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Início do torneio — capítulo sexto

Celeste Eyra

A arquibancada está lotada, vários gritos eufóricos ecoam pelo ambiente ao ar livre.

Reviro os olhos à medida que o batalhão de machos de vários tipos adentra na arena.

Abro o leque de seda e começo a abanar. Está nevando, mas não quero chamar a atenção de nenhum bastardo aqui.

Liz fez questão de me arrumar como uma flor de estufa.

Jóias e tecidos finos me cobrem.

Um macho, o mais alto, de quase dois metros de altura, chama-me a atenção.

Diferente dos outros, ele está com cara de poucos amigos.

Seu rosto é a síntese de beleza masculina e isso só faz um gosto amargo preencher meu paladar.

Desvio o olhar quando paro em um menor com barba grande e careca de porte truculento.

Seu rosto é brutal, promete sofrimento.

Engulo em seco, ignoro o arrepio que percorre minha coluna.

Outro meio magricela olha para seus oponentes como quem encara a própria morte.

Seus fios estão curtos, quase raspados.

Solto o ar devagar.

Todos param de murmurar à medida que o Alfa Zyhel Valkaire adentra, seguido pelo seu conselho.

Sua cabeleira loira acobreada mostra alguns fios brancos.

O que mais chama atenção são os olhos azuis escuros sem brilho, com sombras negras.

O manto se arrasta no chão com fios de ouro tecidos que refletem na luz.

Os traços do rosto aristocrata têm uma dureza de quem esconde mais do que revela.

Para muitos, meu pai é um macho atraente, para mim, ele é a sombra que chamo de pai.

Desde o acontecimento, fiquei distante dele, quase esqueci como é receber um afago nos fios ou um beijo na testa.

Só conheci afago nos livros e na escrita.

Lá é o único lugar onde me sinto em casa, sendo quem realmente sou.

Ainda lembro dos pelos negros deixados em meu travesseiro.

As histórias sussurradas nas orelhas sensíveis.

O ronronar dele…

Aqueles olhos dourados que conseguiam ler as emoções de quem tanto escondia.

Salém, meu gatinho.

Há cinco anos ou melhor ciclos em uma noite chuvosa na lua salgada tudo estava estranho.

Os relâmpagos cortavam o céu tentando abrir em dois.

Abracei meu próprio corpo.

Esperei ouvir seu miado, ou suas patinhas em mim.

Nada.

As criadas falaram que ele é um ser selvagem é que fugiu.

Disseram para adotar outro, não quis.

Nenhum seria ele.

Somente Salém poderia ser meu companheiro de pelos e miados.

Sou arrancada das lembranças com a saudação do Alfa Zyhel.

— Aqui estão os bravos cavalheiros dispostos a deixar seu sangue em honra da mão da minha filha.

Uma chuva de palmas se segue.

Zyhel estufa o peito.

— Serão sete provas, cada uma testará o âmbito necessário para um futuro líder.

Pigarreia.

— Começará em duas luas assim que o sol nascer, por ora podem ir no banquete no salão leste e todos aqui comemorem.

A festividade começou.

Finaliza seu breve discurso.

E todos começam a saírem.

Amanhã, todos os participantes serão anunciados. Enquanto isso, um banquete será a cortesia da casa.

Não poderei jantar com eles nem as mulheres.

Só os competidores participarão.

Meu olhar se fixa novamente naquele competidor alto.

Desvio o olhar, não quero ser flagrada observando ninguém.

A partir de hoje tudo mudará.

☾ ✦ ☽

Os aplausos foram recebidos pela arquibancada.

Os competidores estão carregando um lenço branco simbolizando seus sentimentos puros em respeito a mim.

A princesa.

Reviro os olhos.

Baixo o olhar para meu vestido azul celeste de mangas longas de renda.

Retiro um fio invisível.

Liz fez questão de escovar e moldar meus fios em cachos volumosos, enfeitando com joias em forma de pérolas.

O Alfa Zyhel fica de pé.

Todos param de murmurar.

— Amanhã iniciaremos as provas, irei fazer uma breve apresentação de cada competidor.

Um jovem de cabelo castanho corre meio desajeitado com um pergaminho nas mãos.

Faz uma mensura exagerada para o alfa e entrega com dedos trêmulos o papel marrom.

Zyhel pigarreia.

Outro criado o assistente de vestimenta pessoal do alfa entrega o monóculo dourado.

Ele o pega com uma carranca que logo se desfaz.

— Valentim, da tribo do tubarão.

Um macho de pele pálida, fios pretos azulados, trajado com uma capa azul escura, dá um passo à frente.

Seu rosto é duro, tatuagens marcam a lateral da testa e pescoço.

Faz uma mensura para Zyhel.

— Ítalo, da tribo do morcego.

Um jovem de pele escura com trajes elegantes dá um passo à frente.

Seu cabelo crespo volumoso adorna seu rosto de traços aristocráticos.

Faz uma mensura elegante.

— Black Rolly, da tribo do Corvo.

O macho de trajes escuros de veludo tem um rosto com traços sombrios.

De quem habita entre a escuridão.

Zyhel continua a anunciar um por um.

Tantos machos e apenas um prêmio.

Odeio ser a premiação da disputa de poder de dois machos que não sabem negociar em uma mesa.

Tem que se rebaixar como brutos e quase perecer por algo que não posso escolher.

Até cogitei fugir, mas para onde irei?

Nem amigos tenho, não sobreviveria um dia como camponesa.

Nunca aprendi a trabalhar, sempre tive quem fizesse tudo por mim.

— Joseph, Tribo do Lobo.

Esse nome me arranca dos pensamentos.

Aquele macho imponente dá um passo à frente.

Há algo de bruto misturado com algo mais emanando dele.

Diferente dos demais, ele não se curva.

Seus lábios cheios se repuxam em um sorriso frio.

Calafrios percorrem meu corpo.

Todos olham para ele pensando no que Zyhel vai achar.

Vejo as sombras e inquietação passando pelo rosto do meu pai.

Mas, por fim, ele cede.

Solto o ar

A multidão inteira repete o mesmo que fiz.

Gradualmente, todos se acomodam em seus devidos lugares.

— Que essa competição revele o caráter de cada um, haja de acordo com seus corações.

Ele ergue a mão e depois abaixa.

Todos os competidores são encaminhados pela escolta real para o alojamento interno.

Ergo-me para sair para meu quarto acompanhada de Liz.

Vejo muitos rostos se virando na direção do competidor arrogante de cabelos ondulados.

Ele não se intimida.

Sua postura revela que ele já está acostumado a chamar atenção, seja benigna ou ao contrário.

Meu peito aperta.

Amanhã meu cativeiro será revelado.

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