aproxima.
— Duelo por uma fêmea.
Junto as sobrancelhas.
— Desde quando meu castelo é palco para duelo de sangue?
— Vou solicitar a Félix dar um basta nisso.
E, com essas palavras, ele sai.
Joshuel começa a gargalhar.
— Tão impaciente, Joseph.
— Tão benevolente.
Retruco.
E, para meu engano, a única coisa que ele faz é gargalhar.
E um meio sorriso brota em meus lábios.
Por um breve momento, pergunto-me por que Joshuel não tem herdeiros.
— Se estiver perguntando por que não tenho linhagem…
Digamos que isso não irei revelar.
— Como sabe que pensei isso?
Giro para encará-lo.
— Você teme o queixo quando pensa.
— E agora vai escrever um livro intitulado 'Como ler os meus adversários?
Ironizo.
Mas o gosto em minha boca é amargo.
Ele fecha o livro.
— Já estou trabalhando nesse projeto há um século.
Sua resposta me dá vontade de chamar-lo para a luta, mas relevo.
Coloco as mãos nos bolsos da calça.
Joshuel avança.
Seus olhos escuros pousam em mim.
— Não se feche… você não é culpado.
E, com essas palavras, ele não espera respostas e sai.
Ouço a porta sendo fechada e a única coisa que consigo fazer é soltar uma grande respiração.
Como posso expressar o que sinto sem parecer um garoto desesperado?
Ignoro a crescente sensação de aperto no peito.
Ainda posso sentir o cheiro de sangue seco nas mãos.
O líquido pegajoso mancha minha pele, semelhante a uma segunda camada.
A forma lupina começa a se desfazer, os ossos voltam para o lugar.
Os pelos dão lugar à pele lisa.
Agacho-me na arena.
Com as mãos escondo minha virilidade.
Não serei a excitação da platéia.
Algo é jogado, aterrissando ao meu lado.
Puxo-o.
Rapidamente me cubro com um manto que se fecha abaixo do pescoço até os pés descalços.
Ergo-me.
Meu olhar encontra dois pares de olhos cravados em mim.
Por mais que seus semblantes estejam pacíficos, eu sei que estão se segurando para não demonstrar nenhum sentimento.
A plateia está em um profundo silêncio.
Depois dos gritos, tudo parou.
Olho para meu peito.
Não há marca.
A tatuagem de alfa não apareceu.
Salém e Joshuel se erguem ao mesmo tempo.
— Viva ao novo alfa!
E todos se juntam em uníssono.
Ergo meu olhar para o céu límpido.
Os gritos continuam, mas não esboço nenhum sorriso.
Tudo se vai igual à poeira.
Olho para as minhas mãos agora limpas.
Alguns anéis de ônix e rubi adornam meus dedos.
Estalo a língua.
Talvez essa batalha ainda não esteja vencida.
☾ ✦ ☽
— Você precisa de herdeiros.
Joshuel aponta para o anúncio.
Reviro os olhos.
Jogo o anúncio contra o peito do macho de manto negro, que segura o papel entre os dedos com um sorriso amplo.
Curvo meus lábios para cima, não é uma visão bonita de se ver.
E, para meu infortúnio aumentar, ele lê em voz alta.
— Sete provas e o prêmio é a mão da princesa Celeste Eyra Valkaire, herdeira legítima da tribo do Leão.
Interessados compareçam à audiência com o alfa Zyhel Valkaire.
Zyhel Valkaire.
Esse nome…
A disputa começará em um quinto de lua.
O ganhador terá a união com a Tribo do Leão e sua proteção.
Ele pigarreia, olhando para mim.
— Tentador, meu caro?
Provoca, erguendo uma sobrancelha.
Fecho os olhos.
E uma gargalhada irrompe o ar.
Abro os olhos fazendo minha melhor carranca para o macho de tranças sentado com um tornozelo sobre o joelho esquerdo.
Ele apoia seus braços no estofado do assento, despreocupado.
Salém limpa a garganta.
Se acomoda melhor.
— Dizem que a princesa Celeste tem os olhos mais graciosos de Nòcluna.
Nenhum pintor conseguiu retratar tamanha beleza.
Graceja.
Cruzo os braços sobre o peito.
— O que um casamento pode agregar?
Disparo.
— Você quer vingança, certo?
Salém fala.
— A princesa é a chave.
Joshuel conclui.
E algo dentro de mim nasce.
Líquido, quente e com cor forte.
Meus lábios se moldam em um sorriso frio, quase uma máscara.