Mundo de ficçãoIniciar sessãoAyres
Tentei pensar na próxima semana, nas colheitas, no revezamento das caças. O cérebro foi para onde quis… os olhos dela. Aqueles olhos têm jeito de verão e de inverno ao mesmo tempo. Só de lembrar, a garganta apertou. — “Você não é seu pai.” — A frase de Fenrir veio redonda. — Eu sei. — “Então prove.” — Para quem? — “Para mim. Para ela. Para você.” Eu ri sem humor. — Você quer que eu me ajoelhe? — “Quero que pare de se esconder atrás do título.” — Fenrir não mordeu, mostrou os dentes da verdade. — “Quando você chamou a dor de fraqueza, quem tremeu foi você. Não ela.” A resposta ficou entalada. Eu tinha como discutir com humanos. Com o meu lobo, eu só podia reconhecer. A teimosia cedeu um passo. Não mais do que isso. Mas, às vezes, é com um passo que uma vida inteira muda de direção. A noite seguinte veio com um céu limpo e um frio bom, desses que deixam a cabeça mais clara. Fiz um percurso mais longo nas rondas, sozinho, como eu costumava fazer quando precisava ouvir as árvores pensarem. Fenrir me acompanhou num silêncio confortável, até que um som atravessou a mata, suave como nota de flauta, um uivo feminino, não em busca de ajuda, mas em conversa com a própria Lua. Não era lamento. Era firmeza. — “Arwen.” — Fenrir reconheceu antes de mim. — “Ela canta baixo para não acordar as crianças.” Eu sorri, um gesto raro, que só eu e meu lobo saberíamos que aconteceu. — Ela sempre foi assim? — perguntei, curioso por algo que não fosse relatório e guarda. — “A loba segue a mulher. Se a mulher é leal, a loba é constante. Se a mulher suporta o peso sozinha, a loba sustenta a espinha. Arwen é isso.” — E ela é doce? — “Doce como água em pedra quente. Refresca. Não enfraquece.” A imagem de Samantha veio inteira, como se estivesse a dois passos, o vestido branco simples, o queixo erguido mesmo quando eu a feri, as mãos firmes mesmo quando tudo nela poderia ter desabado. E, por baixo de tudo, aquela luz que parecia nascer da pele. Eu segui o faro sem perceber e cheguei perto da clareira atrás do chalé dos órfãos. Lá estava ela, sentada sobre um tronco, o rosto erguido para o céu. A Lua brincava de se esconder nas nuvens, mas sempre voltava, iluminando o perfil dela. Parei na borda da mata e fiquei. Não chamei. Não ousei. Só fiquei ali, tentando entender por que a minha respiração, que sempre se mantinha estável em qualquer caça, acelerava diante de uma mulher parada. — “Fale.” — Fenrir empurrou, mas com gentileza — “Homem que não fala deixa o monstro falar por ele.” Mas eu não falei. Não dessa vez. Apenas observei. Samantha não chorava. Não se curvava. Ela erguia o rosto para a Lua como se conversasse com alguém maior que nós dois. E eu soube, ela não precisava de mim para se manter de pé. Talvez fosse esse o maior golpe, e também o que mais me atraía. Fenrir se moveu dentro de mim, inquieto. — “Você a rejeitou, mas ela não quebrou. Isso deveria te envergonhar e, ao mesmo tempo, ensinar.” Engoli em seco, ainda imóvel. Se desse um passo, estragaria aquela força silenciosa. Preferi guardar a cena só para mim, como um segredo. Voltei para a casa grande com um nó preso no peito. Sentei à beira da cama e encarei as mãos, ainda sujas de terra da ronda. Eu não sabia como sustentar duas verdades ao mesmo tempo: que rejeitá-la era o que eu acreditava ser certo, e que, mesmo assim, tudo em mim gritava o nome dela. Antes de dormir, Fenrir ainda me cutucou uma última vez: — “Você está atrasado, mas está indo.” — Não posso me perder. — sussurrei. — “Não vai.” — Ele escureceu as asas do pensamento e pousou — “Ela é farol.” Fechei os olhos. Sonhei com a floresta sem fumaça, com a minha mãe rindo, não sangrando, e comigo ereto, sem muros. Samantha estava no sonho também, mas não como salvação. Como escolha. Acordei antes do amanhecer com uma certeza que eu não tinha no dia anterior, quando o destino chama, não é para nos prender. É para nos ensinar a ficar por vontade. Eu ainda não sabia pedir. Mas eu já sabia ouvir. E, se a Lua me deu ouvidos antes de me dar coragem, é porque ela sabia o caminho que eu conseguiria percorrer primeiro. Quando o sol já se esgueirava pela janela, decidi procurar meu pai. Ele não era homem de esperas, sempre dizia que quem carrega o título de Alfa não tem direito a descansar. Encontrei-o no pátio de treino, o corpo ainda firme apesar da idade, os olhos duros como quando eu tinha doze anos. — Você me chamou? — perguntei. Ele ergueu o olhar da espada que afiava e assentiu, lento. — Não precisava chamar. Você sabe quando precisa ouvir. Cruzei os braços, tentando conter Fenrir, que se agitava em silêncio. — E o que preciso ouvir agora? Meu pai fincou a lâmina no chão, apoiou as mãos calejadas no punho e me encarou. — Que fez certo. Que não existe amor destinado que sustente um Alfa. — A voz era como pedra batendo em pedra — Você falou com firmeza diante da alcateia, e isso os manterá em linha. — Firmeza ou medo? — questionei antes que pudesse me calar. O olhar dele afiado estreitou. — É a mesma coisa, Ayres. O respeito nasce do temor. E temor mantém a ordem. Foi isso que eu ensinei a você. Fiquei em silêncio. Ele continuou, como quem esculpe verdades no ar. — Eu amei a sua mãe. E ela morreu. E o que nos restou? Um menino chorando, que precisei moldar a ferro para não perder a alcateia inteira. Se não tivesse feito isso, estaríamos todos debaixo da terra. Amor não salva, filho. Amor mata. Fenrir rosnou dentro de mim, mas fiquei imóvel. — Não é fraqueza proteger o coração. — ele disse, mais baixo, quase confidencial — É estratégia. A fraqueza é acreditar que sentimento não cobra preço. Suspirei, prendendo a língua antes que a fúria de Fenrir escapasse pelos meus lábios. — E se a Lua tiver outro plano? — arrisquei. Ele riu, áspero. — A Lua não carrega corpos mortos, Ayres. Homens sim. Você é Alfa. O resto é distração. As palavras dele ficaram na pele como brasas. Por um lado, o peso do sangue exigia que eu seguisse o que aprendi. Por outro, Fenrir rugia em silêncio, lembrando que eu já senti a verdade no salão, quando Samantha ergueu os olhos para mim e não quebrou. Meu pai não esperou resposta. Retirou a espada do chão e voltou a afiá-la, como se nossa conversa fosse só mais uma lição entre muitas. Mas dentro de mim, a guerra não terminou.






