Protegida pelo Alfa
Protegida pelo Alfa
Por: Sandra Ribeiro
CAPÍTULO 01

AURORA

O coração batia em descompasso. Cada pulsar trazia uma onda de calor, como se meu sangue ardesse com fogo líquido. Eu sabia que estava começando.

A primeira dor veio nas costas, um estalo surdo, como se meus ossos estivessem quebrando. Caí de joelhos, ofegante, sentindo o chão frio sob as mãos.

E então veio outra onda — mais forte, mais profunda.

Meu corpo tremia, os músculos se contraíam, e eu sentia cada fibra se despedaçando para dar lugar a algo novo.

A dor era dilacerante — tão profunda que parecia rasgar minha alma ao meio.

O medo veio, mas passou rápido. O que ficou foi algo diferente. Selvagem. Vivo.

Meus sentidos se expandiram — minha audição mais apurada, meu olfato sentindo cheiros que eu não havia percebido e eu conseguia enxergar até os pequenos insetos que voavam naquela floresta.

Tudo estava mais nítido, mais intenso.

E então, um grito rasgou minha garganta quando minha coluna voltou a se curvar, os ossos se realinhando em um ajuste doloroso.

Onde antes havia pele, agora surgiam pelos.

E, quando tudo terminou, me vi ali… com as quatro patas firmes no solo, o coração acelerado e um novo mundo se abrindo diante de mim.

Imaginei que finalmente seria livre.

Mas me enganei completamente.

Victor, o alfa — que, desde a morte misteriosa dos meus pais, passou a demonstrar um interesse incômodo em mim — me observava como quem, enfim, encontrara o que desejara por toda a vida.

Ele nunca me tocou, nunca cruzou o limite.

Mas despertava algo primitivo em mim. Primeiro, medo. Depois, repulsa. Como se meu corpo soubesse de um perigo que minha mente ainda não entende.

Sonhava com o dia da minha transformação desde que aprendi o que ela significava.

Para a maioria dos lobos, esse era o momento mais sagrado da vida — quando deixávamos de ser jovens dependentes e nos tornávamos adultos, capazes de decidir o próprio destino.

Mas, para mim, esse sonho tinha outro peso. Não era sobre honra, nem sobre pertencer. Era sobre liberdade.

A transformação era a minha chance de partir. De deixar esta alcateia… e encontrar meu próprio caminho.

Mas, naquele instante, senti o peso das correntes invisíveis da ordem alfa, impondo que eu pertencia a ele — e que jamais deveria revelar a ninguém o que havia acontecido.

Nenhum lobo conseguia ir contra as ordens de um alfa.

Era algo que ia além da vontade, que se gravava na alma. A autoridade do alfa se entrelaça com nosso instinto, tornando impossível resistir.

— Ninguém pode saber o que você é agora — ordenou, a voz baixa e o olhar sombrio. — Se alguém souber, você estará morta.

Ainda não entendia o que tinha feito de errado. Tudo o que fiz foi… me tornar quem eu nasci para ser.

A partir daquele dia, deixei de ser alguém. Passei a existir apenas sob as ordens dele. Cada olhar era um lembrete de que eu não tinha escolha.

Maya — a companheira dele ­— aceitou-me em sua casa por ele alegar que eu era preciosa demais e ameaçou rejeitá-la se tentasse algo contra mim.

Eu não conseguia me rebelar, muito menos entender os motivos dele. Minha loba, acorrentada pela ordem imposta, permanecia em silêncio.

Toda vez que tentava se erguer dentro de mim, algo invisível a feria.

Só compreendi o verdadeiro motivo para ele não me deixar partir, quando fomos surpreendidos por um ataque.

Victor saiu gravemente ferido — uma mordida profunda dilacerava seu abdômen. O sangue jorrava sem controle, escorrendo por entre seus dedos enquanto ele tentava, em vão, conter o ferimento.

Os curandeiros fizeram de tudo.

Nada funcionava.

Sua regeneração natural não era veloz suficiente para deter aquilo. A ferida simplesmente não fechava.

Foi então que ele ordenou que me levassem até ele. Victor estava pálido, o olhar turvo pela dor, mas ainda assim me fitou com autoridade.

— Me cure — ordenou, a voz rouca. — Agora.

— Eu… eu não sei como fazer isso — gaguejei, sem entender ao certo o que ele esperava de mim.

— Toque-me e ordene a cura. Sua loba saberá como agir

Mesmo sem acreditar que funcionaria, obedeci.

Toquei sua pele e, com voz trêmula, ordenei a cura.

A dor me atravessou como um raio. Meu corpo arqueou, uma energia violenta me atravessando e, por um momento, tudo pareceu explodir dentro de mim.

Era como se cada pedaço do meu ser estivesse sendo arrancada à força. A energia me atravessou alcançando o corpo dele.

Minha visão escureceu, meus joelhos cederam, e caí, quase inconsciente no chão.

Mas, em minutos, diante de nossos olhos, o ferimento começou a se fechar, como se nunca tivesse existido.

Todos pareciam incrédulos — inclusive eu.

Mas ele não me olhou. Nem por um segundo. Apenas deu uma última ordem — seca, definitiva…

— Ninguém fala sobre isso.

Os curandeiros se entreolharam, visivelmente confusos com o que haviam presenciado.

Mas todos permaneceram em silêncio. Victor não precisava repetir. Sua presença bastava para silenciar até os pensamentos.

Percebi, em silêncio, porque aquele alfa miserável me mantinha presa. Eu possuía um dom raro, quase extinto entre nós — o poder de cura.

Era provável que minha loba fosse diferente, e foi exatamente por isso que ele proibiu minha transformação.

Depois disso, proibiu-me de tocar qualquer lobo ferido. Temia que o dom se esgotasse... ou até me matasse.

Queria ser o único a ter acesso a eles, como se meu dom fosse uma arma valiosa a ser controlada — por ele e por mais ninguém.

Para aqueles que nunca me viram transformada, eu era apenas a loba defeituosa que nunca havia se transformado.

E minha loba, impotente, permaneceu calada — ferida, submissa, aprisionada.

Victor fazia questão de me violentar diversas vezes, como um castigo humilhante. Um tipo de diversão perversa e uma tentativa falha de me fazer quebrar.

Sempre que isso acontecia sua companheira ficava revoltada, mas ele sempre dizia que era algo necessário para controlar e manter meu poder.

A verdade era que tudo aquilo não passava de manipulação. Ele queria destruir tudo o que existia em mim que escapava ao seu controle.

Queria forçar minha rendição como se eu fosse um animal ferido, implorando por piedade.

Mas eu não admitiria mais aquilo. Não dessa vez.

Hoje, eu fugiria. Ou morreria tentando.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
capítulo anteriorpróximo capítulo
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App