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Rafaela achava que aquela noite estava estranha porque a mãe tinha limpado a casa.
Não era uma limpeza de verdade — era mais um empurrar de coisas para os cantos, um pano passado rápido na mesa, um cheiro diferente no ar. Rafaela tinha oito anos e essas coisas chamavam atenção. Quando a mãe limpava, geralmente era porque alguém vinha.
Ela estava sentada no chão, brincando com uma boneca que já tinha perdido um braço. Fingiu que a boneca dormia no seu colo, porque dormir parecia bom. Dormir fazia o tempo passar mais rápido.
Fernanda apareceu na porta. Tinha nove anos e sempre parecia entender um pouquinho mais das coisas. Não gostava daquela noite. Não gostava do jeito que a mãe de Rafaela falava mais baixo, nem do padrasto andando de um lado para o outro, batendo o pé no chão.
— Rafa — Fernanda chamou baixinho. — Sua mãe tá esquisita.
Rafaela deu de ombros.
— Ela sempre é.
A mãe apareceu na sala e sorriu. Um sorriso torto, que Rafaela não via fazia tempo.
— Vai trocar de roupa, filha. A gente vai sair.
— Sair pra onde? — Rafaela perguntou, animada e com medo ao mesmo tempo.
— Passear — a mãe respondeu rápido.
Passear era uma palavra boa. Rafaela gostava de palavras boas. Fernanda franziu a testa.
— Posso ir tia?
— Não!— disse o padrastro, sem olhar pra ela. — É coisa rápida.
Fernanda sentiu um aperto no peito. Chegou mais perto de Rafaela e segurou sua mão. Pediu quase chorando que fosse junto.
— Por favor, tia..
Rafaela apertou de volta. Gostava quando Fernanda ia junto. Fernanda sempre sabia o caminho de volta.
A mãe suspirou alto, como se estivesse cansada.
— Tá bom. Vai você também.
Rafaela não percebeu o jeito estranho como ela disse aquilo.
Trocaram de roupa. Rafaela vestiu um vestido limpo, que arranhava um pouco no pescoço. Fernanda ficou com a roupa de sempre. O padrastro abriu a porta.
Lá fora, tinha um carro grande, escuro, parado na rua. Rafaela nunca tinha visto aquele carro ali.
— A gente vai de carro? — perguntou, curiosa.
Ninguém respondeu.
Um homem abriu a porta de trás. Não sorriu. Rafaela achou que ele parecia bravo, mas adultos às vezes pareciam assim sem motivo.
Fernanda parou.
— Rafa… — chamou baixinho.
— Que foi?
Fernanda não sabia explicar. Só sentia que algo estava errado. Puxou a mão de Rafaela.
— Vamos voltar.
O padrastro segurou o braço de Rafaela.
— Para com isso. Entra logo.
Rafaela sentiu o braço doer e começou a chorar, mais de susto do que de dor.
— Mãe… — chamou, com a voz fina.
A mãe estava parada perto da porta. Não se mexeu. Não falou nada. Fernanda tentou empurrar o padrastro.
— Não segura ela assim!
O homem que estava no carro bufou.
— Leva as duas logo.
Rafaela não entendeu por que aquilo estava acontecendo tão rápido. Só sentiu quando foi colocada no banco do carro, a porta fechando com um barulho alto demais.
Fernanda entrou logo depois, sentando bem perto, abraçando Rafaela forte.
— Tá tudo bem — disse, mesmo sem saber se era verdade. — É só um passeio.
Rafaela acreditou.
O carro começou a andar. As casas passaram rápido pela janela. Rafaela tentou achar a sua, mas não conseguiu.
— A gente vai voltar, né? — perguntou.
Fernanda não respondeu. Só abraçou mais forte.
Do lado de fora, a mãe de Rafaela ficou parada na porta da casa.
Rafaela não percebeu.
Ela estava ocupada demais tentando entender por que o coração batia tão rápido.
Naquela noite, duas meninas entraram em um carro achando que iam passear.
E sem saber, deixaram a infância para trás —







