Mundo de ficçãoIniciar sessãoLaura só queria alguns dias longe de tudo. Miguel só queria descidir seu futuro. Eles não se conheciam. Não tinham nada em comum. E jamais imaginariam que um acidente mudaria suas vidas para sempre. Depois de um desastre aéreo, Laura e Miguel se veem presos em uma ilha paradisíaca, cercados pelo mar, pela mata e por perigos que nenhum dos dois estava preparado para enfrentar. Sem comida, sem ajuda e sem saber se alguém irá encontrá-los, eles precisam aprender a sobreviver juntos. Mas, enquanto lutam contra a natureza, algo ainda mais perigoso começa a acontecer. Eles se apaixonam. Naquela ilha, longe do mundo e de tudo o que conheciam, Miguel e Laura descobrem um amor que parece impossível de existir em meio ao caos. Cada olhar, cada toque e cada promessa faz com que voltar para a vida que tinham antes pareça cada vez mais difícil. Porque algumas histórias de amor começam quando tudo dá errado. E algumas pessoas precisam se perder no mundo para finalmente encontrar o amor de suas vidas.
Ler maisLaura tinha vinte e cinco anos e carregava nos olhos a determinação de quem aprendera cedo que os sonhos exigem muito mais do que talento.
Media um metro e sessenta e cinco de altura. Os cabelos castanho-claros, naturalmente ondulados, quase sempre estavam presos em um coque apressado durante o expediente, embora algumas mechas insistissem em escapar e emoldurar seu rosto delicado. Cuidava do corpo sem exageros, mantendo uma boa forma que era resultado da rotina intensa e das longas horas em pé na cozinha, mais do que de vaidade. Desde menina, encontrava felicidade entre panelas, temperos e receitas escritas à mão. Enquanto outras crianças brincavam no quintal, ela gostava de observar a mãe preparando o almoço da família, fascinada com a forma como ingredientes simples podiam transformar um dia comum em um momento especial. Foi esse amor pela cozinha que a levou a cursar Gastronomia. Formou-se com excelentes notas e sonhava em construir um nome na profissão. Seu maior desejo era abrir um restaurante onde cada prato contasse uma história e cada cliente saísse levando uma lembrança inesquecível. _ O cheiro de alho dourando no azeite já fazia parte da vida de Laura antes mesmo do sol nascer. Todos os dias eram assim: acordava cedo, prendia o cabelo em um coque apressado e saía quase sem tomar café. No caminho para o trabalho, observava as vitrines ainda fechadas e as ruas ganhando movimento aos poucos, como se o mundo tivesse tempo para despertar — menos ela. Laura trabalhava em um restaurante no centro da cidade. Não era seu, mas, às vezes, parecia que era ela quem carregava tudo nas costas. Organizava pedidos, ajudava na cozinha, atendia clientes quando faltava gente, resolvia problemas que nem eram dela. Era eficiente, dedicada… e completamente exausta. — Laura, precisamos de mais dois pratos na mesa cinco! — gritou o chef, sem nem olhar para trás. — Já vai! — respondeu, limpando as mãos no avental e correndo de um lado para o outro. Ela fazia tudo rápido, quase automático. Sabia o ponto da carne sem precisar provar, decorava pedidos inteiros sem anotar, sorria para clientes mesmo quando os pés doíam e a cabeça estava cheia. Mas, por dentro, havia um silêncio. Um espaço guardado só para um sonho. Ter o próprio restaurante. Não era qualquer restaurante. Laura imaginava um lugar aconchegante, com luz amarela suave, mesas de madeira e plantas espalhadas pelos cantos. Um lugar onde as pessoas não fossem só comer — fossem sentir. Onde cada prato tivesse história, carinho, intenção. Ela já tinha até nome pensado… embora nunca tivesse contado isso para ninguém. — Você vive no automático, sabia? — comentou Ana sua amiga que trabalha como garçonete, enquanto dividiam um rápido intervalo. Laura deu um sorriso fraco. — Acho que nem tenho tempo pra viver de outro jeito. Ana a observou por um instante, como se quisesse dizer algo mais, mas desistiu. E Laura sabia o porquê. Sonhos custam caro. E o dela parecia distante demais para quem mal tinha tempo de sentar e respirar. Naquela noite, ao fechar o restaurante, Laura ficou alguns minutos sozinha na cozinha. O silêncio era raro ali. Passou a mão pela bancada de inox, observou o fogão, os utensílios... e imaginou. Imaginou aquele lugar sendo dela. Imaginou seu nome na porta. Imaginou, pela primeira vez em muito tempo, como seria viver — e não apenas trabalhar. Um sorriso discreto surgiu em seu rosto, mas desapareceu tão rápido quanto veio. Seu pensamento voou para a mãe. Já fazia dois anos desde que o câncer a levara, e havia dias em que a saudade parecia diminuir. Mas, em noites como aquela, ela voltava com toda a força, como se o tempo não tivesse passado. Sua mãe era a primeira pessoa para quem ela corria quando tinha um sonho, um medo ou uma conquista. Era quem sempre dizia que suas mãos tinham um dom e que, um dia, ela teria um restaurante só seu. Laura suspirou. Como teria sido mais fácil se ela ainda estivesse ali. Talvez encontrasse um abraço depois de um dia difícil, uma palavra de incentivo quando o cansaço pesasse ou simplesmente alguém para dizer: "Você consegue, filha." Às vezes, o que mais doía não era a ausência em si, mas perceber que, quando finalmente realizasse aquele sonho, a pessoa que mais acreditou nela não estaria na primeira mesa para aplaudi-la. Ela enxugou discretamente uma lágrima que insistiu em escapar. Respirou fundo, apagou as luzes e fechou a porta. Porque, na manhã seguinte, tudo começaria de novo. E os sonhos... pelo menos por enquanto... ainda precisavam esperar.Não se mexe.A voz de Miguel saiu baixa, firme… diferente de tudo que Laura já tinha ouvido nele.Ela congelou.O coração batia tão forte que parecia ecoar na mata. O som continuava — rastejante, lento, como algo deslizando entre as folhas secas.— Miguel… — ela sussurrou, quase sem voz.— Fica. Parada.Ele deu um passo à frente dela, ficando entre Laura e o que quer que estivesse escondido entre as árvores.O som parou.Por um segundo, o silêncio foi ainda pior.Então, um movimento.Um corpo longo e escuro surgiu entre as folhas, deslizando com precisão.Uma cobra.Laura puxou o ar, assustada, e deu um passo para trás por puro instinto.— Eu disse pra não se mexer! — Miguel falou mais alto, virando rapidamente.Mas já era tarde.A cobra mudou de direção.Agora vinha na direção dela.— Miguel! — o pânico tomou conta da voz dela.Ele reagiu na mesma hora, puxando Laura pelo braço e a trazendo para perto, quase fazendo com que ela perdesse o equilíbrio.— Fica atrás de mim!A cobra se e
Laura cruzou os braços, respirando fundo, tentando se controlar. — Eu só acho que a gente devia pensar melhor antes de sair andando sem saber pra onde ir. Miguel passou a mão pelo cabelo, frustrado. — Pensar demais agora não vai ajudar. Ela abriu a boca para responder… E parou. Seus olhos se fixaram nele. Como se algo finalmente fizesse sentido. O jeito. A voz. O olhar. O choque no avião. A implicância. Laura estreitou os olhos. — Espera… Miguel franziu a testa. — O quê? Ela deu um passo à frente, analisando melhor. — Você… é o cara do avião. Ele piscou, surpreso. — Como assim? — O que esbarrou em mim — respondeu ela, seca. — Grosso. Miguel soltou o ar, quase incrédulo. — Sério isso agora? — Claro que é! — rebateu ela. — Você foi super ignorante. — Eu pedi desculpa! — Pediu nada direito! Ele balançou a cabeça, impaciente. — A gente caiu de um avião, Laura. Isso aqui é um pouco mais importante. Ela o encarou, firme. — Não muda o fato de você ser insuportáv
O sol já estava alto.O calor começava a pesar sobre a areia, refletindo na pele e tornando o ar mais seco a cada minuto que passava.Laura levou a mão aos lábios.Secos.Ardendo levemente por causa do sal.Ela tentou engolir… mas não havia quase nada.— Eu tô com sede… — disse, a voz fraca.Miguel passou a mão pelo rosto, sentindo o mesmo.A garganta arranhava.O corpo ainda estava se recuperando, mas a necessidade começava a falar mais alto.— A gente precisa achar água — respondeu ele, olhando ao redor.Mas tudo o que viam era o mar.E o mar não ajudava.Laura acompanhou o olhar dele, depois desviou para a areia.Pensativa.Algo dentro dela não queria apenas esperar.Não queria ficar parada.Com esforço, apoiou as mãos no chão e tentou se levantar.O corpo reclamou.Mas, dessa vez, ela conseguiu.Miguel deu um passo à frente, pronto para ajudar, mas ela fez um pequeno gesto.— Eu consigo…Ela começou a caminhar devagar pela areia, ainda um pouco instável. Parou alguns metros à fren
O som do mar parecia mais alto do que deveria.Laura permanecia sentada na areia, os braços apoiados ao lado do corpo, tentando recuperar o fôlego. Cada respiração ainda vinha irregular, como se o ar não quisesse entrar por completo.O corpo doía.A cabeça girava.E tudo parecia… distante.Miguel se levantou devagar, ignorando o cansaço que ainda pesava em cada músculo. Olhou ao redor mais uma vez, como se esperasse que algo — ou alguém — surgisse de repente.Mas não havia nada.Ainda assim, ele não podia simplesmente aceitar.— Fica aqui — disse, olhando para Laura. — Eu vou ver se tem mais alguém.Ela tentou responder, mas apenas assentiu de leve.As forças ainda não tinham voltado.Miguel começou a caminhar pela praia, os passos lentos no início, depois mais firmes. A areia dificultava o movimento, o corpo reclamava, mas ele continuou.Precisava tentar.— Tem alguém aí? — gritou, levando as mãos à boca para amplificar a voz.O som se perdeu no vento.Sem resposta.Ele caminhou até





Último capítulo