Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio naquela casa era sufocante. Os corredores longos, as paredes de madeira escura, as cortinas pesadas… tudo parecia feito para esmagar qualquer luz, qualquer esperança. Rafaella sentia-se presa. E estava.
Horas haviam se passado desde que chegaram. Um jantar elegante foi servido, mas ela não tocou na comida. Bruno tampouco se importou com isso. Apenas a observava com seus olhos frios, sem emoção. Como se ela fosse um contrato assinado, uma peça encaixada onde deveria estar.
Subiu para o quarto sem dizer uma palavra. Trancou a porta. Sentia-se segura ali. Ou ao menos queria acreditar nisso.
O quarto era amplo, decorado com luxo discreto. Havia uma lareira acesa, uma cama de casal enorme no centro, e uma poltrona voltada para a janela com vista para os vinhedos ao longe. O perfume do campo misturava-se ao cheiro da madeira e do vinho envelhecido.
Ela tomou um banho longo, como se a água pudesse apagar o dia, arrancar a dor da pele. Vestiu um camisão de algodão, simples, branco, e sentou-se no chão, de costas para a cama. Os olhos marejados, os joelhos dobrados, a cabeça encostada nas mãos. O relógio marcava quase meia-noite.
Então ouviu o barulho da maçaneta girando.
Seu corpo enrijeceu.
A porta se abriu devagar. Bruno entrou. Não bateu. Não pediu permissão. Não avisou. Apenas entrou, como se aquele fosse o lugar dele. Como se ela também fosse.
— O que está fazendo aqui? — ela perguntou, levantando-se de súbito, o coração acelerado.
— Esta é a nossa suíte. — ele disse calmamente, trancando a porta atrás de si. — Somos marido e mulher, lembra?
Rafaella deu um passo para trás.
— Isso não significa que pode entrar assim. Eu… eu preciso de espaço.
Bruno a olhou fixamente, se aproximando com passos firmes.
— Espaço? — ele repetiu, com um leve sorriso cínico. — Não foi isso que nossas famílias combinaram. Você carrega meu sobrenome agora, Rafaella. É minha esposa. E isso vem com responsabilidades.
Ela sentiu a garganta secar.
— Isso é errado…
— Errado? — ele interrompeu, parando à sua frente. — Você acha que esse casamento foi sobre certo e errado? Foi sobre necessidade. E agora, estamos aqui. Casados. Unidos.
— Eu não te amo… — ela sussurrou, a voz falhando.
Bruno levantou uma das mãos e tocou levemente o queixo dela, forçando-a a olhar em seus olhos.
— Eu também não te amo. Mas isso nunca foi sobre amor.
Rafaella tentou se afastar, mas ele segurou firme seu braço. Não havia violência, mas havia domínio. Havia frieza. E uma intensidade sufocante.
— Você vai cumprir o papel de esposa, Rafaella. Vai sorrir quando for necessário, se comportar quando for exigido e me acompanhar sempre que eu mandar. E nesta casa, neste quarto, você será minha mulher. Entendeu?
As palavras cortavam como navalha.
— Você não pode me forçar…
Bruno não respondeu. Apenas a encarou por um longo momento. E então, com calma, se aproximou mais.
Ela tremeu. Não sabia se de medo, de raiva ou de um desespero que a entorpecia. Tentou recuar, mas ele a envolveu nos braços, e a levou até a cama.
— Vai ser melhor se parar de lutar com tudo. — ele disse, frio, como sempre. — Aceitar é mais fácil do que resistir.
Naquela noite, Rafaella chorou em silêncio. Ele foi metódico, distante, como se cumprisse um dever. Havia um tipo cruel de controle em cada gesto dele, e nenhum afeto. Era um homem acostumado a obter o que queria — e ela agora fazia parte disso.
Quando terminou, ele se deitou do outro lado da cama e apagou o abajur. Como se fosse qualquer noite. Como se nada tivesse acontecido.
Ela ficou deitada, imóvel, encarando o teto. O corpo doía, mas era na alma que o peso apertava.
Ali, no escuro daquela mansão, Rafaella entendeu: estava sozinha. Casada com um estranho. Longe de todos. E cada dia dali em diante seria uma batalha entre o que ela sentia e o que a obrigaram a ser.
E o mais assustador... era saber que aquilo era só o começo.







