Ayres
O mundo oscilava entre luz e sombra. O gosto metálico do sangue escorria pela minha boca, e cada respiração parecia puxar ferro em brasa para dentro do peito. A lâmina de Kaius não só havia cortado carne, tinha atravessado minha alma.
Por um instante, não ouvi mais o som da batalha. Nem uivos, nem tiros, nem gritos. Apenas silêncio.
Nesse silêncio, uma voz atravessou.
— Ayres… fica comigo. Eu te amo! — a voz de Sam, quebrada, desesperada.
Meu coração, que se arrastava para o fundo de um abismo, vacilou. Amor. Eu ouvi a palavra que passei a vida inteira temendo.
Fechei os olhos e vi.
Voltei a ser criança. O campo queimava em volta, os gritos dos caçadores ecoavam na noite, e minha mãe corria. Lembro do cheiro de fumaça, do peso do medo, do olhar dela antes da bala. Sempre foi esse o fim do sonho: ela morrendo, e eu, menino, ficando órfão.
Mas dessa vez, algo mudou.
Não vi minha mãe caída. Vi Samantha. Ela estava diante de mim, com as mãos pressionando o meu peito, os olhos mareja