Mundo ficciónIniciar sesiónAURORA
Perambulei por dias, atravessando algumas cidades, até que o destino me trouxe até aqui. Não esperava muito desse lugar, escondido entre o mar e a floresta, mas uma coisa eu sabia — finalmente estava longe o bastante.
Longe da minha antiga alcateia, finalmente podia respirar sem o peso das correntes que me prendiam ao passado. E não permitiria que ninguém — nem mesmo Victor — me fizesse sentir pequena novamente.
Passei tempo demais sendo controlada, obedecendo ordens que me dilaceravam por dentro.
Agora, se era para cair, eu cairia sozinha — mas por minhas próprias escolhas.
— Eu, Aurora Alcorn, loba da Alcateia Bloodhowl, rejeito Victor Draven como meu alfa. Assumo a responsabilidade pelo meu próprio destino e escolho caminhar livre, sem suas correntes.
Uma dor atravessar meu corpo quando a corrente invisível daquele alfa maldito se quebrou dentro de mim. Meus joelhos cederam, e caí no chão, ofegante, como se o ar tivesse sido arrancado dos meus pulmões.
A ligação que me prendia a ele se despedaçou, rompida pela minha decisão.
Ele não mandaria mais em mim. Nunca mais.
Minha loba me observava em silêncio, cautelosa, como se ainda tentasse entender a liberdade recém-conquistada.
Eu lhe daria o tempo que precisasse para se recompor. Quando estivesse pronta, ela viria — eu sentia isso.
Continuei caminhando pela cidade até que a fome falou mais alto. Não queria caçar, não agora, não assim.
Então, entrei no primeiro restaurante que encontrei.
Simples por fora, mas lotado por dentro.
Havia algo acolhedor naquele espaço. Sabia que tinha pouco dinheiro, mas não custava nada olhar o cardápio e alimentar a esperança de que algo se encaixasse na minha condição.
Foi só quando ergui o olhar para fazer o pedido que o vi — o homem atrás do balcão. Sua presença era marcante, quase magnética.
Um poder silencioso emanava dele — e ele transbordava uma masculinidade quase palpável.
Os braços fortes revelavam músculos definidos sob a camisa de mangas dobradas.
O peitoral largo, o rosto quadrado com mandíbula bem delineada e barba rala, davam a ele um ar quase selvagem.
Os cabelos castanhos escuros e a pele bronzeada contrastavam lindamente com o branco da camisa. Mas o que mais me atingiu foram os olhos.
Olhos escuros e penetrantes, como se vissem além da superfície, como se estivessem sempre à espreita. Por um instante, me senti exposta e frágil.
Algo nele me intimidava e não era só a aparência — era a energia. Mas havia algo mais.
Algo que eu não conseguia identificar até que o olhar dele mudou… ele também era um lobo.
Sempre me preocupei em manter distância de outros da minha espécie, e jamais imaginei cruzar com um lobo justamente naquele lugar.
Minha loba, que até então permanecia cativa, despertou. O cheiro que vinha dele — inebriante, amadeirado e impossível de ignorar — a puxou para fora do escuro, como se emergisse das sombras apenas para contemplá-lo.
Meu coração disparou, em uma batida descompassada que parecia querer escapar do peito.
Um arrepio gelado percorreu minha espinha quando o olhar dele se cravou em mim — intenso, profundo, quase predador.
Algo dentro de mim se remexeu, selvagem e confuso, uma mistura perigosa de medo e desejo que me dominou por completo.
Um misto de medo e desejo me dominou, e tudo ao meu redor pareceu desaparecer — só existíamos nós dois, ligados por aquele olhar.
Apenas quando a moça simpática que atendia as mesas — e que logo percebi também ser uma loba — se ofereceu para me atender, aquele encantamento se quebrou.
Percebi o modo como ele me olhava, tentando decifrar de onde eu havia surgido — como se minha simples presença tivesse desestabilizado algo dentro dele.
Sentia seus olhos cravados em minhas costas, como se esperasse que, a qualquer momento, eu causasse um problema que ele teria de resolver.
Esforcei-me ao máximo para ignorá-lo, sem compreender por que minha loba estava tão inquieta, agitando-se incessantemente em minha mente.
Ela implorava pelo controle com uma urgência quase desesperada. Arranhando as paredes da minha mente, rosnando baixo, impaciente.
Eu tentava contê-la, mas ela estava determinada. Foi, quando menos esperava, que sua voz ecoou clara em minha mente — forte, possessiva, impossível de ignorar.
“Meu”
Meu corpo enrijeceu. Não… não podia ser. Ela estava se referindo a ele? Aquele homem de olhos intensos, que me fitava como se enxergasse através da minha alma? Aquilo não fazia sentido. Eu me recusei a aceitar.
— Você está enganada… — murmurei para mim mesma. — Isso não pode ser verdade.
Quando ele se aproximou da mesa para trazer a conta, senti meu coração disparar.
Uma parte de mim esperava — desejava que ele dissesse algo. Qualquer coisa que quebrasse aquele silêncio tenso entre nós e explicasse o turbilhão de sentimentos que eu não conseguia compreender.
Seu rosto estava fechado, sério demais. Os olhos, duros. Ele parecia irritado com a própria presença ali, ou talvez fosse só comigo.
— Quem é você? — perguntou, direto, colocando a conta diante de mim e sentando-se na cadeira a minha frente, encarando-me.
Sua voz soou fria. Nada na sua postura indicava que ele sentia o mesmo turbilhão que me consumia.
Ele parecia ser exatamente como Victor.
E eu… eu não tinha fugido de uma prisão para entrar em outra. Não importava o que a minha loba sentisse. Eu não permitiria que me arrastassem de novo para a escuridão.
— Desculpe? — perguntei, querendo aparentar surpresa e ignorância.
— Estou perguntando quem você é… e imagino que já tenha percebido ao que me refiro — disse ele, com a voz mais ríspida.
— Não sabia que para comer aqui eu precisaria me identificar — argumentei, não baixaria a cabeça para esse idiota.
— Perdoe meu patrão, lindinha. Você não precisa se identificar para comer aqui, é claro. Acho que ele só ficou surpreso… não recebemos muitos clientes como você — disse a garçonete, tentando suavizar o momento com um sorriso gentil.
Seu sorriso era sincero, e seu olhar carregava uma gentileza acolhedora.
— Tudo bem… eu não sabia que existiam… você sabe, pessoas iguais a mim aqui. Não quero causar problemas — disse eu, por fim.
— Está só de passagem ou pretende ficar? — perguntou aquele lobo rude, direto mais uma vez.
— Isso não é da sua conta — respondi, com ousadia na voz e um brilho desafiador no olhar.
— Quando você está em meu território, é da minha conta, sim — respondeu ele, com firmeza. E aquilo me pegou de surpresa.
— Killiam, não seja rude… — a loba falou em tom baixo, protetor. — Ela não representa perigo algum, e no fundo, você também sente isso.
— Me chamo Aurora — disse, enfim me apresentando, e estendi a mão na direção dele, como uma pessoa civilizada.
O gesto foi simples, quase ingênuo, mas seu corpo pareceu enrijecer.
Minha mão pairou no ar entre nós, e por um momento, tudo o que eu conseguia pensar era em como seria sentir o aperto dele.
Mas ele me ignorou completamente. Deliberadamente.
Hesitei por um segundo, mas antes que pudesse baixar a mão, a garçonete a apertou com um sorriso, mais uma vez tentando suavizar o clima.
— Me chamo Suelen, como você já sabe. E esse idiota aqui é o Killiam, dono do restaurante — disse ela, com um sorriso maroto.
Aquele homem me encarava, e minha loba se agitava dentro de mim, implorando para que cedesse ao nosso laço.
— Você está apenas de passagem ou pretende aproveitar a magia do lugar? — perguntou Suelen, em um tom bem mais ameno.
— Ainda não tenho certeza… — respondi agora, com um leve suspiro. — Cheguei a poucas horas, mas percebi que a cidade é pequena e não há muitas opções de trabalho aqui.
— Parece que você está com sorte, Aurora… — disse Suelen, animada, fazendo-me encará-la com curiosidade. — Estamos precisando de mais alguém para ajudar aqui no restaurante.
— Isso é sério? — perguntei, com uma voz carregada de esperança, enquanto olhava de Suelen para ele. Uma fagulha de esperança acendendo dentro de mim.
E não era pelo laço que me atraía a ele, mas pela oportunidade de conseguir algum dinheiro para me manter fugindo do passado.







