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Sangue de alfa — Capítulo terceiro

Klaus Joseph

5 anos depois da fuga

Cinco anos se passaram e ainda posso ouvir as últimas palavras de Hamlet.

Honre teu pai. Ele não hesitaria.

E depois tudo foi uma mistura de sangue, carne entre os dentes e gritos eufóricos da ascensão.

Coço a barba por fazer.

O escritório está silencioso.

Há vários livros com lombadas de couro gasto, outros ainda novos.

A mesa de madeira negra cravejada por emblemas da tribo do Lobo está repleta de papéis.

Alguns amassados, outros para serem assinados.

Giro entre os dedos a medalha de obsidiana que carrego ao peito.

Fora a última coisa que consegui encontrar no antigo aposento de meu pai.

A gravura do lobo majestoso de olhos escuros me encara.

Afago o semblante agressivo da medalha.

Fecho os olhos.

Tudo se inquieta.

Ouço o tic-tac no breu da mente.

Mas, de repente, batidas ecoam pela porta.

Abro os olhos.

— Entre.

A pesada porta se abre, revelando um macho de olhos cor de ferrugem cravados em mim.

Um meio sorriso estampa seu semblante.

Félix.

O prisioneiro que foi tão útil na fuga e mapeação da fossa.

Seu rosto é duro, cabelos curtos quase raspados, castanho acobreado.

Roupas de couro de duas peças e braçadeiras.

— Trago notícias boas, meu alfa.

Reviro os olhos.

Odeio a pompa do título, muitos aqui me tratam como o rei, outros apenas me obedecem.

Mas, no fundo, quase ninguém me vê apenas por Klaus.

O título meio que apaga quem o exerce.

— Fala logo, Félix.

Ele puxa a cadeira à frente, se senta sem modos.

— Ainda não posso contar, Salém solicitou que você vá à biblioteca, Joshuel estará lá também.

— Agora virou garoto de recados?

Vejo a diversão em seu rosto, ele mascara rápido.

— Apenas obedeço, meu alfa.

Bato a mão na mesa, ele entende que a paciência já se esgotou e se retira.

Bufo.

Félix só solicitara uma única coisa quando nos ajudou, a liberdade da torre.

E, depois da coroação, fez-me um voto de sangue.

Jurando servir minha tribo até sua morte.

Nesses últimos anos, tudo se seguiu com regras, aulas e mais burocracias.

Depois do torneio, passei a ficar recluso no castelo, sendo conhecido como o alfa fantasma.

Fico de pé, sentindo aquela inquietação em meu peito.

A lua se aproxima, ouço o cantar clamando a liberdade.

Caminho até a janela.

A brisa traz o cheiro de neve. Avisto as colinas cobertas pelos véus brancos.

Preciso reunir mantimentos para levar à aldeia.

Esse inverno está sendo bastante rigoroso.

Passo a mão bagunçando meus fios ondulados que caem na minha testa.

Fecho as cortinas.

Possigo para a biblioteca, deixando para trás aquele cheiro de linhagem antiga que emana do escritório.

Avanço.

Os corredores repletos de colunas enfeitados por rosas azuis e vermelhas deixam o perfume doce no ar.

Quase espirro com tanto pólen.

Ajeito o colarinho do casaco.

O piso de mármore de ébano ecoa meus passos.

Viro para a direita.

Parando na porta com o símbolo de meia-lua.

Bato lá uma única vez.

Ouço passos e o cheiro familiar preenchendo o ar.

O macho de vestes brancas abre a porta.

Seus olhos dourados recaem sobre mim, e um sorriso estampa seu rosto.

— Pensei que teria que te trazer.

Reviro os olhos.

Ele abre passagem.

Sou mais alto que ele, mesmo sendo o mais novo.

Joshuel está sentado segurando um livro de capa marrom, seus olhos se erguem para mim.

Ele fecha rapidamente o livro, pousando-o sobre a cadeira vazia.

— Está se isolando novamente.

Cruzo os braços.

Não respondo.

Joshuel inclina-se para o lado, me avaliando.

— Joshuel está certo, parece que vai se fundir aquele escritório.

Salém desponta atrás de uma estante.

— Não consigo socializar como vocês.

Falo com os lábios apertados.

Eles se entreolam.

— Vai precisar.

É tudo que Joshuel fala antes de retornar à sua leitura.

Solto o ar devagar.

Esse macho sabe muito bem a influência paterna que tem sobre mim, mesmo que nem o sangue e nem a linhagem nos una.

Nada disso o impediu de me ensinar tudo o que hoje eu sei.

Salém sempre parece com a minha consciência me lembrando do motivo de tê-lo escolhido como meu conselheiro real.

O suor cobria boa parte da minha pele, enquanto os primeiros raios de sol aqueciam onde antes era só frio e poeira.

Coloco a espada no chão.

Ela afunda sobre a relva verde.

O macho ergue uma sobrancelha com piercing para mim.

Uma mistura de diversão com orgulho passa no seu semblante.

— Um guerreiro não se acovarda, levanta-se, Joseph.

Joshuel impõe sua espada em um arco perfeito, cortando o ar.

O metal pousa na minha garganta.

Eu poderia ceder ou deixar que avance.

Mas não irei ficar nas sombras enquanto tudo acontece.

Giro-me para a esquerda e saio rolando.

A dor me toma, mas nem por isso vou desistir.

Fico de pé.

Ele avança brandindo seu escudo.

Algo primitivo se parte em mim.

Avanço.

O metal faz um barulho.

Meus pés dançam desviando dos cortes que seriam fatais.

Joshuel não se cansa.

E eu não irei.

Até ganhar.

Porque eu consigo.

Sou Klaus Joseph o Segundo.

Sou arrancado das lembranças por um barulho ao lado de fora.

Minha audição captura um som de briga.

Avanço.

Olho da janela.

Tudo está quieto, há dois soldados duelando.

— O que é aquilo?

Salém se aproxima.

— Duelo por uma fêmea.

Junto as sobrancelhas.

— Desde quando meu castelo é palco para duelo de sangue?

— Vou solicitar a Félix dar um basta nisso.

E, com essas palavras, ele sai.

Joshuel começa a gargalhar.

— Tão impaciente, Joseph.

— Tão benevolente.

Retruco.

E, para meu engano, a única coisa que ele faz é gargalhar.

E um meio sorriso brota em meus lábios.

Por um breve momento, pergunto-me por que Joshuel não tem herdeiros.

— Se estiver perguntando por que não tenho linhagem…

Digamos que isso não irei revelar.

— Como sabe que pensei isso?

Giro para encará-lo.

— Você teme o queixo quando pensa.

— E agora vai escrever um livro intitulado 'Como ler os meus adversários?

Ironizo.

Mas o gosto em minha boca é amargo.

Ele fecha o livro.

— Já estou trabalhando nesse projeto há um século.

Sua resposta me dá vontade de chamar-lo para a luta, mas relevo.

Coloco as mãos nos bolsos da calça.

Joshuel avança.

Seus olhos escuros pousam em mim.

— Não se feche… você não é culpado.

E, com essas palavras, ele não espera respostas e sai.

Ouço a porta sendo fechada e a única coisa que consigo fazer é soltar uma grande respiração.

Como posso expressar o que sinto sem parecer um garoto desesperado?

Ignoro a crescente sensação de aperto no peito.

Ainda posso sentir o cheiro de sangue seco nas mãos.

O líquido pegajoso mancha minha pele, semelhante a uma segunda camada.

A forma lupina começa a se desfazer, os ossos voltam para o lugar.

Os pelos dão lugar à pele lisa.

Agacho-me na arena.

Com as mãos escondo minha virilidade.

Não serei a excitação da platéia.

Algo é jogado, aterrissando ao meu lado.

Puxo-o.

Rapidamente me cubro com um manto que se fecha abaixo do pescoço até os pés descalços.

Ergo-me.

Meu olhar encontra dois pares de olhos cravados em mim.

Por mais que seus semblantes estejam pacíficos, eu sei que estão se segurando para não demonstrar nenhum sentimento.

A plateia está em um profundo silêncio.

Depois dos gritos, tudo parou.

Olho para meu peito.

Não há marca.

A tatuagem de alfa não apareceu.

Salém e Joshuel se erguem ao mesmo tempo.

— Viva ao novo alfa!

E todos se juntam em uníssono.

Ergo meu olhar para o céu límpido.

Os gritos continuam, mas não esboço nenhum sorriso.

Tudo se vai igual à poeira.

Olho para as minhas mãos agora limpas.

Alguns anéis de ônix e rubi adornam meus dedos.

Estalo a língua.

Talvez essa batalha ainda não esteja vencida.

☾ ✦ ☽

— Você precisa de herdeiros.

Joshuel aponta para o anúncio.

Reviro os olhos.

Jogo o anúncio contra o peito do macho de manto negro, que segura o papel entre os dedos com um sorriso amplo.

Curvo meus lábios para cima, não é uma visão bonita de se ver.

E, para meu infortúnio aumentar, ele lê em voz alta.

— Sete provas e o prêmio é a mão da princesa Celeste Eyra Valkaire, herdeira legítima da tribo do Leão.

Interessados compareçam à audiência com o alfa Zyhel Valkaire.

Zyhel Valkaire.

Esse nome…

A disputa começará em um quinto de lua.

O ganhador terá a união com a Tribo do Leão e sua proteção.

Ele pigarreia, olhando para mim.

— Tentador, meu caro?

Provoca, erguendo uma sobrancelha.

Fecho os olhos.

E uma gargalhada irrompe o ar.

Abro os olhos fazendo minha melhor carranca para o macho de tranças sentado com um tornozelo sobre o joelho esquerdo.

Ele apoia seus braços no estofado do assento, despreocupado.

Salém limpa a garganta.

Se acomoda melhor.

— Dizem que a princesa Celeste tem os olhos mais graciosos de Nòcluna.

Nenhum pintor conseguiu retratar tamanha beleza.

Graceja.

Cruzo os braços sobre o peito.

— O que um casamento pode agregar?

Disparo.

— Você quer vingança, certo?

Salém fala.

— A princesa é a chave.

Joshuel conclui.

E algo dentro de mim nasce.

Líquido, quente e com cor forte.

Meus lábios se moldam em um sorriso frio, quase uma máscara.

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