FERNANDA

Eu acordo antes do dia nascer.

Não é porque quero. É porque o corpo aprendeu sozinho que dormir demais é perigoso. O escuro ainda cobre tudo quando abro os olhos, e por alguns segundos fico parada, tentando lembrar onde estou. O teto é baixo. A parede tem uma rachadura comprida que parece um risco torto. O cheiro é sempre o mesmo: poeira velha, mofo e roupa úmida.

O colchão embaixo de mim é fino demais. Tão fino que às vezes acho que não tem nada ali. Só o chão duro fingindo que dá descanso. Viro devagar, com cuidado pra não acordar Rafaela de uma vez. Ela dorme grudada em mim, como sempre. A gente dorme assim desde que chegou aqui — juntas, encolhidas, tentando espantar o frio e o medo com o pouco de calor que dá pra dividir.

Rafa tem o rosto meio escondido no meu pescoço. O cabelo bagunçado, os lábios entreabertos. Mesmo dormindo, ela parece cansada. Sempre parece.

A gente dorme no quarto dos fundos da casa. Um quarto abandonado, esquecido, onde ninguém entra. Nem os donos da casa, nem as visitas, nem os homens que passam rindo alto pela sala principal. Aqui ninguém olha. E talvez seja por isso que deixaram a gente aqui. Invisível é mais fácil de controlar.

Levanto devagar, sentindo o corpo reclamar. As costas doem. Sempre doem. Tem lugares em mim que doem sem motivo aparente, como se o corpo lembrasse antes da cabeça. Tenho cicatrizes espalhadas — algumas finas, outras mais grossas. Algumas eu lembro como aconteceram. Outras não.

Rafaela se mexe quando eu solto dela.

— Fer… — murmura, ainda meio dormindo.

— Shhh — falo baixo. — Ainda tá escuro.

Ela abre os olhos devagar, piscando. Quando me vê, relaxa um pouco.

— Já é hora?

— Quase.

A gente nunca sabe a hora certa. Aprende pelo silêncio da casa, pelo barulho dos passos, pelo jeito que a noite respira. Quando tá muito quieto, é porque ainda dá pra esperar um pouco.

Sentamos na beira do colchão. O chão é gelado. Rafa abraça os próprios joelhos.

— Sonhei de novo — ela diz, baixinho.

— Com o quê?

— Com a gente correndo.

Não pergunto de onde. Nem pra onde. Sonhos aqui sempre são de fuga.

Levanto e puxo a blusa larga que uso pra dormir. Rafa faz o mesmo. A roupa nunca é suficiente. Nunca esquenta direito. Saímos do quarto em silêncio, andando descalças pelo corredor de trás da casa até o cano do lado de fora.

O banho é ali mesmo.

Um cano velho, preso na parede, que cospe água fria sem piedade. Não tem escolha. Nunca tem. Abro o registro e a água cai direto nas minhas costas. O choque faz o corpo todo tremer. Respiro fundo, segurando o ar por alguns segundos. Banho rápido. Sempre rápido. Quem demora chama atenção.

Rafa vem depois de mim. Ficamos de costas uma pra outra, tentando se proteger do frio. A água escorre pelo corpo dela, revelando marcas antigas. Roxos que nunca somem por completo. Cicatrizes finas nos braços. Uma mais escura perto da costela.

Eu também tenho as minhas.

Algumas vieram quando a gente era menor. Outras depois. Hoje em dia é diferente. Hoje somos mais empregadas do que qualquer outra coisa. Limpamos, cozinhamos, servimos. Mas às vezes… às vezes ainda acontece. Menos. Mas acontece. E a gente aprende a não perguntar, a não reagir, a não existir por alguns minutos.

Terminamos o banho rápido. A água é desligada e o silêncio volta. Tremendo, a gente volta pro quarto pra se secar e trocar de roupa. As roupas são simples, gastas, mas limpas. É exigência da casa.

— Fer… — Rafa fala enquanto veste a blusa. — Você acha que hoje dá?

Olho pra ela. Os olhos castanhos estão atentos demais. Sempre estão.

— Acho.

Não falo muito. Palavra demais vira medo. Mas hoje tem algo diferente no ar. Desde a noite anterior. Mais movimento. Mais gente. Mais risada. Evento grande costuma distrair. Distrai guarda, distrai olho, distrai ordem.

— Se der errado… — ela começa.

— Não vai — corto. — A gente só corre.

Ela engole seco e assente.

Saímos pro trabalho quando o dia começa a clarear. A casa desperta aos poucos. Vozes. Porta batendo. Passos pesados. A gente se espalha pelos cantos que já conhece de cor. Eu fico na cozinha. Rafa ajuda na limpeza dos quartos da frente.

Enquanto esfrego o chão, penso no plano. Não é um plano bonito. Não é um plano certo. É só um plano possível. Quando escurecer, quando o barulho subir, quando todo mundo estiver ocupado demais pra reparar em duas meninas saindo pelos fundos.

— Hoje à noite — eu disse pra Rafa mais cedo, enquanto lavávamos prato. — Quando eles começarem a beber.

Ela assentiu sem olhar pra mim. Medo mora nos detalhes.

No meio da manhã, a gente se encontra no quintal por alguns segundos. Pouco tempo. Sempre pouco.

— Tá com medo? — pergunto.

Ela dá um meio sorriso.

— Tô. Mas tô mais cansada.

Entendo. Cansaço empurra a gente pra frente quando o medo tenta segurar.

— A gente corre até onde der — falo. — Depois se vira.

— Juntas.

— Sempre.

O dia passa arrastado. Cada hora parece duas. Cada barulho parece aviso. Mas nada acontece. Ainda.

Quando a tarde cai, meu corpo já tá pesado. As mãos ardem. As costas doem. Mas a cabeça tá clara. Clara demais. É assim antes de coisa grande.

Anoitece.

A casa enche. Vozes altas. Música. Risada. Gente que não presta atenção em empregada. É aí que a gente existe menos — e isso ajuda.

Encontro Rafa no corredor dos fundos. Ela segura minha mão rápido demais.

— É agora.

Concordo.

Não penso em depois. Não penso no que pode dar errado. Só penso em correr. Só penso em não soltar a mão dela.

A gente passou dez anos sobrevivendo dia após dia.

Hoje, a gente tenta viver.

Mesmo que seja só por algumas horas.

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