Mundo ficciónIniciar sesiónO som das ondas foi a primeira coisa que ele percebeu.
Depois, o gosto salgado. E o peso do próprio corpo. Miguel abriu os olhos com dificuldade, tossindo enquanto virava de lado na areia. A garganta ardia, o peito doía a cada respiração. O avião. A queda. A água. Ele se sentou lentamente, ainda tonto, olhando ao redor. Mar. Destroços. Silêncio. Um silêncio pesado demais. — Tem alguém aí? — chamou, a voz rouca. Nada. Apenas o som constante das ondas. Miguel se levantou com dificuldade, ignorando a dor no ombro. Precisava encontrar alguém. Qualquer pessoa. Foi então que viu. Mais adiante, no mar, algo se movia com a corrente. Ele estreitou os olhos. Um pedaço do avião. E… alguém. O coração disparou. — Ei! — gritou, já correndo em direção à água. Sem pensar, entrou no mar. A água fria cortou sua pele, mas ele seguiu, lutando contra a força das ondas. Ela estava ali. Segurando um destroço. Quase sem forças. O rosto parcialmente submerso. — Ei! Me escuta! — gritou, segurando-a antes que a corrente a puxasse de vez. Ela não reagiu. Miguel puxou o pedaço de metal para perto, apoiando o corpo dela com cuidado. — Aguenta… — murmurou, mais para si mesmo. Com esforço, começou a trazê-la de volta, enfrentando a água que insistia em arrastá-los. Cada passo parecia mais pesado. Mas ele não soltou. Não podia. Quando finalmente alcançou a areia, estava sem ar, o corpo tremendo de esforço. Deitou-a com cuidado. — Ei… ei… — chamou, tocando o rosto dela. Nada. Ela não reagia. O coração dele disparou. — Não… não, não… Miguel aproximou o ouvido do rosto dela. Nenhuma respiração. O mundo pareceu parar por um segundo. Então o instinto falou mais alto. Ele posicionou as mãos sobre o peito dela e começou. Pressão. Uma. Duas. Três. — Vamos… volta… — murmurava entre os movimentos. Nada. Ele inclinou a cabeça dela para trás, respirou fundo e fez respiração boca a boca. Uma vez. Depois outra. Voltou às compressões. — Não faz isso… — disse, agora com a voz mais tensa. O som do mar parecia distante. Tudo se resumia àquele momento. Àquela vida. Pressão. Respiração. Pressão. Respiração. Segundos que pareceram eternos. Até que— Um engasgo. Fraco. Mas real. Miguel parou por um instante. — Isso… — sussurrou, aliviado. Ela tossiu, virando o rosto, expulsando água. Respirou. Irregular. Difícil. Mas viva. Miguel soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. — Você voltou… — murmurou. Laura abriu os olhos lentamente, confusa, o corpo pesado, o ar entrando com dificuldade. O mundo parecia girar. A luz incomodava. O som do mar era alto demais. Ela tentou focar. E então viu. Um homem. Desconhecido. Molhado, ofegante, olhando para ela como se estivesse entre o alívio e o desespero. — Onde… eu tô…? — perguntou, com dificuldade. Miguel respirou fundo, ainda tentando se recompor. — Em uma ilha… — respondeu. — O avião caiu. Ela piscou algumas vezes, tentando entender. Olhou ao redor. O mar. A areia. Os destroços. E aquele homem… Que ela não reconhecia. — Foi você…? — perguntou, confusa. — Eu te puxei da água — disse ele. — Você tava se segurando num pedaço do avião. Ela tentou se sentar, mas o corpo não respondeu. Miguel segurou seu braço com cuidado. — Calma. Ela o olhou novamente. Ainda sem reconhecer. Ainda perdida. Mas agora com algo diferente. Confiança. — Eu sou Miguel — disse ele, depois de um instante. Ela demorou um pouco, mas respondeu: — Laura… O vento passou entre eles. O som do mar nunca pareceu tão alto. Dois desconhecidos. Ligados por um momento entre a vida e a morte. Sem saber… Que aquela não seria a última vez que um salvaria o outro.






