O ar entrou nos pulmões como se ela tivesse esquecido como respirar. O teto branco acima dela não fazia sentido. A luz era forte demais. O silêncio, limpo demais.
Por um segundo, ela não sabia onde estava.
Então o medo veio.
Ela tentou se levantar bruscamente, mas o corpo não respondeu como deveria. A dor na lateral do corpo a fez gemer baixo. O braço puxou o soro sem querer.
— Calma.
A voz veio firme.
Ela virou o rosto rápido demais, o coração disparado.
Sombra levantou da cadeira ao lado da cama e foi até ela.
— Você tá segura — ele disse, aproximando-se devagar. — Não precisa ter medo.
Mas ela tinha.
Os olhos dela estavam arregalados. A respiração curta. O corpo inteiro rígido, como se esperasse algo ruim a qualquer segundo.
— Onde eu tô? — a voz saiu falha.
— No posto do morro.
Ela piscou algumas vezes, tentando organizar a memória.
— Rafa? — perguntou imediatamente, a voz quebrando. — Cadê a Rafa?
Ele respondeu sem hesitar.
— Tá bem. Tá no quarto ao lado.
O corpo dela relaxou um centímetro. Só um.
— Você tem certeza? — insistiu.
— Tenho.
Ele manteve o olhar no dela, firme, estável. Não agressivo.
— Ela tá viva. Tá cuidada. Eu prometo.
Fernanda respirou fundo, mas o medo ainda vibrava na pele. Ela o observava com atenção exagerada. Cada movimento dele parecia ser analisado.
Sombra percebeu.
Ele manteve as mãos visíveis. Não se aproximou além do necessário.
— Ninguém vai tocar em você sem sua permissão — disse, calmo. — Aqui você não precisa se defender o tempo todo.
Ela engoliu seco.
— Você não vai… — ela começou, mas não conseguiu terminar.
— Não vou — ele respondeu antes que ela dissesse. — Eu não vou te machucar.
Ela ficou em silêncio, os olhos ainda desconfiados.
A mente dela parecia dividida entre acreditar e se proteger.
— Você vai ficar bem — ele continuou. — A médica falou que vai demorar um pouco. Mas você vai se recuperar.
Ela olhou para o próprio braço, para o curativo na lateral do corpo.
— Eu não gosto de hospital — murmurou.
— Eu também não.
Ela quase sorriu, mas não chegou a completar.
O silêncio se instalou de novo, menos pesado do que antes.
Sombra se afastou um pouco.
— Eu vou no banheiro — avisou, apontando a porta pequena ao lado. — Já volto.
Ela assentiu devagar.
Assim que ele entrou no banheiro, a porta do quarto se abriu.
Um enfermeiro entrou.
Alto, expressão indiferente, luvas nas mãos.
— Licença — disse, num tom automático. — Vamos dar uma olhada em você.
Fernanda enrijeceu na hora.
— Não — respondeu rápido demais.
Ele fechou a porta atrás de si.
— É só exame.
Ela puxou o lençol até o queixo, o corpo tremendo.
— Eu não quero.
— Você precisa.
Ele deu um passo à frente.
Fernanda começou a respirar rápido.
— Não chega perto — pediu, a voz falhando. — Por favor.
O enfermeiro soltou uma risada curta.
— Não precisa fazer drama.
O som da risada foi o gatilho.
O corpo dela entrou em pânico real. Ela tentou se encolher mais, tentando desaparecer dentro da cama.
— Sai — disse, agora quase gritando. — Sai!
O enfermeiro revirou os olhos.
— Fica quieta.
Ele deu mais um passo.
A porta do banheiro se abriu com força.
Sombra saiu como um bicho. Não foi rápido. Foi imediato.
Os olhos dele estavam diferentes. A respiração pesada. O corpo inteiro tensionado como se algo primitivo tivesse sido acionado.
Ele cruzou o quarto em dois passos.
— Afasta.
A voz saiu baixa demais. Perigosa demais.
O enfermeiro congelou por um segundo.
— Eu só—
Sombra o segurou pela gola antes que ele terminasse.
Não foi violento. Foi firme.
— Eu disse. Afasta.
O quarto ficou pequeno. O enfermeiro tentou recuperar a postura.
— Ela precisa ser examinada.
— Por mulher — Sombra cortou.
O olhar dele era diferente agora. Não era ameaça gratuita. Era aviso.
Fernanda, na cama, ainda tremia. Os olhos marejados fixos na cena.
— Eu não quero ele aqui — ela sussurrou.
Isso foi o suficiente.
Sombra soltou o enfermeiro, mas não recuou.
— Chama uma enfermeira. AGORA! — ordenou.
O enfermeiro respirou fundo, engolindo o orgulho.
— Isso não é—
Sombra deu meio passo à frente.
Não precisou dizer mais nada.
O homem saiu do quarto.
A porta fechou.
O silêncio voltou, mas não era o mesmo de antes. Sombra virou para Fernanda imediatamente.
O rosto dele mudou.
— Ele não vai voltar — disse, mais calmo. — Eu tô aqui.
Ela ainda tremia. Ele se aproximou devagar, mas manteve distância respeitosa.
— Ninguém vai encostar em você sem você querer. Entendeu?
Ela assentiu, os olhos ainda molhados.
— Eu achei que… — ela começou, mas não terminou.
— Não precisa explicar.
Ela ficou olhando para ele por alguns segundos.O medo ainda estava ali. Mas não era o mesmo medo de antes.
Era diferente.
Mais frágil.
Mais humano.
Ele puxou a cadeira novamente e sentou ao lado da cama.
— Descansa — disse, firme. — Eu não saio daqui.
E, pela primeira vez desde que abriu os olhos, Fernanda acreditou um pouco nisso.