Rafaela acordou devagar.
Primeiro veio o cheiro — limpo demais para ser conhecido. Depois o som constante do soro pingando. Por fim, a luz branca no teto.
Ela tentou se mover e sentiu o corpo pesar. A cabeça girou levemente.
— Calma.
A voz foi baixa. Firme. Ela virou o rosto devagar.
Imperador estava sentado na cadeira ao lado da cama. Não parecia ameaçador ali. Mas também não parecia fora de controle. Estava imóvel, os braços apoiados nas pernas, o olhar atento demais para alguém que comandava um morro inteiro.
Rafaela demorou alguns segundos para lembrar onde estava.
Então lembrou.
O galpão.
A arma.
O carro.
Fernanda.
Ela tentou sentar.
— Ei — ele disse, levantando a mão sem tocar nela. — Devagar.
— A Fer… — a voz saiu fraca. — Ela…
— Tá viva.
Rafaela fechou os olhos por um segundo, o alívio quase fazendo o corpo desabar de novo.
— Posso ver ela?
— Ainda não. Ela ta dormindo, Sombra ta com ela.
Ela mordeu o lábio, segurando o medo que insistia em voltar. A porta do quarto se abriu. Uma enfermeira entrou com uma prancheta nas mãos.
— Ela acordou?
— Sim — Imperador respondeu.
A enfermeira se aproximou da cama, examinando Rafaela com olhar clínico, mas não indiferente.
— Você precisa ficar calma — disse, ajustando o soro. — Está desidratada e muito fraca.
Rafaela não respondeu. A enfermeira hesitou antes de continuar.
— O senhor é responsável por ela? — perguntou a Imperador.
Ele sustentou o olhar dela.
— Sou.
A enfermeira assentiu.
— O diagnóstico dela é semelhante ao da outra menina.
Imperador não desviou o olhar.
— Fala.
A enfermeira respirou fundo.
— Além da exaustão e desidratação severa, encontramos sinais de agressões antigas. Muitas.
Rafaela enrijeceu na cama.
— Não… — sussurrou, quase instintivamente.
A enfermeira suavizou o tom.
— Não estou julgando. Só estou explicando.
Ela voltou-se para Imperador.
— Há fraturas mal consolidadas. Uma no tornozelo antigo, outra em um dos dedos da mão. Nunca tratadas corretamente. O osso cicatrizou torto.
O maxilar dele travou.
— Também há cicatrizes de queimadura superficiais — continuou. — Não recentes. E sinais compatíveis com abuso prolongado.
O quarto ficou pesado. Imperador sentiu algo subir pelo peito. Não era surpresa. Ele já tinha visto marcas no corpo dela no galpão. Mas ouvir aquilo assim, organizado em palavras clínicas, deu outra dimensão ao que estava diante dele.
— Quanto tempo? — ele perguntou, voz controlada.
— Anos.
Rafaela virou o rosto para o lado, lágrimas silenciosas escorrendo para o travesseiro.
— A alimentação dela também foi irregular por muito tempo — a enfermeira completou. — O corpo apresenta sinais de privação alimentar recorrente. Provavelmente passava dias com pouco ou nenhum alimento.
O silêncio se prolongou.
— Ela vai se recuperar? — Imperador perguntou.
— Fisicamente, sim. Mas vai levar tempo. O psicológico… isso é mais complexo. Elas duas precisarão de acompanhamento.
A enfermeira fechou a prancheta.
— Ela está estável agora. Mas precisa descansar.
Quando a porta se fechou, o quarto voltou ao silêncio. Rafaela limpou o rosto com dificuldade.
— Eu não queria que você ouvisse isso — ela murmurou.
Imperador a observou por alguns segundos.
— Eu precisava ouvir.
Ela não entendeu. Ele se levantou da cadeira e se aproximou da cama, mas manteve distância suficiente para não invadir.
— Quem fez isso com você? — perguntou, sem elevar o tom.
Rafaela ficou em silêncio. Os olhos dela ficaram vidrados, como se revissem algo que preferia não lembrar.
— Eu não posso falar — disse finalmente.
— Eles tão procurando vocês?
O medo voltou ao rosto dela na mesma hora.
— Você vai devolver a gente?
A pergunta saiu crua. Imperador respirou fundo.
— Se eu fosse devolver, vocês já não estavam aqui.
Ela o encarou, tentando medir verdade nas palavras dele.
— Eu não posso voltar — ela sussurrou. — Se eu voltar… a gente não aguenta.
Ele viu ali algo que reconhecia. Não medo simples. Não desespero momentâneo.
Era sobrevivência.
Ele puxou a cadeira novamente e sentou ao lado dela.
— Você não vai voltar.
Rafaela piscou devagar.
— Por quê?
Ele sustentou o olhar dela.
— Porque agora vocês estão sob minha responsabilidade.
A palavra responsabilidade não soava leve saindo dele.
— E eu não abandono o que tá sob minha responsabilidade.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Você nem conhece a gente.
— Não preciso conhecer tudo pra saber o suficiente.
Ela respirou fundo, o corpo ainda fraco.
— A Fer… a gente se protegeu como dava.
— Agora é minha vez.
A frase saiu antes mesmo que ele percebesse que estava dizendo.
Rafaela fechou os olhos, exausta demais para processar tudo. Mas, pela primeira vez desde que correu da garagem, o corpo relaxou um pouco.
Imperador observou o rosto dela adormecer novamente.
As marcas no braço. A cicatriz antiga perto da clavícula. A fragilidade escondida sob camadas de resistência.
Ele já tinha enfrentado guerra.
Já tinha enterrado amigo.
Já tinha decidido destinos sem hesitar.
Mas aquilo era diferente.
Ali não era território.
Não era poder.
Era escolha.
E ele já tinha feito a dele.
Lá fora, no corredor, Sombra permanecia sentado diante do quarto de Fernanda.
Dentro de dois quartos brancos, duas histórias quebradas começavam a se cruzar com o império que eles construíram.
E nada — absolutamente nada — voltaria a ser simples depois daquela noite.