SOMBRA

Meu nome é Victor Azevedo.

Mas isso quase ninguém usa.

No morro, eu sou a Sombra.

Tenho 26 anos e aprendi cedo que quanto menos você aparece, mais perigoso se torna. Gente barulhenta morre rápido. Gente silenciosa dura. Eu durei.

Moro no alto do Complexo da Penha, não muito longe da casa do Imperador. Casas diferentes, mesma lógica. Altura é visão. Altura é controle. Altura é segurança. A minha também é de alto padrão — vidro, concreto, aço e silêncio. Conforto não é frescura. Conforto é descanso pra mente que vive em alerta.

Acordo quando o corpo manda. Não sigo relógio. Sigo instinto.

Abro os olhos e o teto branco me encara de volta. Cama grande, lençóis limpos, ar-condicionado regulado no frio certo. O quarto é amplo, organizado. Gosto de tudo no lugar. Bagunça me incomoda. Bagunça faz barulho. E eu odeio barulho.

Levanto devagar. Corpo seco, forte, sem excesso. Não sou gigante, mas também não sou pequeno. Sou do tamanho certo pra passar despercebido — até não ser mais. Pele morena clara, marcada por sol e noites viradas. Cabelo baixo, sempre. Barba rala, mantida curta. Olhos claros, atentos. Já me disseram que meu olhar assusta porque parece que eu tô sempre calculando alguma coisa.

Talvez eu esteja.

Caminho até o banheiro. Piso frio, box grande, ducha forte. Água morna hoje. Não preciso de choque pra acordar. Minha cabeça já acorda ligada. Enquanto a água cai, penso rápido no dia. Nada de sentimentalismo. Planejamento simples.

Carregamento à noite.

Galpão.

Segurança dobrada.

Imperador já falou tudo ontem. Quando ele fala pouco, é porque quer precisão. E eu entrego.

Saio do banho, me seco, visto a roupa que já estava separada: camiseta escura de boa qualidade, calça resistente, tênis confortável. Nada que chame atenção. Nunca gostei de chamar. Quem chama demais vira alvo. Eu prefiro ser o que aparece quando ninguém espera.

Na bancada do quarto, minha arma. Limpa. Cuidada. Carregada. Confiro sem pressa. Peso certo na mão. Ferramenta certa pro trabalho certo. Coloco na cintura e cubro com a camiseta. Ajusto o coldre. Respiro fundo.

Desço as escadas internas da casa. A sala é ampla, sofá grande, TV desligada. Cozinha organizada. Geladeira cheia. Não passo necessidade há muito tempo. Não esqueço de onde vim, mas não faço questão de reviver.

Já dormi no chão. Já passei noite acordado com medo de invasão. Já corri com tiro cantando atrás. Quando subi, prometi que conforto seria regra, não exceção.

Abro a porta. O morro já tá acordado. Sempre tá.

Alguns vapores me cumprimentam com respeito silencioso. Não precisam falar muito comigo. Sabem quem eu sou. Sabem o que eu faço.

Desço em direção à boca. No caminho, cruzo com mulher bonita demais pra esse horário. Não paro. Já conheço quase todas. Saio com várias putas do morro. Sem romance, sem promessa, sem mentira. Pago, como todo mundo paga — algumas com dinheiro, outras com silêncio. Elas sabem. Eu sei. Funciona assim.

Não sou de apego. Apego distrai. E distração mata.

Chego à boca e o movimento tá firme. Rádio chiando, dinheiro circulando, produto passando. Tudo dentro do esperado. Dou uma olhada geral. Leio os rostos. Leio o ambiente. Sempre leio.

Imperador tá ali perto da mureta. Postura firme, olhar de dono. Ele não precisa gritar pra mandar. Nunca precisou. Quando ele olha, o morro responde.

Chego do lado dele sem anunciar.

— Galpão confirmado — digo baixo. — Carregamento grande.

— Segurança? — ele pergunta, sem virar o rosto.

— Dobrei. Entrada limpa. Câmeras funcionando. Nada fora do eixo.

— Não quero surpresa.

— Não vai ter.

É assim que a gente conversa. Poucas palavras. Confiança construída em guerra. A gente já sangrou junto demais pra duvidar agora. Eu não questiono decisão dele. Ele não questiona execução minha.

Caminho pela boca observando. Ajusto detalhe aqui, outro ali. Um vapor novo, olho atento demais. Marco mentalmente. Depois vejo o histórico. Não confio em ninguém de primeira.

Passo o dia resolvendo coisa pequena. Um atraso. Um erro de rádio. Um aviso de movimentação estranha lá embaixo. Tudo anotado na cabeça. Tudo resolvido no tempo certo. Gosto de deixar tudo liso antes da noite cair.

Quando o sol começa a descer, sinto o alerta subir pela espinha. Noite é meu território. Sempre foi. É quando a Sombra trabalha melhor.

Volto pra casa rápido. Não pra descansar. Pra trocar equipamento. Conferir tudo mais uma vez. Galpão não aceita erro. Arma, munição, poder. Coisa que, se falhar, vira problema grande demais pra improviso.

No caminho, passo por uma das meninas que às vezes dorme comigo. Ela sorri, chama pelo nome que não é meu.

— Hoje não — digo, sem grosseria.

Ela entende. Sempre entende. Aqui ninguém cobra o que não foi prometido.

Chego em casa, troco a camiseta por outra mais escura. Confiro rádio. Testo comunicação. Tudo certo. Arma no lugar. Carregador reserva. Saio.

Encontro Imperador no caminho pro galpão. A gente anda lado a lado sem precisar falar. O morro sabe quando a gente passa junto. O ar pesa. Sempre pesa.

— Hoje é noite longa — ele diz.

— Toda noite importante é — respondo.

Termino de finalizar as coisas, armas, organização. O trabalho não ter erro, não pode falhas. 

E como meu vulgo diz, Sombra, é na noite que eu trabalho melhor.

 

 

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