Mundo ficciónIniciar sesiónVictor — dominado pelo cio de April — esqueceu-se de um simples detalhe: trancar a porta do meu quarto, como fazia todas as noites. Aquele quarto era minha prisão dentro de sua própria casa.
Minhas mãos tremiam enquanto eu enfiava tudo o que podia dentro da bolsa. Cada batida do meu coração soava como um alarme prestes a disparar.
Eu precisava ser rápida, silenciosa, sair dali sem que ele percebesse minha ausência.
Peguei minha carteira e o pouco dinheiro que possuía. O dinheiro que consegui guardar, escondido dele.
O barulho vindo do quarto ao lado era ensurdecedor, e cada som me dava ainda mais esperança para escapar. Naquela noite, tive a chance que esperava ansiosamente.
Já tinha tentado fugir antes, mas sozinha, sem poder me transformar, minhas chances foram totalmente nulas.
Fui capturada antes mesmo de cruzar a fronteira.
Ele me espancou naquele dia. E apesar de ter o dom da cura, ela não funcionava em mim.
Não depois que ele impediu minha transformação.
Eu nunca escolhi essa vida. Não escolhi ficar — mas ele garantiu que se sentisse minha rejeição, eu seria morta imediatamente.
E tudo isso foi imposto pela força.
Me submeti porque minha loba nunca conseguiu se rebelar contra ele. Fui um troféu enjaulado. Uma boneca nas mãos de um alfa intransigente, cruel, violento.
Mas não mais.
Lancei um último olhar para aquele quarto e respirei fundo, segurando a maçaneta com força.
Por um instante, meu corpo inteiro hesitou, a mão suada pelo medo. Mas eu não voltaria atrás.
Nem hoje.
Nem nunca mais.
Os gemidos do quarto ao lado ficaram mais altos, mais ritmados, mais viscerais. Meu estômago se revirava.
Talvez eu não soubesse qual era o meu lugar no mundo, mas tinha certeza de que não era ali.
Saí do quarto com passos leves, descendo as escadas na ponta dos pés. Parei diante da porta da cozinha, imóvel, apenas ouvindo. Esperando. Eu sabia que precisava do momento certo.
O barulho no quarto se intensificou.
Senti minha garganta arder, mas mantive a respiração contida. Cada som alto vindo daquele cômodo era, ironicamente, uma bênção silenciosa.
Quanto mais barulho, menos atenção para mim — e mais próxima da liberdade eu ficava.
O som do clique foi baixo, mas, ainda assim, prendi a respiração. Esperei. Nenhum som vindo de cima cessou. Nenhuma porta se abriu.
Abri a porta lentamente, e um sopro de ar frio invadiu a cozinha. Fechei os olhos por um segundo, absorvendo aquele instante de liberdade como se fosse o primeiro gole de água após dias no deserto.
A noite me envolveu como um manto cúmplice. Meu corpo se movia no automático, guiado por uma única urgência — sobreviver, era a única coisa que restava.
Após alguns minutos de caminhada as luzes fracas de uma casa familiar surgiram entre as árvores — a casa de Alana.
Ela era a única que me ofereceu ajudar. Sem que Victor soubesse, usei meus poderes para curar aquela loba, salvando sua vida. Desde então, ela guardou meu segredo.
Uma amiga improvável para alguém como eu, que não tinha permissão para ter amigos.
Mas, mesmo com as regras cruéis e silêncios impostos, ela me estendeu a mão.
A porta dela se abriu no segundo toque.
— Aurora? — ela sussurrou, a voz rouca, os olhos arregalados pela surpresa.
Ela usava uma camiseta larga, como se tivesse acabado de sair da cama. Mas ali, na penumbra da entrada, seus olhos brilharam com uma mistura de determinação e urgência.
— Entre — disse ela, puxando-me para dentro. — Só preciso trocar essa roupa.
Não precisei dizer mais nada para que ela soubesse do que eu precisava.
O calor da casa me envolveu, e, por um segundo, minhas pernas quase cederam, o peso da fuga finalmente me atingindo.
— Você fez bem. Não olhe para trás — disse ela, firme.
Era hora de desaparecer. De cortar todos os laços com aquela alcateia que me feriu. Alana foi direto até o balcão da cozinha, onde seu telefone descansava.
Ela discou para alguém, levando o aparelho ao ouvido, os olhos evitando os meus por um instante.
— Ela chegou — disse Alana, a voz baixa. Depois de uma pausa curta, ela voltou a falar. — Meia hora. Estaremos lá.
Desligou sem dizer adeus. Apenas devolveu o telefone à bancada e seguiu até o quarto, me deixando sozinha na sala, em um silêncio que parecia durar uma eternidade.
Quando Alana voltou, poucos minutos depois, vestia uma blusa e calça pretas. Ela parecia pronta para enfrentar o que viesse.
— Vamos sair pelos fundos e cortar pela floresta. Não podemos ser vistas — explicou ela, a voz determinada.
Apenas assenti.
Nenhuma de nós podia se transformar — ela, para não ser detectada pelos guerreiros de Victor, eu, por uma ordem imposta por ele.
Quase meia hora depois, senti o solo se tornar mais firme, as árvores começaram a se afastar e uma estrada surgiu ao longe, como um sussurro de liberdade.
— Ali… — apontou Alana.
Os faróis baixos de um carro piscaram duas vezes, discretos. Alguém nos esperava. Um homem desceu do carro e, no mesmo instante, Alana correu até ele.
Não havia hesitação em seus passos, apenas urgência — a mesma urgência com que ele a envolveu com força.
Seus lábios se encontraram em um beijo desesperado, faminto, cheio de saudade.
Permaneci alguns passos atrás, ofegante pela caminhada, observando a cena com surpresa.
Alana nunca falara de ninguém, nunca deixara escapar qualquer detalhe sobre sua vida fora dos limites da alcateia — talvez por segurança.
O homem era alto, de ombros largos e presença marcante. Um lobo sem dúvida, mas não de nossa alcateia.
Havia algo diferente nele, uma aura de comando e proteção que contrastava com o caos e o controle do mundo que eu conhecia.
— Você, como sempre, arriscando tudo — disse ele, tocando o rosto dela com reverência antes de voltar o olhar para mim.
Os olhos dele encontraram os meus com uma firmeza suave, mas, ao mesmo tempo, com gentileza.
— Você deve ser Aurora… — disse ele, sua voz grave, porém acolhedora.
Eu assenti, incapaz de responder com palavras. Minha garganta estava seca, o medo e a exaustão finalmente cobrando seu preço.
O homem deu um leve passo à frente e estendeu a mão.
— Sou Kael. Estou aqui por você.
As palavras eram simples. Mas para mim, soaram como um sussurro de esperança. Alana voltou para o meu lado e segurou minha mão com força.
— Ele vai te levar até a rodoviária. Lá, você deve pegar o ônibus para o destino mais longe que encontrar. Fique alerta o tempo todo e, acima de tudo, não se permita ser capturada.
Abracei Alana, sentindo o peso da gratidão misturado com a incerteza, meus olhos marejados.
— Obrigada! Por tudo. Espero não te causar problemas.
— Esqueça isso. Eles nem vão imaginar como você conseguiu. São arrogantes demais para acreditar que você fosse mais astuta do que eles.
Entrei no carro.
A estrada escura se estendia diante de nós, levando-me para um futuro incerto — mas eu já sentia a liberdade.
— Você tem dinheiro suficiente? Precisa de algo? — perguntou ele, analisando-me.
— Não. Juntei o que consegui durante meses. Vai dar por um tempo — respondi, Kael assentiu, e um leve sorriso surgiu nos lábios dele.
— Você está preparada… isso é bom.
Kael estacionou próximo de um local mais reservado da rodoviária, desligou o motor e se virou para mim com um olhar firme.
— Daqui em diante, você está por conta própria — disse ele, sem dureza.
Assenti, peguei minha mochila e abri a porta do carro. Antes de sair, virei-me para ele mais uma vez.
— Obrigada... por tudo.
Ele apenas fez um gesto com a cabeça. Não precisava de mais palavras entre nós. Já tínhamos dito o suficiente — e o necessário.







