Klaus Joseph — Torre do esquecimento
Sinto um cheiro de livros antigos com um misto de noites escuras misturando-se ao pinho.
Algo dentro do meu peito se rompe.
— Klaus, acorde.
Sinto algo frio sendo pressionado contra meus lábios.
Água.
Abro a boca para receber o líquido que dá alívio à minha garganta seca.
Abro os olhos, piscando várias vezes para ajustar a claridade.
Vasculho o ambiente de soslaio.
A primeira coisa que consigo flagrar é um mancho imponente de tranças vestido de armadura negra com os memoráveis símbolos da tribo do morcego.
Seus olhos dourados encontram os meus.
Seu rosto é uma máscara profunda, misto de dor com algo monótono.
— Perdão, irmão… cheguei tarde.
Suas palavras me acertam semelhante a um golpe.
— Salém.
É tudo o que falo, a garganta aperta com as palavras que não direi.
Não consigo expressar tudo o que está na ponta da língua.
As tranças finas fazem uma combinação com os detalhes dourados e o emblema do morcego ébano no peitoral.
A pele negra de Salém traz um brilho dourado remetendo a dias de sol.
Seu rosto com traços elegantes e ainda assim de guerreiro me lembra o nosso pai.
Diferente de mim, Salém é contido e sábio.
As laterais da cabeça quase raspada mostram em que ele fora moldado durante os séculos.
Mas algo puro, meio selvagem, em seu olhar.
E isso é o que mais diferenciava um guerreiro sem alma do meu irmão.
Irmão.
Parece estranho em minha boca.
Meus ombros se curvaram.
Não consigo sustentar seu olhar.
Encaro meus pés.
A vergonha nunca me foi tão monstruosa até ela se vestir de mim.
— Klaus Joseph Segundo, olhe para mim.
A voz calma dele ecoa pelo ambiente.
Não ergo o olhar.
Ouço passos vindo em minha direção.
Salém se agacha à minha frente.
— Falhei com você… eu não te honrei, mas preciso que você saia daqui com vida.
Solto um grunhido abafado.
— Precisamos de você, Klaus, vivo, apenas vivo.
Curvo meus lábios, pressionando-os.
Ergo meu olhar.
Lágrimas molham o rosto dele.
Não vejo pena ou arrependimento.
Mas sim, culpa.
Balanço a cabeça de um lado para o outro.
Salém estende a mão em minha direção.
Olho para sua mão estendida, quase esqueço de agir.
Ergo a minha mão percebendo que as correntes se foram.
Não sinto mais o peso dos grilhões de prata junto ao corpo.
Apenas o peso do meu próprio ser.
Aceito a oportunidade.
Salém sorri, algo que em não lembro de como é fazer.
— Onde estamos?
Salém olha por cima do ombro.
— No subterrâneo, estão à sua espera.
Estão.
Junto minhas sobrancelhas sem entender nada.
Ouço gritos e passos rápidos.
Minha audição se aguça, sem a prata meus ferimentos começaram a se recuperar.
O cheiro…
Mark.
— Ele nos achou.
Aviso com aquela queimação em minha pele,
Ouço o canto reverberando por cada partícula, me chamando.
Um rosnado brutal escapa da minha garganta.
— Klaus.
Já é tarde.
Meus ossos se quebram em um som agudo e selvagem.
Minha pele começa a ficar coberta por pelos castanhos avermelhados, cor de cobre.
Meus batimentos cardíacos aceleram.
As garras raspam o chão, deixando marcas.
Um uivo sobrenatural interrompe as ordens.
Com a visão amplificada, vejo a figura do meu irmão colocar uma mão na frente.
Eu ainda o reconheço mesmo nessa forma.
Avanço, cheiro-o, avisando que me lembro dele.
— Afasta-se do prisioneiro.
Aquela voz ardilosa ecoa.
Dou um salto à frente de Salém.
Rosno com um último aviso.
— Droga.
Ouço o resmungo do macho atrás de mim.
Vários guardas nos cercam.
— Pensaram que poderá fugir do inferno?
Sua ironia queima no ar.
Ele dá um passo à frente, e seus subordinados fazem o mesmo.
— Prendam-no vivo ou morto, eu o quero.
E tudo que seguiu como um borrão.
Um magricela vem apontando uma lança de prata, mas agi de acordo com o lobo impulso que grita dentro de mim.
Avanço.
Uma mistura de sangue e gritos se seguem.
Cuspo a carne do soldado que estava presa entre meus dentes.
Olho de soslaio, Salém luta contra dez guardas, os golpes de quem passara anos de treinamento exercem maestria.
E, como um dominó, todos caem.
Sangue respinga sua face semelhante à minha.
Mais guardas vêm ao nosso encalço.
Mark avança segurando uma besta de prata.
Eu já o vi utilizar aquele instrumento contra os rebeldes.
Avanço contra sua direção, ele empunha o arco pronto para me acertar.
Mas não esperava que eu conhecesse sua fraqueza.
Seu tornozelo manco.
Passei anos estudando-o em silêncio, Mark considerava-se conhecer a todos aqui.
Mas ele não sabia que eu o vi falhando em combate uma vez, e isso foi o bastante.
Minhas presas afundam em seu tornozelo, afundando o tecido e cravando-se na pele.
O grito lancinante o desmonta.
Puxo de um lado para o outro.
Mark cede no chão.
Solto-o, cuspindo seu sangue em cima do seu rosto.
Seus olhos estão arregalados sem aquele orgulho e soberba que é a sua marca.
Seu rosto está congelado em um grito que morreu antes de escapar pela garganta.
— O inferno está dentro da minha mente, não fugi… eu o domino.
E com um arco perfeito meus dentes descem em sua jugular.
— Por f…
Não permito que termine.
Com um som de carne e ossos se partindo, a cabeça de Mark é arremessada contra outro guarda.
Seu corpo ainda se debate expelindo líquidos, por fim cessa.
Não senti aquela excitação que aguardei a anos, apenas algo estranho me cobre.
Não tenho tempo para refletir, uma laça passa raspando contra minha cabeça.
Salém grita.
Giro para olhá-lo.
Algo me perfura, sinto a queimação do ferro em minha carne.
Um uivo de dor escapou da minha garganta.
— Aguenta firme, Klaus.
É tudo o que ouço.
Enquanto minhas pálpebras se fecham, posso ver um vislumbre de brilho rasgar o ar.
E tudo para de doer.
E eu finalmente sorrio.
Algo queima na lateral do meu pescoço ao lado direito, com um cheiro familiar.
E em seguida caio no vazio.
☾ ✦ ☽
Ouço o crepitar da lareira.
Pela primeira vez, pude sentir algo macio contra minhas costas.
Também não há frio.
Um cheiro de rosas e comida preenche o ambiente.
— Klaus.
A voz de Salém reverbera.
Abro os olhos, meus olhos estão sensíveis pela claridade.
Pisco repetidas vezes.
Minha cabeça gira. Me sento vasculhando com os olhos o local.
Uma enorme lareira envolvida por flores azuis com trepadeiras vermelhas aquece tudo.
Uma mesa redonda de carvalho com ramos talhados na madeira está disposta com assentos de madeira negra antiga.
Um vaso obsidiano com rosas vermelhas está adornando o centro da pequena mesa.
Há um pedaço de papel queimado em cima da mesma.
Meu olhar retorna para a figura de trajes brancos encostada na porta.
— Bem-vindo de volta, irmão.
Aquele sorriso familiar me faz sentir em casa.
E eu finalmente sorrio, não como um prisioneiro, mas sim como alguém que peregrinou no esquecimento e finalmente pude retornar para o meu lar.
Fico de pé, percebendo que meus trapos foram trocados por uma calça de couro preta, uma camisa de linha branca com um casaco pesado bordado por filetes de ouro.
Na lapela deste está um lobo bordado.
Passo o dedo indicador pelos contornos minuciosos.
— Quanto tempo estive apagado?
Salém permanece em silêncio por um momento.
— Uma lua inteira.
Agora tudo está explicado.
Por isso não há ferimentos em meus dedos.
E nada dói.
— Estou no castelo de Lunaris?
Se minhas memórias não falham, eu ainda me lembro deste local.
Um meio sorriso brota no rosto dele.
— É seu, irmão.
— Eu não sou o alfa, Salém.
Essas palavras têm um gosto amargo na boca.
— Será seu, o atual alfa aceito o duelo de sangue.
Um calafrio percorre o corpo.
Um duelo de sangue… somente um sai vivo.
— Como você pode acertar um duelo de sangue se eu estava inconsciente?
Não queria ser tão ríspido com ele… mas nem um vestígio de que a dureza das minhas palavras o atingiu passou pelo seu rosto.
Ao contrário.
Salém endireita a postura e dá um passo à frente.
— Klaus… você precisa retomar o trono, passei séculos tentando achar uma forma de te tirar daquele inferno.
Lembra de que a cada lua no seu aniversário algo estranho aparecia para você?
Foram os aliados que encontrei ao longo de anos…
Ele se cala de forma abrupta.
Aos poucos, as lembranças vêm.
Uma vez, quando completei duzentos ciclos da lua, recebi uma torta de frutas vermelhas de um serviçal na fossa.
Depois nunca o vi.
Outra vez eu estava delirando de febre e pude afirmar que vi um pedaço de tecido limpo sendo colocado na minha testa por mãos enrugadas…
Então não eram ilusões, era meu irmão me lembrando que não fui esquecido.
A garganta aperta.
Meus ombros sobem quase encontrando as orelhas.
Finjo uma tosse para não demonstrar o misto de sentimentos que passa pelo meu rosto.
— Perdão, Salém.
Sussurro com a voz quebrada, rouca, afiada.
— Não me peça perdão por ser quem você é.
O silêncio se intensifica.
Um cheiro forte de bibliotecas antigas com uma mistura de flores murchas e cartas envelhecidas pelo tempo invade o ambiente.
Um macho.
Salém sorri com o semblante de quem já estava esperando a presença atrás daquela porta.
Uma batida soa.
— Entre, Alfa Joshuel.
O nome é familiar, já ouvira.
A porta se abre e um imponente alfa adentra com os olhos escuros de Salém pousados em mim.
— Eis aqui, meu irmão.
Salém nos apresenta.
O macho me olha com um sorriso amigável nos lábios.
— Finalmente pude ver com meus olhos…
Seja bem-vindo de volta, herdeiro Joseph.
Sua voz é sábia e potente.
Há anos não sou chamado pelo sobrenome que marca meu sangue.
— Que eu possa ser útil e retribuir por tudo.
Minha voz soa mais rouca do que eu esperava.
O alfa dá um passo à frente, cruza os braços no peito.
Sua estatura alta de ombros largos até evidencia que sua vida não só se resume ao poder, mas também à arte da guerra.
A pele de ébano traz cicatrizes que normalmente não pertencem a um alfa.
Os fios crespos estão alinhados em um corte all Black, há algo em seus traços que é moderno igual aos humanos.
Talvez seja o piercing em sua sobrancelha ou o olhar de quem já viveu o suficiente para saber vencer uma batalha sem levantar a voz.
Suas vestimentas trazem o luxo da tribo do Morcego.
Calça de veludo negro, camisa de linho com bordados dourados do mesmo tom.
É uma capa longa que cai no chão, carregando o símbolo da sua tribo.
Mesmo com traços fortes, a elegância refinada diz muito sobre quem ele é.
— Então ele já lhe contou?
A voz do macho me faz erguer os olhos.
— Não, mas sei que a torre não permite fugas… somente calculadas e estudadas por anos.
— Eu não poderia me acovardar à injustiça…
Sei como é ser privado da própria liberdade.
Sua resposta soa igual a uma batalha vencida por persistência.
— Isso é uma conversa para outra hora, vamos agora ao que interessa.
Salém dá um passo à frente.
Puxa uma cadeira e se senta.
Juntos minhas mãos.
Joshuel faz o mesmo que meu irmão.
— Precisamos montar um plano… o conselho já aprovou a reivindicação do trono.
Joshuel coça o próprio queixo.
— Eu não sei lutar.
E com essas palavras, a verdade recai sobre mim, igual a um manto de retalhos.
— Posso te ensinar.
A voz de Joshuel ecoa pelo quarto.
— E eu te ensinarei a encontrar as fraquezas além da batalha.
Meu olhar fica distante por um momento.
Nunca pensei que teria uma oportunidade, ao invés disso ganhei pessoas dispostas a me ensinar tudo aquilo que nasci para ser e que me foi roubado.
— O que vão querer em troca?
Eles se entreolham.
— O equilíbrio de Nòcluna.
Junto às sobrancelhas, se entender o que isso vai exigir de mim.
— Nòcluna anda em perigo, todas as nove tribos estão desesperadas com os véus se partindo.
Salém explica, juntando as mãos.
Existe uma lenda narrada pelos povos primários de que os véus só se partirão quando a paz de Nòcluna estiver em perigo.
Ambos colocam as mãos sobre meus ombros.
Confirmo com a cabeça.
Joshuel abre a boca, mas uma batida na porta o interrompe.
Hamlet adentra, curvando-se pela estrutura.
Não mudara, apenas alguns fios em seus cabelos estão brancos.
Os mesmos olhos verdes escuros do meu pai, e os meus, pousam sobre nós.
— Klaus Joseph Segundo.
Aceno em uma saudação.
— Hamlet, tio.
Meu tio olha de Joshuel para Salém e acena.
Eles se entreolham e saem com um aperto de mão apressado.
Sua pele morena é marcada por inúmeras cicatrizes, desde linhas finas a marcas que em qualquer lobo seriam fatais, menos nele.
— Obrigado por me receber.
Ele corta minha fala com uma mão com os dedos repletos de anéis.
Seus trajes não escondem o luxo.
Manto com o símbolo do lobo cravejado de joias, calça e camisa de seda negra.
Porém, sua expressão é de quem já está cansado de carregar o peso de uma tribo sozinho.
Seu rosto possui linhas fortes e barba cheia.
Diferente do meu pai, é raro vê-lo sorrir.
Ainda me pergunto como ele conseguiu manter a linhagem mesmo depois do que aconteceu.
— Você é filho do meu irmão, mesmo depois de tudo eu não poderia te abominar..
Engulo em seco.
Sei o que segue.
Ele aperta os lábios até se tornarem uma linha fina.
— Solicito uma única condição… em cada história existe uma versão.
Seja honesto no duelo, e veremos quem merece o trono.
Com essas palavras, Hamlet se retira sem olhar para trás.
O silêncio pesa.
Meus ombros se curvaram.
Fecho os olhos tentando abafar os pensamentos que me dominam.
Coloco os pés descalços contra a madeira fria.
Vejo um grande espelho feito de obsidiana com pequenos ramos de trepadeiras enrolando-se.
Avanço.
O reflexo que está lá não me pertence.
As últimas vezes que me vi em um espelho foram antes de tudo acontecer.
Somente uma única vez me vi no reflexo da água e odiei o defunto que tinha o mesmo rosto que o meu.
Queria apagar da memória os sucos escuros abaixo dos olhos… a cabeça raspada…
Os lábios cortados… a pele suja, encardida por ferrugem, queimada por sal.
Ergo meu pulso para socar o vidro, mas antes que eu o atinja, algo muda em meu campo de visão.
Não há mais marcas de sujeira em minha pele, meu cabelo está crescendo…
Não tenho mais sucos e nem feridas.
Minha pele está com um aspecto mais vivo.
Mas há algo que é diferente… não estava em mim.
Uma marca, ou melhor, uma tatuagem.
Uma borboleta escura na lateral do meu pescoço, no lado direito.
Puxo o colarinho da camisa para ver melhor.
As asas descem quase chegando a tocar a clavícula.
No fim de suas asas estão em fragmentos, tipo uma poeira.
Semelhante a algo que sobreviveu mesmo tendo perdido partes de si.
É diferente de tudo que já vi, parece algo antigo.
Aproveito para tirar a camisa e observar as tatuagens dos braços.
Em ambos os braços, desde os ombros até os punhos, estão ramos finos enrolados, abraçando a minha pele igual a uma morada.
Entre os espaços estão pequenos símbolos lunares.
Não me recordo de ouvir falar em tatuagens que aparecem assim.
E nunca vi ninguém com alguma dessas.
Cubro-me.
Ajeito os botões da camisa.
Aproveito para caminhar até a soleira da janela.
As cortinas brancas de seda ondulam no ar.
Cruzo os braços na soleira de madeira envernizada.
As montanhas silvestres se erguem envoltas em névoa.
Abaixo da janela, há um enorme jardim com várias flores.
Inspiro o cheiro de algo que cheguei a conjurar ser proibido.
Liberdade!
A palavra tem gosto de néctar na boca.
Fecho os olhos.
Sinto uma presença ao meu lado.
Abro os olhos, não há ninguém.
Ao lado onde está a cortina aberta, está uma pequena caixa de veludo vermelho.
Essa caixa não estava antes.
Pego-a.
O cheiro é de algo antigo demais para ser esquecido assim.
Respiro fundo.
E finalmente a abro.
Está vazia, exceto por um punhado de sal no centro semelhante a poeira.
O que significa isso?
Um calafrio percorre o corpo.
— Não te esqueças de onde viestes… o torneio exigirá um sacrifício.
Aquela voz… a mesma voz.
— Quem é você?
Ergo a voz.
Tudo cessou, até que o cheiro se dissipou no ar.
Solto a caixa no chão que ecoa pelo quatro em um som seco.
O sal se espalha no tapete.
O tic tac retornou.
E que vença quem for merecedor.