Mundo ficciónIniciar sesiónO cansaço, naquele dia, não era só físico.
Laura mexia uma panela distraída, olhando para o vapor subir como se pudesse desaparecer junto com ele. Os pedidos continuavam chegando, as vozes ecoavam pela cozinha, os pratos batiam uns nos outros — tudo igual. Mas ela não estava igual. Algo dentro dela tinha mudado. Talvez fosse o acúmulo de dias sem pausa. Ou a sensação de estar vivendo uma vida que não era exatamente sua. Ou, quem sabe, o medo silencioso de que, se continuasse ali, nunca teria coragem de sair. — Laura! — chamou o chef. — Atenção nisso aí! Ela piscou algumas vezes, voltando para o presente. — Desculpa. Mas, no fundo, sabia que não era distração. Era limite. Naquele mesmo dia, durante o breve intervalo, ela tomou uma decisão. Não pensou demais — se pensasse, desistiria. Caminhou até a sala do chefe com o coração acelerado. Bateu na porta. — Entra. Ele nem levantou os olhos no primeiro instante. — Preciso falar com você — disse Laura, firme, embora suas mãos estivessem levemente trêmulas. Ele a olhou, curioso. — Fala. Ela respirou fundo. — Eu quero sair. O silêncio veio rápido, pesado. — Sair como? — perguntou ele, franzindo a testa. — Pedir demissão. Dessa vez, ele encostou na cadeira, cruzando os braços. — Isso é alguma brincadeira? — Não. — Laura… — ele soltou um riso curto, desacreditado — você é uma das melhores funcionárias daqui. Eu não posso simplesmente aceitar isso. Ela sentiu o peso daquelas palavras, mas não recuou. — Eu sei. Mas eu preciso. — Precisa ou acha que precisa? — rebateu ele. — Porque tem uma grande diferença. Laura engoliu seco. — Eu estou cansada. — Todo mundo aqui está. — Não assim. O olhar dele mudou. Mais atento. Mais sério. Ela continuou, agora sem conseguir segurar tudo que estava guardado: — Eu não tenho tempo pra mim. Não tenho tempo pra pensar, pra viver… pra correr atrás do que eu quero. Eu só… trabalho. O silêncio voltou, mas dessa vez não era resistência — era análise. O chefe passou a mão pelo rosto, pensativo. — E o que você quer, Laura? A pergunta a pegou desprevenida. Ela abriu a boca… e não respondeu. Porque, por mais que soubesse do sonho, nunca tinha dito em voz alta. — Tá vendo? — disse ele, mais calmo agora. — Você nem sabe ainda. Ela abaixou o olhar por um instante, mas logo o ergueu novamente. — Eu sei que não quero continuar assim. Ele suspirou fundo, levantando-se da cadeira. — Eu não vou aceitar sua demissão. O coração dela afundou. — Mas— — Calma — interrompeu ele, erguendo a mão. — Eu não terminei. Ele caminhou até a janela, olhando o movimento lá fora. — Você precisa de tempo. Não de uma decisão no impulso. Laura ficou em silêncio. — Tira férias — continuou ele. — Uma semana. Duas. Sei lá. Vai pensar, descansar… descobrir o que realmente quer. Ela franziu a testa. — E se eu voltar e quiser sair? Ele deu um leve sorriso de canto. — Aí a gente conversa de novo. Laura ficou ali, parada, tentando entender o que sentia. Alívio? Medo? Os dois. — Eu nunca tirei férias aqui — disse, quase como se estivesse percebendo isso pela primeira vez. — Então já passou da hora — respondeu ele. Pela primeira vez em muito tempo, Laura não tinha uma tarefa imediata esperando por ela. Não tinha um pedido urgente. Não tinha alguém chamando seu nome. Tinha… tempo. E aquilo, de alguma forma, era mais assustador do que qualquer rotina. — Tá bom — disse, por fim. — Eu aceito. Ao sair da sala, o barulho do restaurante parecia distante. Diferente. Como se ela já não estivesse completamente presa àquele lugar. E, sem saber, aquela pausa — aquela simples decisão de parar — estava prestes a mudar tudo. Muito mais do que ela poderia imaginar.






