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Areias de ouro- capítulo quinto

Klaus Joseph

A neve cai, se agarrando à minha pele, fazendo-a queimar.

Não trouxe nenhum criado ou adorno da realeza.

Apenas uma mala de couro média com tudo que será necessário para utilizar sem desperdiçar com coisas desnecessárias.

Os galopes do meu cavalo negro são o único som a ser ouvido entre as florestas.

Estou nesse trajeto antes da hora morta final.

Salém se encarrega de mandar um mensageiro para anunciar a minha participação.

Por volta das velas ele já estará retornando, é possível que eu o encontre.

Ainda me lembro da voz ressoando entre os arbustos daquela noite sem estrelas.

— Um herdeiro que matou o próprio pai… isto é elegia.

Ergo minhas mãos ensanguentadas para o alto.

Lobos começam a surgir do alto das montanhas.

Os uivos explodem em minha audição à medida que rosnados vão se seguindo cada vez mais próximos.

Um enorme lobo de pelagem dourada irrompe à minha frente, seus dentes brancos brilham com reflexos do luar.

Seguro o que sobrou do cadáver do meu pai.

— Prenda-ao.

És assassino do vosso próprio sangue, a pior blasfêmia de Nòcluna recaiu sobre a Tribo do Lobo.

O lobo dourado eleva sua voz para todos ouvirem.

Meus olhos queimam com as lágrimas que me recuso a soltar na frente desse impostor.

Ele vem à frente, em seguida se transforma em um homem de fios loiros acobreados.

Olhos azuis com nuances pretas e sombras que prometem não bondade.

Mas sim, traição.

Sua pele recém-limpada esconde o que fizera mais cedo.

Vi a sua sombra estreitando a tragédia…

Zyhel.

O alfa da tribo do Leão.

Arruinou minha vida com uma mentira ardilosa para esconder sua falta de escrúpulos.

Irei cair… mas quando me erguer será sua vez alfa Zyhel, o maldito assassino de meu pai.

Quase esqueço que estou cavalgando, até meu cavalo relinchar erguendo as patas.

Seguro as rédeas apertando até os nós dos dedos ficarem pálidos.

Travo o maxilar.

Vejo a placa dourada com o rosto de Zyhel talhado na madeira já escurecida pelo tempo.

Ele precisa estar em todos os lugares? Típico de machos arrogantes.

De soslaio, observo uma sombra se mover como raio.

Espiões.

Ouvi falar que nessa tribo todos os passos são registrados para o testemunho do alfa.

Nada aqui passa em vão.

Uma rajada de vento forte quase arranca o capuz que recobre meu rosto.

Prossigo o trajeto com o peito apertando.

— Vós não merece o ar que respira.

Zyhel cospe no chão ao seu olhar ser direcionado para mim.

— Que a justiça lhe conceda anos de sofrimento por isto.

Outro pragueja abandonando a mão para mim.

Meus ombros se curvaram ainda mais.

Os insultos, maldições e ameaças aumentam até o ponto dos três anciões se erguerem de uma vez.

A sala toda prende a respiração.

Todos já sabem o que vem a seguir.

Eu não sabia.

Ainda não…

Sinto os olhares queimando em minhas costas, tentando perfurar a minha carne exposta.

Ser açoitado em praça pública é uma pena muito leve, para tal profanação.

É o que dizem.

Fecho os olhos.

Sinto um puxão em meus cabelos que me faz cerrar os dentes.

— Irá para a torre do esquecimento.

Falam em uníssono.

E todos começam a murmurar.

Alguns riem.

Outros viram os rostos.

Ser esquecida por toda eternidade, preso a fio de prata e sal.

Esta será a maldita vida que terei.

Os guardas começam a me arrastar sem dá tempo de andar.

Olho para o alfa de vestes douradas uma última vez.

Memorizo seus traços.

Custe o que custar.

Zyhel ainda ouvirá falar meu nome.

Quase caio do cavalo à medida que chegamos a aldeia da Tribo do Leão.

As casas pequenas estão enfeitadas para as boas novas.

Não vejo crianças ou mulheres no lado de fora, devem estar ocupadas com seus afazeres ou gerando herdeiros para o trabalho do campo.

Afinal, precisam pagar o aluguel para o alfa no festival de colheita.

Na minha Tribo, isso foi extinto assim que me tornei alfa.

A única coisa que cobro do meu povo é trabalho mútuo e compartilhamento com os demais.

Alguns fizeram questão de fornecer legumes para o castelo por vontade própria.

Prefiro assim.

Não conseguiria tirar o alimento de uma família apenas para negociar com o mercador humano.

Talvez seja por isso que muitos ainda me neguem.

Retomo minha atenção para dois machos molestando uma fêmea contra uma árvore.

Sinto o cheiro salgado dela.

E deles, o álcool e algo mais luxúria.

Desço em um salto, empunhando a minha espada.

O aço brilha sobre os raios fracos do sol.

Meus passos os assustam, um deles, trancudo, segura uma adaga um pouco enferrujada contra o pescoço da jovem loira de olhos azuis.

O outro, com aspecto de pele e cabelo oleosos, ergue as mãos em rendição.

A fêmea está só com a peça de baixo.

Há hematomas desde tonalidade verde ao roxa.

Ela fixa seus olhos em mim, lágrimas molham seu rosto magro.

— Solte a fêmea.

Minha voz soa mais grave do que esperava.

Um deles cospe no chão.

O outro corre.

Olho para o macho que aperta a lâmina contra a pele da jovem.

Um filete de sangue escorre.

— É uma prostituta e terá que me agradar, eu paguei.

Meus lábios se curvam em algo que ele ignorou, mas vi a sombra de medo em sua face ardilosa.

— Eu não sou prostituta.

Ela fala deixando as lágrimas caírem.

O macho que a reprime dá um golpe na lateral da sua cabeça, fazendo-a desmaiar com o cabo da adaga.

— Se quer uma para você, ali tem várias.

Sua provocação faz meus dentes rangerem.

— Solte-a.

Exijo, apontando a espada contra seu peito.

O desespero e medo desse ser impregnam o ar.

— Quem é você para me dar ordens?

Ergo uma sobrancelha.

Abaixo a espada, colocando-a no cinto de couro.

— Quanto?

A dúvida passa pelo seu semblante.

Retiro uma moeda de ouro, girando-a entre os dedos.

Ele a solta.

Antes que o corpo desfalecido da jovem toque o chão, eu a amparo com um braço.

Jogo a moeda para o cafajeste que segura no ar.

Morde para ver se é real, revelando seus dentes lascados e escuros.

Ele começa a correr.

Permito que fuja, típico dessa laia.

Observo a moça com atenção, pelo rosto de queixo fino e traços dóceis, não tem mais que quinze ciclos.

Me pergunto o que aconteceu com ela para parar nas mãos desse sujeito.

Ela acorda. Piscando várias vezes.

Seus olhos azuis têm uma nuance castanha perto da íris.

Vejo o pavor em seu rosto.

Antes que seu joelho acerte minha virilha, coloco-a no chão.

— Quem é você.

Fala, se afastando de mim.

Não a julgo, em sua situação faria o mesmo.

— Joseph Segundo, senhorita?

Seu olhar varre-me por inteiro, isto é algo a que estou acostumado a receber.

— Por que me ajudou… sei cuidar de mim mesma, sem ajuda de ninguém.

Seus lábios temem.

— Em minha defesa, a senhorita já se mostrara uma brava lady… mas, como o cavalheiro que meu pai me fez ser, não hesitaria em prover segurança.

Ela se cala fazendo uma carranca.

— Obrigada, senhor.

Minha expressão relaxa.

Vejo seus ombros baixarem.

— Como se chama e qual é sua família?

— Stephany, não tenho família.

Levanta o queixo, mostrando que não tem vergonha.

— A partir de agora, terá uma Tribo que a acolherá em seu seio e lhe dará mantimentos e trabalho, Stephany.

Seu olhar fica com sombras, vejo a hesitação passar pelo seu semblante.

— Obrigada novamente.

— Um mensageiro meu estará retornando, ele a guiará.

Retiro um casaco que trazia na mala e a entrego.

Ela o coloca sobre os ombros estreitos.

Subo em meu cavalo.

Com um aceno me despeço.

— Espere!

Paro esperando a jovem que vem correndo.

— Por que?

Seus olhos estão vermelhos.

— Senti em minha pele a injustiça... E isso é o que você precisa saber.

E com essas palavras retorno ao meu trajeto.

Estou sendo sugado para aquela primeira semana na torre.

Eu implorava a tudo por piedade e tudo o que recebi foi chibatadas.

Ouço o estalo em minha carne.

— O que acham de um pouco de água, 008.

Abro os lábios secos pela sede e fome.

Sinto-os rachados.

O calor queima minha pele.

Risadas ecoam alto demais.

Tombo minha cabeça para trás quando sinto minha camisa sendo rasgada.

As correntes permitem que meus braços fiquem abertos.

— Prisioneiro que é inútil serve para o chicote.

Ouço a voz de Mark.

E em seguida sinto o couro queimando minhas costas.

Eu não grito, não consigo.

Abro os lábios em uma falha tentativa de capturar o ar que insiste em fugir dos pulmões.

O líquido vermelho carmesim escorre.

Ouço a excitação dos guardas manifestos para continuar.

Mark mexe a mão em uma dança com o chicote.

Ele o ergue com o couro cortando o ar em um arco perfeito.

Em seguida, desce, abrindo minha carne exposta.

Mais líquido jorra.

E eu não protesto e nem peço clemência.

E isso só faz Mark se irritar mais.

E novamente o chicote estala em minhas costas.

Os guardas ficam eufóricos e eu perco a consciência.

Sou trazido de volta com o relinchar do cavalo.

Guardas me cercam segurando lanças e espadas para mim.

Ergo as mãos.

Um macho de aparência arrogante dá um passo à frente.

— Quem és, apresenta-se ou morrerá.

— Joseph Segundo, irei participar do torneio.

E com essas palavras eles abrem passagem.

Suas posturas permanecem rígidas.

Adentro, deixando meu cavalo sob os cuidados do garoto.

Ele assegurou-me que nada de errado acontecerá.

As muralhas de pedras douradas se erguem, quase sufocando aqueles que adentram.

O cheiro de ouro e algo mais preenche o ambiente.

Torço o nariz para não espirrar.

Uma tocha me foi entregue, a pequena escolta vem no meu encalço, me guiando. Segundo eles, isso é para o meu bem-estar.

Mas logo sei que estão achando que sou um espião ou inimigo infiltrado.

Vi a conversa mental dos guardas com rostos pouco amigáveis.

Os olhares deles transitam entre mim e as espadas em seus cinturões.

Sons de passos ecoam antes mesmo do cheiro de suor e raiva chegar.

As muralhas dão lugar a paredes douradas com tapeçarias bordadas.

A escuridão fica para trás.

As luzes do dia aquecem a minha pele, que nem percebi estar com frio.

Outros guardas com trajes diferentes assumem o cargo de me guiar.

O pátio está com vários criados correndo de um lado para o outro, todos com ambos os braços ocupados.

Uma fêmea vestida de trajes modestos vem ao meu encontro.

Sua pele é dourada.

— Senhor… me siga, irei te apresentar ao Alfa.

A sigo em silêncio, vejo seus olhares de relance com as bochechas corando.

Os corredores de pilastra ornamentados de ouro e rosas brancas revelam mais que as palavras de qualquer escrivão.

Dobramos a ala norte.

E em seguida, uma porta de madeira talhada com o rosto do alfa se abre.

Meus olhos encontram os mesmos daqueles trezentos e cinco anos atrás.

O mesmo brilho hostil.

Olá, Zyhel Valkaire.

O prazer da vingança será todo meu até seu sangue estar em minhas mãos.

Meus lábios se moldam em um sorriso cruel.

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