Ayres
Volto ao velho cenário que me persegue há anos, a casa da infância, a cozinha com fumaça, os latidos. Vejo a porta, vejo as sombras, vejo a mulher que me deu o nome. A mesma sequência que sempre volta.
Eu costumo acordar antes da pior parte, mas a mente decide me levar até o fim. Os cães avançam, os passos de homens, o cheiro de pólvora. Ela se vira para mim e manda correr.
Desta vez, algo muda.
Não é minha mãe quem cai. É Samantha.
O vestido claro fica manchado num tom escuro que se espalha. O rosto dela não tem acusação, tem urgência. Ela me chama pelo nome como se ele ainda pudesse me salvar de mim.
— Ayres… — os lábios tremem, mas a voz é firme — Não me deixa. Vem.
Eu quero ir. Quero mover as pernas que sempre me obedeceram. Não consigo. O corpo está preso à madeira do chão. Abro a boca e nada sai. O queixo dói de tanto tentar. O coração bate tão alto que atrapalha o ouvido. Tento levantar. A cozinha some.
A mata toma o lugar. Samantha está no centro, ajoelhada. Ela estend