IMPERADOR

Meu nome é Alexandre Farias.

Mas isso só existe em documento.

Aqui, no Complexo da Penha, eu sou o Imperador.

Tenho 27 anos e moro no ponto mais alto do morro — não por vaidade, mas por estratégia. De cima, eu vejo tudo. E se tem uma coisa que eu aprendi cedo é que quem manda precisa enxergar antes dos outros.

Minha casa não parece com as outras daqui.

Nunca quis que parecesse.

Portão eletrônico reforçado, câmeras em todos os ângulos, vidro blindado. Por dentro, silêncio. Piso frio, sofá grande, televisão ocupando uma parede inteira. Cozinha planejada, geladeira sempre cheia. Ar-condicionado ligado até quando o dia não pede. Conforto não é luxo pra mim — é necessidade.

Cresci dividindo colchão, ouvindo tiro como quem ouve relógio. Dormi com fome, acordei com medo. Quando subi, prometi a mim mesmo que nunca mais viveria no improviso. Quem manda no caos precisa de ordem quando fecha a porta.

Acordo cedo. Sempre cedo.

O quarto é amplo, cama grande, lençóis limpos. Cortina pesada bloqueando a luz do sol. Gosto de escolher a hora que o dia começa. Abro os olhos devagar, sentindo o silêncio controlado da casa. Lá fora, o morro já se move, mas aqui dentro tudo espera por mim.

Levanto sem pressa. Passo pelo espelho de corpo inteiro. Não paro muito, mas observo o suficiente.

Sou alto. Corpo forte, moldado mais pela rua do que por academia. Ombros largos, postura firme. Pele morena marcada de sol e noite virada. Barba sempre bem feita — não por vaidade, por disciplina. Cabelo curto, preto. Olhos escuros. Olhos que já viram coisa demais pra idade que tenho.

Entro no banheiro.

O banheiro é grande. Box de vidro, ducha forte, água quente na temperatura certa. Abro o chuveiro e deixo a água cair pesada nas costas. Fecho os olhos por alguns segundos. Aqui é o único lugar onde o mundo não fala comigo.

Penso rápido no que me espera. Carregamento à noite. Movimento alto. Segurança dobrada. Nada pode sair do eixo.

Não penso em passado enquanto a água corre. Passado pesa. E eu não carrego peso desnecessário. Saio do banho, me seco, visto a roupa que já deixei separada na noite anterior. Camiseta escura de boa qualidade, calça confortável, tênis resistente. Nada chamativo. Quem ostenta vira alvo fácil. Eu prefiro ser intocável.

Na bancada do quarto, minha arma me espera.

Pistola limpa, carregador cheio. Peso conhecido na mão. Confiro uma vez. Depois outra. Não porque tenho medo. Porque respeito o que ela representa. Arma não é símbolo. É ferramenta. Quem esquece isso não dura.

Coloco na cintura. Ajusto. Respiro fundo.

Desço as escadas internas da casa. O som muda conforme me aproximo da saída. O morro acordando. Rádio chiando. Moto acelerando. Vozes se misturando. Abro a porta e o ar da manhã me atinge o rosto.

Alguns vapores já estão posicionados do lado de fora. Rádio no ouvido. Postura alerta.

— Bom dia, chefe.

— Bom.

Não sorrio. Não precisa. Respeito aqui não vem de simpatia.

Caminho descendo a rua principal. As casas simples contrastam com a minha lá em cima. Não me incomoda. Pelo contrário. É exatamente assim que tem que ser. Cada um ocupa o espaço que conquistou — ou que aceitou.

Vejo criança indo pra escola. Mulher varrendo calçada. Homem descendo apressado pra trabalhar fora do morro. Quem olha de fora só vê crime. Eu vejo território. Vejo gente vivendo sob uma ordem que eu mantenho.

Chego à boca principal.

Movimento intenso. Dinheiro circulando. Produto passando de mão em mão. Informação indo e voltando. Tudo funciona como um relógio — e relógio só funciona quando alguém cuida das engrenagens.

— Movimento bom hoje — diz um dos gerentes.

— E a polícia?

— Longe. Patrulha passou na principal, mas não subiu.

Assinto. Polícia não sobe quando sabe que não vai ganhar nada. Aqui, tudo é acordo silencioso. Tudo é leitura de risco.

Sombra aparece ao meu lado sem anunciar. Como sempre.

Meu sub. Meu braço direito. Meu irmão de guerra.

— Galpão confirmado pra hoje — ele diz baixo. — Carregamento grande.

— Segurança?

— Dobrei. Câmera funcionando. Entrada limpa.

— Quero silêncio — digo. — Nada de erro.

— Não vai ter.

Confio nele. Não por amizade. Por histórico. A gente já passou por coisa demais pra duvidar agora.

Caminho pela boca observando os rostos. Alguns abaixam a cabeça. Outros sustentam o olhar por respeito. Ambição eu reconheço fácil. Medo também. Meu trabalho é manter tudo equilibrado.

Paro perto da mureta e olho o morro lá embaixo. Já vi esse lugar sangrar. Já vi gente morrer por menos do que um boato. Cresci aqui. Sobrevivi aqui. Me tornei o que sou aqui.

Não nasci Imperador.

Fui feito.

Por guerra.

Por escolha.

Por necessidade.

Já perdi gente que eu chamava de irmão. Já enterrei amigo. Já mandei matar quem cruzou a linha. Não carrego culpa. Culpa é coisa de quem não manda. Aqui, quem manda decide. E quem decide não hesita.

Passo o dia resolvendo problema. Um vapor que errou na contagem. Um fornecedor atrasado. Uma ameaça velada chegando pelo rádio. Tudo anotado mentalmente. Tudo resolvido no tempo certo.

Quando o sol começa a cair, sinto o alerta subir pelo corpo. Noite nunca é só noite no morro. Noite traz surpresa. Noite cobra atenção.

— Hoje a noite vai ser longa — digo, mais pra mim do que pra alguém.

Sombra concorda em silêncio.

O galpão vai receber arma, munição, poder. Coisa que não pode falhar. Coisa que, se falhar, deixa rastro. 

Por enquanto, eu só sou o Imperador.

Dono do morro.

Dono do silêncio.

Dono do conforto que conquistei à força.

E aqui, tudo acontece do jeito que eu decreto.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App