Mundo de ficçãoIniciar sessãoKlaus Joseph
A neve continua a cair. Repito desde ontem que preciso me vingar. Sou o rochedo que o mar tentou engolir. Mas continuo inabalável. Sou o rochedo e o mar não vai me apagar. O cheiro de orgulho e soberba paira no ar, semelhante a um antídoto. Os competidores me encaram com olhares azedos, alguns fingem sorrir. Mas sei que na primeira oportunidade um deles tentará matar alguém para conseguir a mão da princesa. Até esse momento, não cheguei a ver essa beldade com meus olhos, dizem que ela estava no torneio. Tão pouco faria diferença para mim. Não posso me desfocar do meu único e singular objetivo. Aperto os olhos quando ouço o estalar da língua venenosa de Zyhel. Esforço-me para ficar sério, ainda lembro-me de ontem quando não me curvei. A decepção no rosto do alfa. E de todos os demais. Endireito a postura. — Você não se envergonhe diante de outro alfa. A voz de Joshuel ecoa alto pelos Campos. O suor cai na terra vermelha. Meus membros fraquejam, os ossos estalam. Algo colide contra a lateral da minha costela antes que eu possa desviar. Rango os dentes. — Lição um, esteja sempre em vigilância. A voz de Joshuel ainda ecoa em minha mente mesmo após anos. Os ensinamentos marcaram minha pele igual uma tatuagem, não com marcas físicas. Mas sim com o espírito de quem já foi humilhado o bastante para continuar se dobrando. Aperto os dedos até os nós ficarem pálidos. Ainda posso sentir o cheiro metálico daquele dia. — Acha que pode escapar daqui,008? A voz de Mark ecoa. Meus tímpanos estão sensíveis. — Responda. A minha língua está colada no céu da boca. Sinto os lábios rachados. E em seguida a corrente range. Já sei o que virá a seguir. Estalo a língua à medida que as lembranças ficam para trás. Estreito os olhos de soslaio vejo os guardas postos para nos matar em qualquer passo em vão. A plateia está em frenesi ansiosa para ver quem sobreviverá a primeira prova. Como de esperado ninguém soube de nada. Nem mesmo os subordinados do Alfa. Zyhel dá um passo à frente do alto do seu torno esculpido em pedras escuras. — A primeira prova será o pesadelo. Os murmúrios se seguem, todos ficam incrédulos. Ele pigarreia e tudo cessa. — Cada competidor irá lutar na arena com o Pesadelo até ele vencer a criatura. A multidão não esconde o choque. Ouvi falar sobre esse monstro, ele revela os piores pesadelos de qualquer ser vivo. E muitos enlouquecem. —Aquele que perder será enviado de volta para sua tribo. E, com essas palavras, ergue uma mão apoiando o cajado de ouro no chão. — Que comece o torneio. Engulo em seco. O caos me espera. ☾ ✦ ☽ Meus fios guardam na testa. Já faz um terço de tempo que estou correndo entre os labirintos, sentindo o rastejar da criatura ecoar do lado de fora. Os gritos estão cada vez mais altos. Meus músculos protestam. As minhas roupas foram tocadas por calça e camisa de couro preto. A espada está no cinturão, meia inútil. Pelas brechas do barro das paredes, vejo um olho cego espreitando. Calafrios percorrem o corpo. Não o deixe sentir. Se a pálpebra do seu olho se abrir, revelando um buraco negro, tudo será revelado. Sem perceber, dou um passo para trás. Um som seco ecoa, chamando a atenção do monstro. Um galho se partiu. O maldito galho. Agacho-me atrás da rocha escurecida. O som dele rastejando faz o labirinto tremer. Vejo seu corpo vermiforme coberto por camadas de peles descamadas e ossos se contorcendo no chão. Uma ruptura se abre debaixo dos meus pés. Com um salto pulo antes que tudo ceda. Fui o último dos competidores a encarar. Dizem que o alfa escolheu por tribo. Deixando a minha por último. Impulsiono o corpo para frente. Ganhou velocidade. — Quando estiver em terreno inimigo lembre-se que tudo pode ser uma armadilha. Aperto os dedos até os nós ficarem pálidos. O chão continua se abrindo. A criatura dá voltas entre os círculos de barro. Vejo a cauda se arrastando pelo chão. A ponta tem espinhos secos. Giro o corpo para a esquerda, desviando em um arco que me colocaria à frente do monstro. Já estive aqui. Estou girando em voltas e o sol está se pondo. Não pudemos ver os outros competidores participando. Creio que tem uma saida. Agacho-me quando uma pedra cai, abrindo um buraco. Ele está muito próximo. Jogo-me na terra, saio girando com os braços, protegendo a cabeça. Pairo sobre um amontoado de ossos. O osso de um fêmur está de frente para o meu rosto, a poucos centímetros. Se isso está aqui, então significa que quem não se rende não há saída. A única alternativa que resta é vencer. Meses de preparo. E nada me avisou que eu enfrentaria um ser parecido com uma minhoca gigantesca. Dou um salto, ficando de pé. Para meu azar, a cauda de espinhos chicoteia o ar em um arco, zunindo, e colide com a lateral das costelas. Sou arremessado contra a rocha. Tudo queima, tudo dói. Os músculos cedem. Afundo sobre os joelhos. As unhas cravam o barro em uma falha tentativa de me fincar de pé. O martelar em meus ouvidos aumentam. E tudo começa a ficar escuro. — Levante-se Klaus. Aquela voz… A mesma voz… O cheiro de antiguidade invade meus sentidos. — Klaus você precisa encarar o seu monstro. Algo brilha no escuro semelhante ao pó de fada dourado. Me esforço para abrir os olhos, parece que estou sendo arrancado de mim mesmo. Toco meus lábios,um filete de sangue escorre em direção ao queixo. Aquele olho cego me encara. A fenda começa a se abrir. Não curvo os ombros. Apenas encaro. Um buraco negro se revela, tão escuro que conseguiria esconder uma montanha aos olhos de todos. E ali eu vejo. Meus joelhos cedem. Afundo no chão, mas não desvio o olhar. E sou transportado para aquela noite novamente. O cheiro metálico invade o ambiente. Há poças vermelhas carmesim no chão. Avanço, mas vejo uma figura magricela de olhos verdes escuros inundados de lágrimas. Posso ver meu antigo eu ainda jovem, até demais para o infortúnio que viria. Puxando os restos do corpo do amado pai contra sim. Vendo o estrago que mais tarde ele levaria a culpa. Tentando ouvir os batimentos cardíacos que já tinham cessado. Uma fumaça encobre tudo. Redemoinhos de poeira me envolve. E tudo se dissipa. Novamente estou lá correndo em forma lupina quando sinto aquela dor em meu peito semelhante a ter o próprio coração arrancando. Caio já está voltando à forma de simular um humano. Me contorço de dor enquanto lágrimas banham meu rosto. Um som sobrenatural rasga a noite. Meu pai. Clamo para que isso só seja uma confusão, mas nós lobos sentimos a perda da nossa alcatéia. Todos os lobos sentem a mesma dor. Não. Não. Não. Tudo fica esbranquiçado na minha visão. A dor aguda me cobre igual uma segunda pele. Sem perceber, estou puxando meus próprios cabelos e gritando demais. Há tufos de cabelo em minhas mãos. Fecho os olhos. Meu corpo todo começa a tremer. Caio no chão abraçando o corpo em posição fetal. — Klaus. A voz… — Pai? — Você precisa se perdoar. Avisto o semblante sereno de meu pai. Estou em um lugar bonito,com grama verde. Meu pai está sentado na grama com suas típicas vestimentas e um amplo sorriso no rosto. Caminho até meu pai, sentindo uma paz incomum. — Falhei contigo. Sento sobre os meus joelhos,igual quando era um lobo bebê. Sua mão pousa em meus cabelos, ele os bagunça em um afago. Sem perceber uma lágrima escorre em meu rosto. — Perdoei a si mesmo, Klaus… tenho orgulho de quem se tornou. Sua voz é mansa. O puxo para um abraço. E ele começa a se dissipar como fumaça entre meus braços. — Obrigado,Pai. Abro os olhos vendo a criatura me encarando. Eu não tremerei. Eu Klaus Joseph Segundo me perdôo. Fico de pé ignorando a dor. Puxo a espada. A criatura não recua. Não luta. Apenas aguarda. — Acabe com o meu sofrimento jovem lobo. Uma voz não humana ecoa pela boca em formato de “o” cheio de dentes e anéis ecoa. Ergo a lágrima que reluz no arco do último raio de sol. O metal chia. E quando encontra o alvo tudo que permanece é o silêncio. E aquela sensação familiar de que não estou sozinho.






