Ayres
Quando a noite erguia o pano, fui até o lago. Eu sabia que a encontraria ali. A água se comportava como sempre faz quando a Lua decide escrever em cima dela, parecendo vidro, parecendo caminho.
Ela estava de pé, a mesma postura da clareira, só que agora sem urgência. Eu parei antes, como prometi a mim mesmo que faria, a um braço de distância daquilo que desejo e respeito ao mesmo tempo.
— A matilha já a vê como minha Luna. — falei, num tom que não precisava de esforço para caber — Mesmo que você ainda não me aceite. Eu não posso negar o que o destino escreveu.
Ela virou só o rosto, o reflexo do luar desenhando traço bonito na maçã do rosto. Não havia triunfo ali. Havia cansaço, firmeza e uma espécie de doçura sem açúcar, dessas que tratam ferida com pano limpo.
— Destino não é desculpa para a covardia, Ayres. — respondeu, sem dar golpes abaixo da cintura — Se quiser provar que mudou, comece por mostrar que pode proteger sua matilha sem medo de sentir.
A frase entrou sem lascar.