3- O peso de ficar

O cansaço, naquele dia, não era só físico.

Laura mexia uma panela distraída, olhando para o vapor subir como se pudesse desaparecer junto com ele. Os pedidos continuavam chegando, as vozes ecoavam pela cozinha, os pratos batiam uns nos outros — tudo igual.

Mas ela não estava igual.

Algo dentro dela tinha mudado.

Talvez fosse o acúmulo de dias sem pausa. Ou a sensação de estar vivendo uma vida que não era exatamente sua. Ou, quem sabe, o medo silencioso de que, se continuasse ali, nunca teria coragem de sair.

— Laura! — chamou o chef. — Atenção nisso aí!

Ela piscou algumas vezes, voltando para o presente.

— Desculpa.

Mas, no fundo, sabia que não era distração.

Era limite.

Naquele mesmo dia, durante o breve intervalo, ela tomou uma decisão. Não pensou demais — se pensasse, desistiria.

Caminhou até a sala do chefe com o coração acelerado.

Bateu na porta.

— Entra.

Ele nem levantou os olhos no primeiro instante.

— Preciso falar com você — disse Laura, firme, embora suas mãos estivessem levemente trêmulas.

Ele a olhou, curioso.

— Fala.

Ela respirou fundo.

— Eu quero sair.

O silêncio veio rápido, pesado.

— Sair como? — perguntou ele, franzindo a testa.

— Pedir demissão.

Dessa vez, ele encostou na cadeira, cruzando os braços.

— Isso é alguma brincadeira?

— Não.

— Laura… — ele soltou um riso curto, desacreditado — você é uma das melhores funcionárias daqui. Eu não posso simplesmente aceitar isso.

Ela sentiu o peso daquelas palavras, mas não recuou.

— Eu sei. Mas eu preciso.

— Precisa ou acha que precisa? — rebateu ele. — Porque tem uma grande diferença.

Laura engoliu seco.

— Eu estou cansada.

— Todo mundo aqui está.

— Não assim.

O olhar dele mudou. Mais atento. Mais sério.

Ela continuou, agora sem conseguir segurar tudo que estava guardado:

— Eu não tenho tempo pra mim. Não tenho tempo pra pensar, pra viver… pra correr atrás do que eu quero. Eu só… trabalho.

O silêncio voltou, mas dessa vez não era resistência — era análise.

O chefe passou a mão pelo rosto, pensativo.

— E o que você quer, Laura?

A pergunta a pegou desprevenida.

Ela abriu a boca… e não respondeu.

Porque, por mais que soubesse do sonho, nunca tinha dito em voz alta.

— Tá vendo? — disse ele, mais calmo agora. — Você nem sabe ainda.

Ela abaixou o olhar por um instante, mas logo o ergueu novamente.

— Eu sei que não quero continuar assim.

Ele suspirou fundo, levantando-se da cadeira.

— Eu não vou aceitar sua demissão.

O coração dela afundou.

— Mas—

— Calma — interrompeu ele, erguendo a mão. — Eu não terminei.

Ele caminhou até a janela, olhando o movimento lá fora.

— Você precisa de tempo. Não de uma decisão no impulso.

Laura ficou em silêncio.

— Tira férias — continuou ele. — Uma semana. Duas. Sei lá. Vai pensar, descansar… descobrir o que realmente quer.

Ela franziu a testa.

— E se eu voltar e quiser sair?

Ele deu um leve sorriso de canto.

— Aí a gente conversa de novo.

Laura ficou ali, parada, tentando entender o que sentia.

Alívio?

Medo?

Os dois.

— Eu nunca tirei férias aqui — disse, quase como se estivesse percebendo isso pela primeira vez.

— Então já passou da hora — respondeu ele.

Pela primeira vez em muito tempo, Laura não tinha uma tarefa imediata esperando por ela.

Não tinha um pedido urgente.

Não tinha alguém chamando seu nome.

Tinha… tempo.

E aquilo, de alguma forma, era mais assustador do que qualquer rotina.

— Tá bom — disse, por fim. — Eu aceito.

Ao sair da sala, o barulho do restaurante parecia distante.

Diferente.

Como se ela já não estivesse completamente presa àquele lugar.

E, sem saber, aquela pausa — aquela simples decisão de parar — estava prestes a mudar tudo.

Muito mais do que ela poderia imaginar.

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