Mundo de ficçãoIniciar sessãoO som da notificação ecoou no quarto silencioso.
Miguel, deitado na cama com um livro aberto que já não lia há tempos, estendeu a mão até o celular. Pensou em ignorar — ultimamente, qualquer mensagem parecia trazer mais cobrança do que notícia boa. Mas não daquela vez. O assunto do e-mail chamou sua atenção imediatamente: “Convite para Congresso Internacional de Biologia Marinha” Ele se sentou na mesma hora, o coração acelerando levemente. Abriu o e-mail. Leu uma vez. Depois outra. E, na terceira, um sorriso escapou. Era real. O congresso importante que ele tanto esperava, com pesquisadores renomados, palestras, experiências de campo… exatamente o tipo de oportunidade que ele vinha esperando. Um passo concreto na direção da vida que queria construir. Por alguns segundos, tudo pareceu leve. Até ele lembrar. Seu pai. O sorriso diminuiu, mas não desapareceu completamente. Miguel passou a mão no rosto, pensativo, e se levantou. Sabia que não podia adiar aquela conversa. Encontrou o pai no escritório, como sempre. — Precisamos conversar — disse, apoiando-se na porta. O homem assentiu, sem muita expressão. — Sobre? Miguel respirou fundo. — Recebi um convite para um congresso. De biologia marinha. O silêncio veio imediato. — Onde? — perguntou o pai, com um tom neutro demais. — Fora do País. Dura alguns dias… talvez uma semana. O pai encostou na cadeira, observando o filho com atenção. — E você quer ir. Não era uma pergunta. Miguel sustentou o olhar. — Quero. O homem ficou em silêncio por alguns segundos. Então, suspirou, levando a mão ao peito de forma discreta — mas não o suficiente para passar despercebido. — Eu não estou bem, Miguel. A frase caiu no ambiente com um peso diferente de tudo que já tinham dito antes. Miguel franziu a testa, preocupado. — Como assim? — Tenho me sentido cansado… mais do que o normal. Os médicos ainda estão investigando, mas… — ele pausou, escolhendo as palavras — não sei quanto tempo vou ter com disposição para manter tudo isso. Miguel ficou em silêncio. Aquilo não parecia uma simples estratégia para convencê-lo. Ou talvez fosse. E era isso que o deixava ainda mais confuso. — É justamente por isso que você deveria estar mais presente — continuou o pai. — A empresa precisa de você. Eu preciso de você. A culpa veio rápida, como uma onda forte. Miguel desviou o olhar por um instante, passando a mão pelos cabelos. Era sempre assim. Entre o que ele queria… E o que esperavam dele. — Eu vou ao congresso — disse, por fim. A própria voz pareceu mais firme do que ele se sentia. O pai o encarou, surpreso. — Miguel— — Eu vou — repetiu, agora mais calmo. — E, quando eu voltar… a gente conversa sobre a empresa. O silêncio que se seguiu foi diferente dos outros. Mais tenso. Mais definitivo. O pai assentiu lentamente, embora a expressão não demonstrasse aprovação. — Espero que você saiba o que está fazendo. Miguel não respondeu. Porque, no fundo, ainda não sabia completamente. Mas sabia de uma coisa: Se abrisse mão daquela oportunidade, estaria abrindo mão de si mesmo. Ao sair do escritório, o peso da decisão caiu sobre seus ombros. Misturado com culpa. Com dúvida. Com medo. Mas, ainda assim… Havia também algo novo. Algo que crescia silenciosamente dentro dele. Coragem. E, sem imaginar, aquela viagem — que começava como um passo em direção ao próprio sonho — estava prestes a levá-lo muito mais longe do que ele poderia prever.






