Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu não pensei.
Se tivesse pensado, não teria corrido. A garagem estava aberta, do jeito que a gente esperava. Caminhão parado, caixas de bebida sendo descarregadas, gente demais rindo alto demais. Ninguém olha para duas meninas passando rápido quando o foco é festa, álcool e barulho. Foi Fernanda quem apertou minha mão primeiro. — Agora. E a gente foi. Corremos sem olhar pra trás. O coração batendo tão alto que parecia grito. O chão frio da garagem virou asfalto, virou rua, virou qualquer coisa que não fosse aquela casa. Minhas pernas tremiam, mas continuavam. Não sei como. Só sei que continuei. A mão da Fernanda na minha era tudo. Tudo o que me prendia no mundo. Se eu soltasse, eu caía. Se eu soltasse, eu voltava. E voltar não era opção. A gente já estava um pouco afastada quando ouvi. Primeiro os cachorros. Latido alto, desesperado, como se sentissem o medo no ar. Meu estômago afundou na hora. — Fer… — sussurrei, mas ela já tinha ouvido. Depois vieram os gritos. — EI! — ELAS! — PEGA! Não olhei pra trás. Não podia. Se olhasse, minhas pernas iam desistir. A mão da Fernanda apertou mais forte, quase doendo. Então veio o som que eu conhecia desde pequena. Tiro. O barulho cortou o ar atrás da gente. Um, dois, talvez mais. Não contei. Só corri. O ar queimava no peito. A garganta doía. Meus pés pareciam não tocar o chão. A estrada de terra apareceu de repente, como se o mundo tivesse acabado ali. Escura, larga, sem nada pra se esconder. E eles atrás. Eu sentia. Não precisava ver. Outro tiro. Fernanda tropeçou. — Fer! Ela caiu de joelhos, me puxando junto. O mundo parou por um segundo inteiro. Olhei pra ela e vi a mão na cintura, os dedos sujos de sangue. — Me acertaram — ela disse, com a voz estranha. — Mas saiu… saiu. Meu corpo gelou. — Levanta — falei, sem saber de onde tirei voz. — Levanta agora. Ela tentou. Gritou baixo. Mordeu o próprio lábio. A bala não ficou, mas o estrago ficou. O sangue escorria rápido demais. Minhas mãos tremiam quando fui apoiar ela. — Dá pra andar — ela disse, respirando curto. — Só… dói. Não pensei. Passei o braço dela por cima do meu ombro e puxei. — Então a gente anda. A mata estava ali do lado. Escura, fechada, assustadora. Mas melhor do que a estrada. Entramos sem pensar. Galhos arranhando o rosto, as pernas, os braços. O chão irregular quase derrubando a gente. Ouvi passos passando perto. Vozes apressadas. Gente xingando. — Elas foram pra cidade! — Corre atrás! Eles passaram direto. Ficamos paradas, encolhidas, segurando a respiração como se o barulho do nosso coração pudesse denunciar a gente. O sangue da Fernanda pingava no chão. Eu apertei a blusa dela contra a ferida, tentando estancar. — Aguenta — sussurrei, com a boca colada no ouvido dela. — Por favor… aguenta. Ela assentiu, os olhos fechados. Ficamos ali até o silêncio voltar. Até o medo baixar um pouco. Até minhas pernas pararem de tremer tanto. Depois, andamos. Não sei dizer quanto tempo. Horas, talvez. A mata parecia não acabar nunca. Cada passo da Fernanda era um gemido preso. Ela apoiava o peso em mim e eu sentia minhas costas queimarem, mas não parei. — Descansa um pouco — eu disse algumas vezes. — Não — ela respondia. — Se parar, eu caio. Então não paramos. O céu estava mais escuro. Ou talvez tenha sido só impressão. O mundo parecia girar devagar. Minha cabeça doía. Minhas mãos estavam vermelhas de tanto segurar o pano contra o corpo dela. — Rafa… — ela chamou, fraca. — Se eu não conseguir… — Consegue — cortei. — Você sempre consegue. Ela sorriu de canto, mesmo assim. — Você mente mal. — Não hoje. Andamos mais. Muito mais. Quando achei que não dava mais, vi algo diferente entre as árvores. Uma construção velha. Grande. Escura. Um galpão. Meu coração bateu mais forte. — Olha — apontei. — Ali. Ela ergueu a cabeça com dificuldade. — Parece abandonado… — É perfeito. Chegamos tropeçando. A porta estava entreaberta. Empurrei com cuidado e entramos. O cheiro de ferrugem e poeira me fez tossir. Mas não importava. Era teto. Era sombra. Era um lugar onde ninguém gritava nosso nome. Ajudei Fernanda a sentar no chão. Ela estava pálida. Suada. O sangue ainda escorria devagar. — Eu não vou dormir — ela disse rápido, como se lesse meu pensamento. — Não dorme — falei, segurando o rosto dela entre as mãos. — Fica comigo. Ela assentiu. Encostei a testa na dela e fechei os olhos por um segundo. A gente fugiu. Machucada. Sangrando. Com medo. Mas fugiu. E naquele galpão abandonado, sem saber, a nossa fuga estava prestes a encontrar algo muito maior do que a gente imaginava.






