Capítulo 8 – Fugindo do Alfa

Samantha

A dor veio de um jeito que eu nunca tinha sentido. Não era só no peito, não era só na pele, era por dentro dos ossos, como se cada vértebra guardasse um espinho antigo que, de repente, resolvesse crescer. Eu mal conseguia respirar sem sentir que algo me puxava para o fundo. Andei. Andei porque ficar seria morrer devagar.

— “Sam, respira comigo.”

A voz de Arwen tentava abrir espaço entre as costelas.

— “Não deixe a dor ditar o passo.”

— Eu estou tentando. — respondi em sussurro, tropeçando nas raízes. O bosque não tinha piedade. A noite parecia mais densa, como se a própria escuridão estivesse com febre — Se eu ficar, Arwen, eu vou quebrar. Eu conheço esse tipo de dor. Ela não “passa”. Ela se instala.

— “Então vamos sair daqui.”

A loba aproximou-se por dentro, firme, como quem me empresta a espinha.

— “A direção não precisa estar clara. Basta o primeiro passo.”

O primeiro passo foi uma fuga. O segundo, um pedido de ar. O terceiro, coragem sem glamour. Eu não levei nada, além do corpo e do nome. E corri.

As árvores ficaram para trás e voltavam de novo, como um corredor sem fim. O vento cortava o rosto, e eu deixava restos de tristeza nos galhos, como se eles pudessem segurar um pouco do peso para mim.

Em alguns momentos, a lembrança da cerimônia me alcançava e eu engasgava, outra vez os olhos dele, outra vez a palavra cruel, outra vez minha vontade de não desabar para ninguém ver. Eu acelerava. Não era fuga de pessoa. Era fuga de um eco.

— “Sam…” — Arwen buscou meu ritmo — “O corpo cansa. Pare um pouco.”

— Se eu parar, eu desmonto. — respondi, com honestidade bruta — E não sei se consigo juntar depois.

Houve um intervalo, e achei que ela fosse se calar. Em vez disso, veio com uma doçura que não pede licença:

— “Se desmontar, eu ajunto. Mas primeiro, escolha viver.”

Aquilo foi mais forte do que qualquer conselho. Meu pé vacilou num barranco, rolei por uma encosta coberta de folhas, bati o ombro em pedra. A dor física me trouxe de volta ao corpo. Sentei como deu, arfando, e fitei o vazio entre as árvores. O céu tinha janelas de estrelas, e a Lua, alta, me vigiava. Engoli um soluço seco.

— Eu não vou morrer disso, né? — perguntei sem graça, como quem pede uma promessa que ninguém pode dar.

— “Não enquanto eu estiver aqui.” — A convicção de Arwen me sustentou — “Mas a dor quer te fazer acreditar que é maior que você. Não dê a ela esse título.”

Levantei. Recomecei a caminhar. Sem saber exatamente quando, a mata mudou de fisionomia, menos densa, mais alta, com clareiras estreitas como respiradouros.

O ar cheirava a ervas que eu não reconhecia, uma mistura de alecrim com algo úmido e fresco, como nascente. Não era o perfume das nossas trilhas. Era outro lugar.

Foi quando vi… marcas nas pedras, símbolos riscados em espiral, antigos, quase apagados pelo tempo. Toquei um deles com os dedos trêmulos. A pedra estava fria, mas por baixo havia calor. Meu coração desacelerou um pouco.

— “Você não está perdida.” — Arwen se ergueu dentro de mim, atenta — “A Lua guia os passos dos seus. E esses sinais são nossos.”

— Nossos de quem? — Minha voz saiu baixa, desconfiada e curiosa.

— “De quem veio antes de você. De quem lembra o caminho quando todos esquecem.”

Caminhei seguindo as espirais até que a floresta se abriu num círculo perfeito. No meio, um altar de pedra com musgo nas bordas e três tochas apagadas. Não era abandonado, era guardado com o tipo de zelo que dispensa enfeites. Pisei devagar, como se entrasse na casa de alguém que eu respeitasse. A Lua bateu inteiro no centro do círculo.

— Quem está aí?

A voz surgiu das sombras, feminina, grave. Virei rápido. Uma mulher idosa se aproximava com passos firmes, uma capa cinza pendendo dos ombros e tranças compridas salpicadas de prata. Seus olhos eram da cor de chá forte.

— Eu… — As palavras faltaram. Segurei-as com as duas mãos por dentro do peito e soltei só o necessário: — Eu preciso de ajuda.

Ela me estudou com calma. Não com pena. Com leitura.

— A ajuda que você precisa não é remédio. — apontou meu rosto, depois minhas mãos — É lembrança. Vem.

Duas outras figuras surgiram mais atrás, um homem alto com cicatriz no queixo e uma menina quase da minha idade, cabelo preso e olhar curioso. Não senti ameaça. Senti… pertencimento, palavra que eu tinha medo de usar, mas que empurrou meu estômago numa direção nova.

— Quem são vocês? — perguntei, sem dar um passo, porque o corpo sabe quando precisa firmar as raízes antes de mover-se.

— Filhos da Lua. — a idosa respondeu, sem floreios — Clã de Maelin. Esquecidos por muitos, lembrados pelo que importa. — Ela inclinou a cabeça de leve — E você foi trazida. Não por nós. Por ela.

Apontou para o alto. A Lua, vaidosa, não desviou.

— Eu… senti. — admiti — Como se alguém me puxasse pelo nome. E eu corri para não morrer do lado errado de mim.

A idosa sorriu de canto, um sorriso que não promete, mas acolhe.

— Às vezes é assim que começa. — Estendeu a mão — Venha. Sofrer sozinha é luxo que a Lua não exige de ninguém.

Entrei no círculo. A menina se deslocou para acender as tochas com um gesto treinado, o homem ficou de guarda sem parecer guarda. A idosa tocou o meu pulso com dois dedos e, por um segundo, o mundo pareceu ajustar o foco.

— O brilho na sua pele… — ela estreitou os olhos — você foi tocada. Recentemente.

— Fui. — As imagens da clareira, do clarão prateado e da voz que me chamou de “filha” voltaram com força — E desde então não sei se estou acordada ou dormindo.

— Está desperta. — ela disse com firmeza — Seu corpo está aprendendo outra língua. Nós vamos ensinar as primeiras palavras.

— E… o nome da senhora?

— Maelin. — Ela assentiu, simples — Me siga.

Atrás do círculo, uma trilha curta levava a construções de madeira e pedra, baixas e cuidadas. Havia ervas penduradas sob beirais, tigelas de cerâmica em bancadas, panos limpos estendidos ao vento. Não era uma aldeia grande, era um refúgio. Me ofereceram água morna com folhas amargas. Bebi. O estômago protestou, mas aos poucos assentou.

— Diga seu nome. — Maelin pediu.

— Samantha Hale.

Ela repetiu, provando o som.

— Samantha. — E então tocou meu ombro, de leve — Fique. Não pelo tempo do medo, pelo tempo de aprender.

Eu quis dizer “eu volto para casa” por impulso, mas a palavra “casa” se deslocou, e entendi que, por enquanto, casa era onde o ar me deixava respirar. Assenti. Maelin sorriu.

— Vamos começar por onde sempre começamos, coluna, respiração, escuta.

Eu ri sem humor.

— Não tem feitiço?

— Isso é feitiço. — a menina respondeu do canto, com um brilho divertido nos olhos — Só não é bonito de ver no começo.

Maelin ergueu o queixo.

— Postura da lua nova. — mandou — Pés firmes, joelhos soltos, costas alongadas. — Ela posicionou minha mão no baixo-ventre — Aqui é o seu eixo. Se isso bagunça, o resto cai. Respire como quem arruma prateleira: devagar.

Obedeci. A cada inspiração, tentava desatar nós invisíveis. A cada expiração, deixava o que não servia escorrer para o chão. Arwen deitou dentro de mim, atenta, como loba que guarda filhote.

— “Eu fico aqui.”

— Eu sei. — sussurrei, sem medo de parecer louca naquela casa onde falar com a própria loba não causava espanto.

Depois, Maelin me levou para a área de treino. O homem alto com cicatriz, Oren, trouxe dois bastões de madeira polida. Eu arregalei os olhos.

— Mas eu não quero brigar.

— Não vai. — Oren falou muito pouco, mas cada palavra parecia medida — Vai aprender a dizer “basta” com o corpo inteiro.

Ele avançou devagar, sem brutalidade, apenas para testar meus reflexos. Eu errei a primeira defesa, tropecei na segunda, quase caí na terceira.

Arwen grunhiu por dentro, não de raiva, de incentivo. A quarta tentativa saiu menos desastrosa, consegui desviar com o bastão, embora o movimento estivesse duro.

— Mais leve. — Maelin corrigiu — Força sem flexibilidade quebra. E lembre, sua pele não é só pele. É canal.

— Canal?

— Para luz. — Maelin pousou a mão entre minhas escápulas, e uma onda morna espalhou-se — Você vai aprender a chamar o que te atravessou naquela clareira. Mas sem pedir que venha, convidando.

Respirei. Convidei. Algo vibrou, ainda tímido, como corda afinando. Oren atacou de novo, agora um pouco mais rápido. Em vez de bloquear, eu movi o corpo de lado, quase por instinto, e a madeira passou sem me tocar.

— Melhor. — Oren disse, econômico.

Treinamos até o braço pesar. Eu tremia por inteiro, mas era um tremor vivo, de quem descobre músculos que nem sabia que tinha.

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