Ayres
A madrugada trazia um frio que eu conhecia desde menino, aquele que não se resolve com fogo, só com verdade. Patrulhei o limite norte com Joran e dois jovens.
O vento vinha do vale carregando cheiro de metal, óleo e algo pior: gente que não pertence a este território. Parei, ergui a cabeça e deixei Fenrir abrir os sentidos.
— “Cheiro de humano armado.” — ele roçou por dentro, a voz baixa como passo de caça — “E mais… lobo que não é dos nossos.”
— Kaius. — respondi, com a certeza que a gente não quer ter — Ele voltou.
Seguimos encostando no escuro, em silêncio de tática e foco. Do alto do barranco, vimos as luzes de uma fogueira apagada às pressas, marcas de bota, cinzas abafadas, pegadas com solado estranho. Ao lado, marcas de garras. A mensagem era clara: gente e lobo dividindo pão. Não por amizade. Por acordo.
Joran fez um gesto pedindo ordem.
— Não nos aproximamos mais. — falei — Quero todos de volta, rápido. Avisamos as bordas, dobramos as rondas e fechamos o portão menor.