Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu realmente não sabia o que fazer. Cada passo parecia levar a lugar nenhum, e a incerteza me consumia por dentro. Eu só precisava estar longe o bastante.
Não tinha certeza se deveria permanecer ali ou continuar seguindo adiante, mas também não podia me dar ao luxo de gastar muito dinheiro tentando sobreviver em minha forma humana.
A cada escolha, sentia o peso da liberdade recém-conquistada e o medo de me perder novamente, sem rumo, em um mundo que parecia tão grande e indiferente.
Suelen sorriu com compreensão e aconselhou-me a permanecer ali por mais algum tempo.
— Conheça o lugar, veja as oportunidades que ele oferece antes de sair novamente — sugeriu, com uma suavidade que carregava cuidado e paciência.
A única coisa que eu desejava era continuar longe das amarras do passado.
Não queria um par de olhos intensos me despindo com o olhar, nem uma loba histérica gritando “meu” em minha mente, como se o destino já tivesse sido selado.
— Posso te apresentar nossa alcateia antes de você partir. Mostrar o lugar. — A voz dela era calma, mas carregava uma gentileza que parecia atravessar minhas defesas. — Se você chegou até aqui, então talvez valha a pena dar uma chance ao destino.
Por um instante, hesitei. A loba dentro de mim grunhido baixinho, desejando por aquilo.
Talvez conhecer aquele mundo fosse inevitável — e, mesmo contra minha vontade, sentia uma curiosidade crescente.
O passado me implorava para fugir, mas uma parte de mim ansiava por compreender. Toda alcateia seria como aquela da qual escapei?
Durante todos esses dias, eu não havia cruzado com outro lobo, e, agora, a curiosidade me consumia por completo, impossível de ignorar.
Essa loba diante de mim não carregava sinais de infelicidade — pelo contrário, havia algo nela que parecia em paz, e isso despertou algo que eu não esperava sentir.
Respirei fundo e decidi aceitar o convite de Suelen. Talvez fosse hora de enfrentar o desconhecido, de compreender um pouco mais daquele mundo que sempre me fora negado.
Killiam, por sua vez, não pareceu muito satisfeito com minha decisão — seu olhar carregava uma sombra de desaprovação —, mas ele não disse uma palavra.
Depois de pagar a conta, saí do restaurante com a promessa de que voltaria ao final da noite.
O ar frio da rua me envolveu, e, por um instante, senti o peso da liberdade que havia conquistado, misturado à ansiedade pelo que estava por vir.
Cada passo em direção à alcateia parecia aproximar-me de algo maior, algo que eu ainda não sabia nomear, mas que já começava a despertar dentro de mim.
Caminhei pela praia, deixando que a brisa salgada me atravessasse e levasse embora um pouco da inquietação que carregava.
Segui depois para a vila, observando as ruas estreitas, as lojas e o movimento tranquilo das pessoas.
Por horas, me permiti apenas existir, absorvendo cada detalhe sem pressa, como se estivesse aprendendo a respirar de verdade pela primeira vez.
Quando a noite já se aproximava do fim, voltei ao restaurante para encontrar Suelen. Ela estava lá, diante do local, à minha espera, como se soubesse exatamente quando eu chegaria.
— Killiam não vai nos acompanhar? — perguntei, com a voz traindo um pouco da minha curiosidade e apreensão.
— Não ligue para aquele idiota — disse Suelen com um meio sorriso. — Ele é uma boa pessoa, só passou por muita coisa.
Eu também havia passado por muita coisa, mas nem por isso era rude com as pessoas que cruzavam meu caminho. Mas permaneci em silêncio.
— Vamos precisar nos transformar para chegar até lá — disse a loba, um sorriso brincando em seus lábios.
Um arrepio gelado percorreu meu corpo. A última vez que havia feito aquilo foi no dia em que Victor colocou suas correntes em meu pescoço.
O medo voltou com força, pesado e sufocante.
Ela percebeu meu desespero e segurou minha mão com delicadeza.
— Você não passou pela transformação? — perguntou, com uma preocupação evidente em sua voz, enquanto me analisava atentamente.
Apenas neguei com a cabeça, mentindo. Não sabia como era minha loba, e a ideia de me transformar diante de outra pessoa me deixava apavorada.
— Não se preocupe, podemos caminhar até que um dos carros da alcateia nos encontre na estrada — disse Suelen.
E, de fato, alguns minutos depois, um carro parou diante de nós.
— O que houve, Suelen? — perguntou outro lobo, descendo do veículo com um olhar vigilante e preocupado.
— Nada demais, Zack — respondeu Suelen com naturalidade. — Esta é Aurora, uma convidada. Por algum motivo, ela ainda não passou pela transformação.
Zack, diferente de Killiam, pareceu mais receptivo. Sorriu de forma aberta e me deu as boas-vindas, transmitindo uma sensação inesperada de acolhimento que me fez relaxar um pouco.
Assim que descemos do carro, outro lobo já nos aguardava. Pela postura e presença, imaginei que pudesse ser o alfa, mas Suelen, ao nos apresentar, se referiu a ele como Beta.
— Você pretende ficar? — perguntou ele, seu olhar suave contrastando com a firmeza da voz.
Não queria parecer rude dizendo simplesmente que não.
— Prefiro primeiro conhecer o lugar antes de responder a essa pergunta.
O Beta assentiu, compreensivo, mas mantinha aquela atenção silenciosa que fazia cada movimento meu parecer observado, como se estivesse avaliando não apenas minhas palavras, mas também meu instinto e presença.
Fiquei encantada com cada cantinho daquele lugar que Suelen me apresentava.
Tudo era compartilhado — desde a estufa até a horta a céu aberto. Havia uma leveza no ar, uma sensação de comunidade que me era completamente estranha.
De onde eu vim, Victor deixava claro que era cada um por si — e que ele estava acima de tudo e de todos.
Suas vontades eram leis, e suas ordens, inquestionáveis. Qualquer desobediência era punida severamente... até mesmo com a morte.
Lá, todos precisavam pagar pelo que consumiam — a menos que tivessem produzido ou caçado por conta própria.
Ainda assim, mesmo nesses casos, eram obrigados a contribuir com um valor pelo uso da terra.
Aqui, não. Tudo me lembrava demais o tempo de minha infância — antes daquele monstro chegar até nós.
Meu pai costumava dizer que a terra era de todos, mas que todos tinham um dever para com ela.
Enquanto eu caminhava, percebia olhares curiosos — mas, ao contrário de onde vim, cada olhar vinha acompanhado de um sorriso gentil.
Ninguém me tratava como se eu fosse uma doença altamente contagiosa.
— Aqui, tudo é diferente de onde eu vim. As pessoas parecem gentis, acolhedoras — acabei dizendo.
— E por que não seriam, Aurora? Você não fez nada contra elas — respondeu Suelen, com a simplicidade de quem nunca precisou se proteger do mundo.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, digerindo suas palavras. Era estranho ouvir aquilo.
Na matilha de Victor, não importava se você fazia tudo certo — as punições chegavam sem aviso, como se fossem parte do ar que se respirava.
Depois de anos vivendo naquele ambiente, era difícil aceitar que, em outros lugares, o respeito pudesse ser algo natural, e não uma moeda de troca.
— Você não precisa esperar o pior das pessoas ou procurar segundas intenções aqui, Aurora — disse Suelen, com doçura.
Suspirei, baixando o olhar. Ela estava certa. Eu havia aprendido a esperar o pior.
Alana me disse uma vez que isso era quase automático, um mecanismo de defesa que eu nem sabia como desligar.
Confiar nela não foi fácil — e, ainda assim, ela foi minha única amiga naquele inferno.
— Eu tento... — murmurei. — Só que às vezes é difícil acreditar.
— Você precisa se permitir viver — murmurou Suelen, como se enxergasse algo além do que eu havia mostrado. — Aqui, as pessoas não vão agir contra você.







