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A rosa branca — capítulo oitavo

Celeste

— Você mentiu!

Meu sapato é arremessado ao encontro do macho loiro pairando na minha janela.

Seus lábios se moldam em um sorriso.

O cavanhaque e o bigode marcados o deixam com cara de galanteador.

Maldita hora…

— Calma, Estrela.

Estrela, é assim que ele me chama.

Reviro os olhos.

Dá um passo à frente pousando seus olhos pretos com reflexos azuis em mim.

Tão frios que fazem jus a tatuagem de urutu em seu pescoço.

Tribo da urutu.

Manipuladores dia venenos.

— Você falou que quando esse maldito tornei começasse iria participar pela minha mão e ganhar!

Brando não me importando com os criados nos corredores.

Heitor faz o sinal de silêncio.

Encruzo meus braços na frente do peito.

— Eu não pude participar, você sabe que a minha situação não é bem vista.

Dou dois passos a frente.

— A única coisa que sei é que você não quis, me desprezou como uma coisa insignificante.

A sua situação pouco importa, nunca me contaste nada!

Sinto o rubor em meu rosto.

O perfume caro dele invade meus sentidos, por um breve momento me balanço se estou fazendo a coisa certa.

Lembro-me de quando o vi pela primeira vez.

Há dois ciclos.

O baile está cheio, muito calor, tecidos e jóias caros se misturando a pompa de meu pai que nessa noite é o centro das atenções.

Avisto um macho muito bonito vindo em minha direção girando o copo de vinho entre os dedos longos.

Seus traços são aristocratas dignos de uma beleza forte com uma mistura de sedução.

Tudo nele grita isso, até o seu perfume.

Nossos olhares se encontram.

Já sei que Heitor Furlan será o motivo da minha confusão.

Sou arrancada das lembranças com um aperto em minha cintura.

Ele cola meu corpo ao seu.

Sinto cada músculo rígido debaixo do terno de três peças cor de prata.

Seus lábios descem querendo explorar a pele do meu colo, mas me afasto com um empurrão.

— Quero me entregar a você, Estrela.

Totalmente.

Completa.

Dou as costas.

Já tivemos essa conversa algumas vezes, não me sinto pronta para isso.

— Não quero continuar com isso, Heitor.

Meu coração b**e tão rápido que parece que vai saltar pela garganta.

— Não vê?

Giro, ficando de frente a ele.

Sua expressão está sombria.

— Está agindo de acordo com o que seu pai quer, no fim é apenas uma boneca de porcelana.

Minha visão fica vermelha.

Defiro um tapa em seu rosto.

Abro os lábios, os cobrindo.

— Eu não…

Não termino.

Ele avança.

Segura minha mão com delicadeza.

— Não me estranharei se você amanhã fugir desse papel que foi imposto.

Ele diz próximo ao meu rosto.

— Heitor.

O corto.

— Estrela, um tapa não apaga a paixão que tenho por ti…

Meus lábios temem.

— Por que não lutou por mim?

Cuspo.

— Estou com você, não?

Com a mão livre, retira uma mecha do meu rosto.

Cuido de você, Estrela.

Sempre estarei com você.

Finaliza beijando os nós dos meus dedos.

Meus olhos ficam cheios de lágrimas.

Uma batida na porta interrompe minhas próximas palavras.

— Lady… vim ajudá-la a se vestir, chegou a hora de premiar o competidor mais valente.

Quase esqueci que quem colocasse fim a criatura ganharia algo por minhas mãos.

Vejo Heitor se desvencilhar de mim.

Ele avança até a janela lançando um beijo no ar.

Levo as mãos até o peito.

Fecho os olhos.

Eu falhei novamente.

☾ ✦ ☽

Dos vinte competidores, apenas doze saíram com expressões abatidas do labirinto.

Cinco desistiram.

Um enlouqueceu.

Dois afirmaram não conseguir permanecer em paz sendo atormentados por lembranças do passado.

Pensava que o pesadelo destruiria vidas, mas não estava preparada para ver machos valentes com os psicológicos destruídos em uma batalha interna.

Dos ganhadores, apenas um estava com o semblante sereno.

O executor do pesadelo.

A síntese de beleza masculina.

A arrogância personificada em forma de macho.

Agora estou descendo a escadaria com um véu dourado que cobre todo o meu rosto, deixando tudo para a imaginação, com uma rosa branca na mão.

O presente para o valente guerreiro.

Assim Liz o chamou.

Reviro os olhos só de imaginar a melosidade da cena.

Liz fez questão de me arrumar como se eu fosse uma boneca em suas mãos.

O vestido branco de mangas longas e corselete na cintura do mesmo tom acompanha os movimentos do véu.

Os bordados de flores douradas na saia volumosa atraem olhares por onde passo.

Meus fios foram deixados soltos e escovados em cachos fofos.

A sala está cercada por guardas e sentinelas.

Zyhel está no centro da grande poltrona.

Joseph está em um assento perto da janela.

Seus trajes são elegantes.

Casaco e calça de veludo negro com filetes de ouro bordados na gola alta quase tocando as orelhas e punhos do casaco.

Os fios foram penteados para trás, o deixando com um ar aristocrata.

Vejo o exato momento em que seu olhar me encontra.

Ele não pode ver meu rosto, isso é uma regra do torneio.

Somente após algumas provas.

Se vencer.

Avanço.

Agora consigo ver as três marcas finas, quase linhas brancas, na lateral do rosto, chegando perto do olho esquerdo, isso não o torna menos bonito.

Ao contrário.

É igual a um adorno em seu rosto esculpido.

O queixo forte e mandíbula marcada estão com barba por fazer.

Ele fica de pé com a postura de alguém que sabe como se comportar em um evento, por mais que não seja o momento.

Sinto cada olhar queimando minhas costas.

O cheiro de neve com uma mistura de madeira viva e frutas negras me invade.

O seu cheiro.

Seguro a rosa contra o peito.

Paro à sua frente, ele faz uma mesura sem desviar os olhos de mim.

— A entrega da rosa branca simboliza a pureza da sua futura noiva.

Meu pai faz seu breve discurso.

Em seguida os vivas aumentam.

Estendo a rosa para Joseph que olha para o véu como se pudesse enxergar -me por completo.

Nossos dedos se tocam por um milésimo de segundo, sinto uma corrente me puxando para esse contato.

Abaixo a cabeça, colocando as mãos para frente.

— Obrigado pela honra, Princesa.

Ele sussurra com a voz rouca e grave naturalmente ameaçadora, mas o suficiente para enviar arrepios para meu corpo de uma maneira boa.

E eu o odeio duas vezes mais por isso.

— Espero que continue vivo até chegar o amanhã.

Cuspo em um sussurro que só ele possa ouvir.

E para minha irritação duplicar o pior acontece.

Uma risada rouca reverbera quase contida semelhante a um evento que é raro acontecer.

Aperto os dedos até os nós ficarem pálidos.

Tomara que não dure uma lua.

O vejo saindo para o canto da parede com a rosa entre os dedos.

Os próximos vencedores avançam.

Aceno para cada um.

De soslaio vejo Joseph encarando a rosa.

Ele olha de relance para mim.

Custe o que custar, esse torneio vai acabar sem nenhum ganhador.

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