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Luva de seda — Capítulo quatro

Celeste Eyra Valkaire

As notícias do torneio se espalharam igual a corvos beirando os olhos do cadáver.

Os criados correm de um lado para o outro com os braços ocupados com bolos, frutas e vinhos.

Desperdício.

Tolos, só querem uma coroa, ou melhor, a aliança da minha tribo.

Retiro um fio invisível do meu corpete bordado.

Dou um passo à frente.

Os últimos raios do sol adentram o salão aquecendo o local tão pomposo.

Mas sem o essencial.

Junto as mãos na frente do corpo.

Avanço.

A janela está aberta, trazendo a brisa do jardim coberto por neve.

— Como seria seu conselho, mama?

O silêncio engole minhas palavras.

Curvo os lábios para cima.

Meus olhos queimam.

Mas não derramo uma só lágrima.

Solto a respiração.

— Princesa Celeste, não vai bordar seu manto?

A voz suave me desperta da contemplação da minha inquietação.

De soslaio, observo a pequena fêmea de cachos loiros presos num coque baixo, alguns fios escaparam do penteado.

Giro.

Ela inclina seu queixo fino em uma mensura.

— Falta muito para o jantar, Liz?

— Não, minha lady.

Responde com os olhos encarando o chão.

— Olhe para mim.

Ela dá um passo para trás com o tom frio na minha voz.

Seus grandes olhos verdes acinzentados pousam em mim com um certo receio.

Minha expressão suaviza.

Esboço um sorriso de lábios fechados.

— Não me trate igual a princesa… quero ser apenas a Celeste.

Sussurro.

Liz faz outra mensura.

— Como desejar, Lady… perdão.

Suas bochechas ficam ainda mais vermelhas.

Seguro sua mão, suas unhas estão limpas e cortadas.

O gesto a faz estremecer.

Me pergunto o que aconteceu antes de ela ser minha dama de companhia.

— Você me parece ser muito útil… seja minha aliada e terá a minha proteção.

Proponho.

Liz permanece em silêncio, parecendo avaliar.

Por fim, seus ombros descem.

— Espero não desapontá-la.

Ela sussurra.

— Não aceito falhas.

Estabeleço meus limites.

E, com isso, Liz faz outra mensura e se retira, segurando a minha cesta de costura.

A noite começa a ceder, a brisa muda, ficando violenta.

Observo as crianças lá fora brincarem com espadas de madeira, simulando guerreiros em batalha.

Apoio as mãos na soleira fria.

Posso sentir o amargor na boca mesmo após anos.

— Você será uma excelente esposa.

Continue.

Meus dedos estavam amassados de tanto bordar, mesmo assim não paro.

Não posso desapontar ninguém.

Tenho que ser perfeita.

Inteligente.

Bonita.

A melhor.

É isso o que as minhas tutoras falam, as damas de companhia já demonstraram a inveja que têm de mim.

Dizem que sou muito abençoada.

Já ouvi que meus olhos guardam algo de quem já viveu além do tempo.

Suspiro.

Uma queimação no meu dedo me arranca dos pensamentos.

Uma gotícula de sangue brilha na ponta do dedo.

— Erros não podem acontecer.

Repito o bordão em voz alta.

Um relevo arranha a minha mão, me levando para a presença sufocante do macho à minha direita de olhos âmbar frios como gelo cravados em mim.

Calum, o conselheiro do meu pai.

Faz uma mensura.

Um sorriso que não lhe chega aos olhos molda seus lábios finos.

— É uma pena que não posso participar do torneio, princesa.

Esboço um sorriso frio, inclino o rosto para o lado, avaliando-o.

Loiro, de barba grande e bem cuidada…

Ombros largos e postura refinada.

Mas há algo inquietante em seu semblante.

Não os traços, que são aristocráticos.

Seu olhar promete muito mais que bondade.

É como pisar em uma víbora julgando que estará dormindo…

— Digamos que lamento sua presença não estar no torneio.

E ele acredita em minhas palavras.

Aceno com o queixo e me retiro.

O macho convencido fica me olhando.

Sei que ele fingiu acreditar.

E eu fingi que me importava.

Dê alimento ao inimigo e depois ele o devorará.

Ergo meu queixo.

Minhas mãos repousam ao lado do corpo.

Todos olham para mim.

Sinto seus murmúrios direcionados ao meu respeito.

Ignoro-os.

Meus passos ecoam no piso dourado com reflexos luminosos.

Subo a escadaria de marfim.

Veremos o que eles estarão dispostos a fazer por minha mão.

A mão de ouro, como dizem.

☾ ✦ ☽

— Princesa Celeste, este vestido azul lhe cairá bem.

Liz segura o vestido de corpete bordado com ouro, que desce em forma de ramos até a saia que se abre volumosa.

A ausência de mangas deixa-o mais belo.

— Não.

Minha resposta a surpreende.

Vejo a confusão passando pelo seu rosto.

— Algo mais simples.

Liz dá um passo para trás, seus ombros se curvam.

Deixo-a com a escolha do meu vestido, enquanto isso me sento na minha mesa redonda de mármore dourado.

A cadeira do mesmo material é semelhante a um trono com rosas vermelhas pintadas.

Solto a respiração.

Meus olhos vasculham o quarto em que passei boa parte da infância até agora.

Uma enorme cama de madeira branca ocupa a lateral.

A janela se abre com uma varanda que me agracia com a visão do jardim.

O espelho de moldura dourada está disposto entre os armários e enfeites.

Tapetes com fios de ouro costurados nas tramas de linha recobrem o chão.

Levo meu dedo até o anel de olho de trige que pertencerá à minha mãe.

O toque frio é reconfortante.

Levo-o até os lábios, depositando um beijo no material dourado.

Fecho os olhos.

— Este, minha lady?

Liz aparece entre o amontoado de tecidos e joias, segurando o vestido amarelo semelhante a uma relíquia entre suas mãos.

Seu sorriso é amplo, revelando dentes bem cuidados com um pequeno espaço entre os dentes superiores.

— Será este.

Ergo-me.

Seguro o vestido contra o corpo na frente do espelho.

As mangas caídas deixam os ombros à mostra.

O corpete bordado de diamantes abraçará a cintura como uma segunda pele.

A saia se abre em um A profundo.

Sorrio para o espelho.

Eles esperam uma princesa boba… mas esquecem que a dama sabe jogar.

Entrego o vestido para Liz.

Começo a soltar meus fios âmbar castanho claro.

As ondas se emaranham, causando nós.

Bufo.

Liz vem me ajudar.

— A senhorita tem os olhos mais bonitos de Nòcluna.

Meus lábios se curvam para cima.

— Não precisa me bajular para cair nas minhas graças.

Liz solta a escova no chão.

O barulho seco ecoa no quarto.

— Perdão…

Se agacha para pegar o objeto.

Apoio as mãos ao lado da madeira da penteadeira.

Ela reaparece segurando o pente de pérolas com dedos trêmulos.

— Eu não a estava bajulando… apenas fui sincera.

E com essas palavras, ela me deixa sem reação.

Curvo meus ombros.

Ela continua a escovar meus fios.

— Liz.

Seus olhos verdes acinzentados me encaram.

— Obrigada.

Seus lábios se moldam em um sorriso sincero.

Retribuo.

Minhas lembranças me sugam de volta para aquele quarto escuro com cheiro de mofo e insetos rastejantes.

Toco a madeira fria.

As lágrimas ainda caem.

Meus joelhos estão queimando… considero que ralei no chão.

Ouço goteiras no fundo.

— Por que estou aqui?

Minha voz é um soluço perdido em meio à escuridão.

— Me tirem daqui!

Elevo o tom.

Aguardo, eles viram…

O frio lambe minha pele exposta.

Há quanto tempo estou aqui?

Bato com os punhos cerrados na madeira fria.

A dor implora para parar.

Mas não paro.

A pele abre.

Continuo.

Não.

Não.

Não.

Ninguém vem, exceto algo vermelho brilhando no breu.

Pisco várias vezes.

Observaram as mãos limpas e cuidadas.

Não tem ferimentos.

Só pele lisa.

Fecho as mãos.

Mordo o lábio inferior.

Amanhã iniciará a Lua Sangrenta.

O torneio também se iniciará amanhã depois dos primeiros raios de sol.

Dizem que na Lua Sangrenta o poder lupino chega ao auge da agressividade…

Os recém transformados ficam recursos em Celas para não ferir os outros, até aprenderem a controlar seu lobo interior.

As fêmeas da minha tribo normalmente não têm esse instinto, é raro os casos de uma fêmea poder se transformar.

Em vinte e quatro ciclos não pude ver nenhuma com os próprios olhos.

Somente vi mulheres para casar e gerar herdeiros. Todas que convivi eram as marionetes perfeitas.

Bufo.

A brisa sopra um cheiro estranho, novo e bom que adentra no quarto semelhante a um amante.

Lembro-me da última vez que vi o retrato da minha mãe.

Ela era igual a mim, com a exceção dos fios, pois eram loiros…

Já os olhos, o mesmo tom de azul acinzentado que tantos dizem serem lindos.

Outros alegam que são claros demais e intimidam.

Meu pai não tem muitos traços que remetem à minha existência.

Tampouco casou-se após a viuvez.

Embora o conselho o indique a casar-se com uma jovem.

Ele afirma que já tem uma herdeira e isso é o bastante.

— Diria que tenho sorte ou estou fadada a ser mais uma peça em seu tabuleiro?

A pergunta paira no ar igual a uma sombra que me segue.

Deixo o vestido cair aos meus pés.

Retiro o espartilho e as anáguas.

Pego a camisola longa e branca e a visto.

Meus pés tocam a madeira fria.

Calafrios percorrem o corpo.

Busco um xale vermelho, cubro os ombros.

Aperto ainda mais o tecido.

Caminho até a mesa iluminada por um candelabro.

Pego meu diário. Passo os dedos sobre os fios de ametista costurados ao couro vermelho.

Na capa, tem uma rosa seca sendo preservada por um escudo translúcido de vidro que suponho ter sido forjado de magia.

O cheiro de papel velho e tinta preenche o ambiente à medida que o abro.

As páginas amareladas estão preenchidas por anotações, segredos e rosas secas em luas de festivais.

Toco a caligrafia elegante, sentindo um formigamento na ponta do dedo, isso já ocorreu algumas vezes.

Mas não tive coragem de perguntar aos sacerdotes ou ao conselho o que isto significa.

Passo as páginas até encontrar uma limpa.

Molho a caneta no tinteiro de bronze e começo as minhas anotações.

Hoje eu só gostaria de poder escolher meu destino.

Ouvi rumores de que a Tribo do Escorpião é comandada por uma fêmea muito valente.

Espero que meu noivo não sobreviva às provas, ou terei o desprazer de encarregar-me desta tarefa ardilosa em prol da minha sobrevivência.

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