RAFAELA

Eu não pensei.

Se tivesse pensado, não teria corrido.

A garagem estava aberta, do jeito que a gente esperava. Caminhão parado, caixas de bebida sendo descarregadas, gente demais rindo alto demais. Ninguém olha para duas meninas passando rápido quando o foco é festa, álcool e barulho.

Foi Fernanda quem apertou minha mão primeiro.

— Agora.

E a gente foi.

Corremos sem olhar pra trás. O coração batendo tão alto que parecia grito. O chão frio da garagem virou asfalto, virou rua, virou qualquer coisa que não fosse aquela casa. Minhas pernas tremiam, mas continuavam. Não sei como.

Só sei que continuei.

A mão da Fernanda na minha era tudo. Tudo o que me prendia no mundo. Se eu soltasse, eu caía. Se eu soltasse, eu voltava. E voltar não era opção.

A gente já estava um pouco afastada quando ouvi.

Primeiro os cachorros.

Latido alto, desesperado, como se sentissem o medo no ar. Meu estômago afundou na hora.

— Fer… — sussurrei, mas ela já tinha ouvido.

Depois vieram os gritos.

— EI!

— ELAS!

— PEGA!

Não olhei pra trás. Não podia. Se olhasse, minhas pernas iam desistir. A mão da Fernanda apertou mais forte, quase doendo.

Então veio o som que eu conhecia desde pequena.

Tiro.

O barulho cortou o ar atrás da gente. Um, dois, talvez mais. Não contei. Só corri. O ar queimava no peito. A garganta doía. Meus pés pareciam não tocar o chão.

A estrada de terra apareceu de repente, como se o mundo tivesse acabado ali. Escura, larga, sem nada pra se esconder. E eles atrás. Eu sentia. Não precisava ver.

Outro tiro.

Fernanda tropeçou.

— Fer!

Ela caiu de joelhos, me puxando junto. O mundo parou por um segundo inteiro. Olhei pra ela e vi a mão na cintura, os dedos sujos de sangue.

— Me acertaram — ela disse, com a voz estranha.

— Mas saiu… saiu.

Meu corpo gelou.

— Levanta — falei, sem saber de onde tirei voz. — Levanta agora.

Ela tentou. Gritou baixo. Mordeu o próprio lábio. A bala não ficou, mas o estrago ficou. O sangue escorria rápido demais. Minhas mãos tremiam quando fui apoiar ela.

— Dá pra andar — ela disse, respirando curto. — Só… dói.

Não pensei. Passei o braço dela por cima do meu ombro e puxei.

— Então a gente anda.

A mata estava ali do lado. Escura, fechada, assustadora. Mas melhor do que a estrada. Entramos sem pensar. Galhos arranhando o rosto, as pernas, os braços. O chão irregular quase derrubando a gente.

Ouvi passos passando perto. Vozes apressadas. Gente xingando.

— Elas foram pra cidade!

— Corre atrás!

Eles passaram direto.

Ficamos paradas, encolhidas, segurando a respiração como se o barulho do nosso coração pudesse denunciar a gente. O sangue da Fernanda pingava no chão. Eu apertei a blusa dela contra a ferida, tentando estancar.

— Aguenta — sussurrei, com a boca colada no ouvido dela. — Por favor… aguenta.

Ela assentiu, os olhos fechados.

Ficamos ali até o silêncio voltar. Até o medo baixar um pouco. Até minhas pernas pararem de tremer tanto.

Depois, andamos.

Não sei dizer quanto tempo. Horas, talvez. A mata parecia não acabar nunca. Cada passo da Fernanda era um gemido preso. Ela apoiava o peso em mim e eu sentia minhas costas queimarem, mas não parei.

— Descansa um pouco — eu disse algumas vezes.

— Não — ela respondia. — Se parar, eu caio.

Então não paramos.

O céu estava mais escuro. Ou talvez tenha sido só impressão. O mundo parecia girar devagar. Minha cabeça doía. Minhas mãos estavam vermelhas de tanto segurar o pano contra o corpo dela.

— Rafa… — ela chamou, fraca. — Se eu não conseguir…

— Consegue — cortei. — Você sempre consegue.

Ela sorriu de canto, mesmo assim.

— Você mente mal.

— Não hoje.

Andamos mais. Muito mais. Quando achei que não dava mais, vi algo diferente entre as árvores. Uma construção velha. Grande. Escura. Um galpão.

Meu coração bateu mais forte.

— Olha — apontei. — Ali.

Ela ergueu a cabeça com dificuldade.

— Parece abandonado…

— É perfeito.

Chegamos tropeçando. A porta estava entreaberta. Empurrei com cuidado e entramos. O cheiro de ferrugem e poeira me fez tossir. Mas não importava. Era teto. Era sombra. Era um lugar onde ninguém gritava nosso nome.

Ajudei Fernanda a sentar no chão.

Ela estava pálida. Suada. O sangue ainda escorria devagar.

— Eu não vou dormir — ela disse rápido, como se lesse meu pensamento.

— Não dorme — falei, segurando o rosto dela entre as mãos. — Fica comigo.

Ela assentiu.

Encostei a testa na dela e fechei os olhos por um segundo.

A gente fugiu.

Machucada. Sangrando. Com medo.

Mas fugiu.

E naquele galpão abandonado, sem saber, a nossa fuga estava prestes a encontrar algo muito maior do que a gente imaginava.

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