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Correntes de sal — capitulo um

Klaus Joseph - Torre do esquecimento

Trezentos anos…

O gosto de sal rasga a minha língua. O ferro queima minhas mãos.

Forço meus olhos a abrirem, tudo está tão escuro.

O sangue em meus ouvidos martela.

Passos se aproximam, sinto o cheiro de suor e algo asqueroso.

— Acorda, príncipe.

A voz debochada quase me faz levantar.

Até tento, porém afundo novamente, colidindo com o chão duro, ainda de olhos fechados.

As pálpebras estão tão pesadas.

— Pega o sal.

Outra voz, mas alta e nojenta.

Sinto mãos abrindo minha boca.

Cerro o maxilar em vão.

A dor lancinante já virou minha companheira.

Mais sal queimando minha garganta.

Abro os olhos com a língua colada no céu da boca.

— Água…Àg…

Não consigo concluir.

— Volte ao trabalho, príncipe.

A ironia na voz me faz arrastar para longe.

O som das correntes de prata ecoa no chão.

A goteira molha as feridas recém-abertas, o suor escorre pelo meu pescoço lavando as marcas escurecidas de poeira, palha e sujeira que se acumula nas costas.

Cravo os dedos na terra de ferro, impulso o corpo para frente de uma vez.

Fico de pé.

Mas algo atinge as dobras dos meus joelhos e caio novamente, batendo a bochecha direita no chão.

O gosto metálico explode na boca.

Fecho os olhos.

Minha visão fica vermelha conforme mais risadas ecoam no túnel.

— Tão insignificante… Não duraria um dia como alfa.

Assobios preenchem o ambiente, fazendo-me estremecer.

Algo colide com as minhas costelas.

Me encolho na posição fetal, tento proteger meu rosto, mas as correntes limitam os movimentos.

— Já chega. Deixem-no trabalhar, vão para a fossa lá estão os rebeldes para serem exterminados.

A voz estrondosa de Mark acaba com a diversão dos guardas.

Finjo estar desmaiado para não ser punido por falhar novamente.

Um puxão nas correntes faz a minha pele se abrir.

Algo quente e pegajoso com cheiro acobreado molha meu peito.

É sempre assim.

Toda lua, esse inferno.

— Levante-se, 008.

Aqui não temos nomes, apenas números… só aqueles rejeitados pelas tribos por algum crime ficam aqui.

Ele dá outro puxão, me fazendo rosnar.

Abro os olhos, aquele olhar azul feio me olha de soslaio.

Não sou digno da sua pena.

Tampouco quero-a.

— Por que está me encarando, prisioneiro?

Não recuo, não curvo os ombros.

Apenas fico, e isso é bem pior.

Mark dá um passo em minha direção, depois o outro.

O espaço fica sufocante com o seu cheiro de soberba e superioridade.

Ele puxa a corrente do meu pescoço mais uma vez.

Cerro os dentes, quase lascando-os.

Não solto o arquejo de dor que está preso em minha garganta.

— Prisioneiros não desafiam seu general.

Um golpe é desferido contra meu rosto. Tombo a cabeça para o lado.

Mas ainda continuo o encarando.

A dor me invade, eu não ligo mais.

— Não tenho o conhecimento de qual feitiço utilizou para sobreviver tantos anos aqui…

Mas sabia que daqui você só sairá morto.

Com essas palavras, se retira.

Continuo encarando o local onde ele esteve por alguns minutos.

Minha barriga aperta, a fome está corroendo-me.

Faço a única coisa que posso, me ajoelho lutando contra meus pensamentos e instintos.

Se não fosse pela prata, eu poderia me transformar… não sei como é correr livre entre as florestas… uivar para a lua ou simplesmente ver aqueles que seriam a minha alcateia.

Ainda posso ouvir as últimas palavras do meu pai…

— Proteja seu coração, meu herdeiro…

O amor não mata, a prata sim.

Um grito sobrenatural rompeu a floresta naquele instante, o meu manifesto de dor para o mundo saber o que fora retirado de mim de forma abrupta.

Os corvos voaram com seus sons de lamentos e asas batendo para o norte.

O cheiro pungente queimava meu nariz, me fazendo encarar o líquido pegajoso em minhas mãos.

Puxo o corpo destroçado do meu pai contra o peito.

Seu coração não b**e mais.

O cheiro da morte assola o ambiente, a atmosfera fica pesada e um cântico funerário lamenta baixinho o fio cortado antes do tempo.

— Eu não conseguirei sem você, pai.

O meu sussurro está tão rouco.

Sei que daqui para frente nada será igual.

As gotas caem no chão.

As marcas da tragédia que mudaria minha vida para sempre ficarão em Nòcluna.

Algo frio b**e em minha coluna.

O sopro gélido de dor sopra a pele já maculada.

Olho ao redor, tudo está quieto, nesse vão só há eu.

Tenho a vaga sensação de não estar sozinho.

Ou já posso estar perdendo a sanidade.

Solto o ar devagar.

Olho para o chão cor de ferrugem com fontes brancas passando no meio de cada festa.

O cheiro salgado com ferro queima o nariz de uma forma enjoativa.

Impulsionei meu corpo à frente, ficando com o braço esquerdo de apoio no chão, enquanto minhas pernas continuam dobradas.

Com o braço livre, começo a cravar a primeira fresta de sal.

Meus dedos tocam o metal que queima os nós ensanguentados dos dedos, a queimação toma meus sentidos.

Um rosnado rouco escapa da minha garganta antes que eu possa segurar.

De novo não.

De novo.

De novo.

De novo.

Meu martírio canta no sangue enquanto martelar nos ouvidos impossibilita qualquer foco no meu campo de visão.

Aos poucos, o sal para de queimar…

O ferro não arde mais.

Não estou acorrentado.

Estou em uma floresta verde e com flores brancas selvagens.

Os lobos correm caçando…

Corro sentindo a adrenalina percorrer a corrente sanguínea, me levando para mais longe.

Quero mais.

Posso ir além.

Eu sou livre e nada me acarretará.

— Ele está alucinando.

Uma voz grita alto demais.

Não consigo abrir os olhos.

As pálpebras estão pesadas, meus membros estão moles.

— Ele não durará uma lua do jeito que está.

Outra voz meio tímida ecoa.

Algo com cheiro de ervas cozidas é colocado na minha boca.

— Estarão sendo observados por três luas… se perdermos o prisioneiro 008, serão expulsos.

A ordem reverbera pelo local.

— Ele é só um prisioneiro, um exilado.

Ouço um resmungo.

— Aqui quem dita ordens sou eu… e você me obedece calado, guarda 22.

— Sim, chefe.

Ouço passos se afastando.

A escuridão me puxa para um lugar sem chão.

Caio no ar.

E tudo desaparece outra vez.

— Klaus.

A voz do meu pai ecoa pelo recinto.

Giro para ficar de frente a ele.

Sua pele bronzeada traz marcas de guerras antigas, linhagem e poder em seus braços e pescoço.

Aqueles olhos verdes escuros iguais aos meus me fitam com um certo orgulho.

Somos tão semelhantes que dizem que de todos os filhos… fui o único a me assemelhar com o grande alfa da tribo do lobo.

Ele dá um passo em minha direção.

Depois, outro.

Seu sorriso se aumenta.

— O que estais fazendo?

Estufo o peito o máximo que posso.

Ainda não tenho esses músculos e nem a imponência de sua aparência.

Mas sei que terei um dia.

— Desenhei a mamãe.

Mostro o retrato de carvão com um sorriso amplo.

— Está igual a ela…

Você sente saudades, né?

Por um instante, seus olhos ficam com sombras.

— Não me lembro muito dela… mas lembro do abraço quentinho.

Suas sobrancelhas grossas se erguem e uma ruga aparece na testa.

— E como conseguiu à retratar assim?

Meu coração acelera.

Não respondo que entrei em seu escritório escondido.

Ele já entende e sorri.

Meus ombros abaixam.

Um dia quero ser igual a ele.

Tão forte como meu pai,o grande alfa.

— Um dia será tão forte quanto seus antepassados,pequeno Klaus…

agora vá para sua aula.

Abaixo a cabeça.

Eu odeio as lições,o tutor é muito resmungão e ríspido.

— Não irei,pai.

Ergo o olhar.

Uma carranca surge em seu semblante.

Ele bufa e olha para cima.

— Só por hoje, pequeno.

Meu sorriso se alarga.

Não seria só por aquele dia… mas todos que vieram.

E hoje ainda sofro as consequências.

Sinto cheiro de medo e algo mais com aquele resquício de suor.

Passos pesados ecoam pelo ambiente.

Algo frio é colocado em meu peitoral.

— Acorde, 008.

A voz cansada ecoa, me fazendo tentar abrir os olhos.

Mas não consigo, estão pesadas.

Sinto o cheiro forte queimando o nariz.

O ar foge dos meus pulmões no instante em que sou atingido.

Uma onda me envolve, fazendo a pele formigar, um arquejo de dor escapa da minha garganta à medida que minha coluna arqueia e, em seguida, cortando o ar, caio com força na cama de palha seca.

A dor lancinante em minha coluna reverbera por cada centímetro.

Algo se parte semelhante a vidros ao meu redor.

Meus dentes rangem com o esforço de não gritar.

— Levanta-se.

Meus olhos se abrem, a claridade da sala me faz piscar inúmeras vezes.

Ergo o braço, cobrindo minha visão que está sensível.

O metal faz barulho ao conseguir puxá-lo.

Meu olhar encontra o curandeiro curvado pela idade.

Seus olhos suavizados, quase cegos pela idade, lacrimejam com o esforço.

Apoia sua bengala marrom para mim.

Sua mão treme no ar.

— Você é...

Não conclui sua fase, antes disso balança o rosto de um lado para o outro e sai sem olhar para trás.

As suas pernas fraquejam, quase o fazendo cair.

Ele some pelo corredor.

Solto a respiração.

Ergo minha mão direita.

O lugar onde antes estavam as feridas está liso…

Ergo a outra, sem marcas.

As pontas dos meus dedos estão curadas..

Não há ferro dentro… nem sal.

Por que ele fez isso?

O preço de quem cura um prisioneiro na torre do esquecimento é equivalente à morte.

Ele sabia… e mesmo assim me curou.

Já não lembrava da sensação que me toma neste momento.

Olho para o local onde antes estava.

Há um rastro de poeira escura.

Tribo do morcego.

Eles estiveram aqui.

Meus olhos queimam, sinto aquele aperto familiar no peito.

Encaro o sol pela fresta da parede de madeira escura.

Há luz… calor… vida lá fora.

Nos punhos em que fui curado, começam a se abrir novas feridas.

A prata continua a queimar a pele da mesma forma que um ciclo interminável.

Há manchas de sangue seco na minha túnica cor de palha velha.

Ouço gritos estridentes pelo vão.

Altos demais para ser casual.

Horrorosos para não estarem clamando pela vida.

A tortura para soldar quem aguentará viver no inferno.

Os gritos ficam cada vez mais altos, até um grande soluço ecoar e, por fim, silêncio que pesa mais que o choro daqueles que se perderam.

Fecho os olhos, me encontro em um lugar escuro e silencioso.

Só meu.

Meu corpo fica mais leve à medida que afundo dentro de um lugar escuro.

Sem portas.

Sem espelhos.

Frio e de certa forma confortante, permaneço no chão ouvindo o tic-tac do relógio de sal.

Meus encontram um baú parecido com um sarcófago dourado com símbolos das fases das luas talhados, filetes de ouro recobrem as luas, parecendo uma imagem quase proibida para olhos normais.

Avisto grossas correntes de sal, similares a prata, protegendo o sarcófago dourado.

Fico de pé com o ar fugindo dos pulmões enquanto caminho até o proibido.

Meus passos ressoam no chão, com o barulho sendo amplificado cinco vezes mais.

Quase não consigo continuar.

A cada passo, o barulho se intensifica.

Tic-tac.

Tic-tac.

Tic-tac.

Um som semelhante a um sino ecoa, me fazendo curvar no chão.

As mãos vão para as orelhas, rangendo os dentes com força.

— A forja está quase no fim.

Uma voz imponente, mas não parece desse mundo.

Uma mistura de força com tristeza em casa sílaba.

Meus olhos encontram a escuridão, o sarcófago desapareceu.

Abro os olhos, estou na mesma sala.

Tudo está normal.

Ergo minha mão no ar, tem sangue seco onde antes não estava ali.

A manga da túnica desce, revelando a tatuagem que a cada ano aumenta em meus braços, desde os ombros até os punhos.

Espirais de galhos e sombras desenham minha pele, onde antes só era pele lisa.

Não me recordo de ver essas marcas em outro prisioneiro, não posso deixar isso evidente ou serei castigado.

O uso de magia por presos é considerado conspiração de fuga.

Não há julgamento ou votação para os rebeldes, apenas a execução.

A cada nascer do sol, uma nova esperança reacendia em meu âmago.

No início, cheguei a fazer riscos na parede da cela, marcando cada lua.

Durante anos, os riscos foram preenchendo as paredes, até não restar nenhum espaço.

E nesse mesmo momento entendi que a cada deitar da lua, mais um dia estava sendo retirado de mim.

Não lembro como são os traços do meu rosto, somos proibidos de qualquer vaidade.

Banho só em público a cada ciclo lunar.

A vigilância constante não só impediu de ter uma vida normal, mas também amigos.

Nenhum número pode interagir com outro.

Balanço meus pés no ar em uma tentativa falha de sufocar aquele sentimento que parece bile na boca.

Um cheiro familiar adentra antes mesmo da presença chegar.

A porta é aberta sem cerimônias.

— Vejo que já pode retornar ao trabalho, 008.

Sustento o olhar, devolvendo a mesma nuance de cor feia.

Mark segura o bastão de ferro e o aponta para meu peito.

— Por que insiste?

Sua pergunta parece casual demais para alguém como Mark que primeiro estuda seus inimigos para utilizar suas fraquezas contra você da forma mais desprezível possível.

Eu não respondo, não preciso.

Nenhuma reação passa pelo meu semblante.

Vejo a confusão passando por seu rosto de forma rápida.

Ele se recupera, endireitando os ombros.

Empurra o bastão com força para a ponta afiada rasgar a costura da túnica.

Não abaixo o olhar.

Mark curva seus lábios para cima, empurra dessa vez com força.

A pele queima, se abre e um filete de sangue.

— Que seus olhos sejam costurados em sal.

Tribo do Tubarão.

Observo Mark, os olhos azuis… os fios pretos…

Ele recua um passo, depois outro.

Pega o emaranhado de correntes e puxa.

Antes que eu possa colocar o pé no chão, sou arrastado.

Colido com a lateral do rosto quase faturando o osso zigomático.

Ergo o olhar.

Ele não rir, sua expressão é de puro tédio.

Fico de pé, sou mais alto que Mark.

Fraco.

Mark estufa o peito com o rosto em uma máscara de superioridade.

Quase bufo, mas prefiro o silêncio.

O bastão corta o ar, fazendo um arco perfeito, depois desce, encontrando o chão.

O barulho ressoa semelhante um aviso.

— Irá para a fossa.

A fossa é onde os rebeldes trabalham, lá temos que cravar bolas de sal grosso com as mãos até o sangue se misturar ao rico elemento do túnel.

O ambiente também favorece contaminações e mortes acidentais.

Nada me surpreende, já fui umas cem vezes.

Quando termino o serviço, que recebo a permissão de sair, vejo o semblante de derrota dos guardas.

Com um estalar de dedos, sou arrancado dos pensamentos por uma carranca ardilosa.

— 008.

Dou um passo à frente, quase dá para tocar o cheiro de morte que exala no ambiente.

Mark dá um passo para trás.

Puxo as correntes, sigo seus passos, deixando para trás a sala com cheiro de palha e poeira.

Os corredores são escuros, com o mofo impregnado nas paredes, similar a uma segunda pele.

Avisto o pátio estreito sem proteção, os últimos raios de sol adentram, banhando todo o local em um profundo tom de laranja dourado.

O cheiro de queimado invade o ar.

Paro de caminhar, tentando encontrar de onde vem o cheiro.

Mark gira para me fitar, seus lábios se curvam.

Volto a caminhar, olhando para meus pés descalços.

As pedras frias me fazem tropeçar, o aperto no pescoço se intensifica.

Aumento os olhos quando o ar ameaça fugir dos pulmões.

Impulso o corpo para frente, viramos à esquerda, sendo engolidos pela escuridão.

Não há tochas.

A ausência delas faz o frio cair para o extremo da temperatura suportada pelos lobos.

Mark colide com um guarda, ouço um leve desentendimento surgir.

Esse seria o momento esperado para fuga, mas aqui nenhum que tentou conseguiu sair com vida.

Mark grita uma ordem para o outro guarda, que responde retornando ao seu posto.

Ele me arrasta por corredores até chegar a uma escadaria de ferro.

Ele não desce, guardas nunca entram na fossa para trazer prisioneiros, apenas para retirar o que restara.

Depois, são descartados em valas sem identificação.

Ele me empurra escada abaixo.

Cravo minhas unhas no segundo degrau, ouço passos se afastando.

Ele já foi.

Ergo minha outra mão para segurar-me.

Algo rasteja em minha pele, um calafrio percorre o corpo todo.

Aquilo começa a andar sobre meus braços, a cada toque a agonia reverbera.

Balanço meu corpo de um lado para o outro, uma unha se racha, travo o maxilar.

Forço meus braços a cooperarem, em um impulso para cima consigo subir.

Me agacho no degrau, ergo a manga e ali está a pequena aranha.

Retiro-a de lá, coloco-a na parede.

Avisto seus olhos brilhantes mesmo no escuro.

Ignoro a aranha, voltando a descer.

Cada passo é como cair em um calabouço sem fundo.

Percebo que a escadaria chegou ao fim.

Uma única tocha ilumina os presos que trabalham aqui.

Seus rostos me olham com um misto de aceitação e desprezo.

Os corpos quase cadavéricos, vivos por insistência, os mantêm de pé.

Um loiro de cabeça raspada dá um passo à frente, seus olhos cor de ferrugem emitem uma força brutal diferente da sua aparência.

— Trabalhe ao meu lado.

Sua voz dura ecoa.

Assinto com o queixo.

Ando até seu lado.

Um guarda assobia lá de cima.

Todos voltaram para o trabalho, agacho-me ao lado do homem, começamos a cravar.

Uma pedra redonda branca é jogada no meu pé.

O loiro ao meu lado manipula uma para cravar.

— Utilize isto, não machuca.

Pego a pedra, o toque quente é quase confortante.

— Como é seu nome?

Pergunto sem o encarar.

— 005.

Um punhado de sal atinge meus pés.

Olho para o descuido dele, se os guardas veem, é motivo de punição.

Com um movimento rápido junto à sua pilha.

— Félix, meu nome é Félix.

Félix fala baixinho, como alguém que não se recorda do próprio nome.

— Sou o Klaus.

— O herdeiro maldito, ouvi falar de você.

Dou de ombros.

Continuo a cravar, fazendo minha pilha dobrar de tamanho.

—Posso te ajudar.

Félix fala entre os dentes.

— Não tenho nada a lhe oferecer.

Corto.

— Na verdade, você tem o que estou procurando há anos, Klaus.

Semicerro os olhos.

E de repente ouço o sino tocar, passos rápidos vindo lá de cima.

— A hora chegou.

É tudo o que ouço antes de algo atingir a lateral da minha cabeça.

Meus pulmões queimam.

Tudo fica escuro.

Os barulhos cessaram, só resta o silêncio.

E uma pequena brecha que ainda não posso tocá-la.

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