Mundo ficciónIniciar sesiónLaura nunca tinha feito uma mala com tanta calma.
Na verdade, nunca tinha feito uma mala de verdade. Sentada no chão do quarto, cercada por algumas roupas simples, ela encarava a pequena bolsa aberta como se fosse algo maior do que parecia. Não era só uma viagem. Era uma pausa. Talvez a primeira em anos. Pegou um vestido leve, hesitou por um instante… e colocou dentro da mala. Depois, uma sandália, um livro antigo que nunca terminava de ler, e um caderno em branco. O caderno a fez parar. Passou os dedos pela capa, pensativa. — Talvez agora eu tenha tempo — murmurou para si mesma. Tempo para escrever. Tempo para pensar. Tempo para sonhar sem interrupções. Do outro lado do País, Miguel fechava sua mala com movimentos rápidos e precisos. Diferente de Laura, ele já estava acostumado a viajar — mas aquela viagem tinha um significado diferente. Não era obrigação. Era escolha. Colocou alguns livros da área, um caderno cheio de anotações e, por último, um pequeno pingente em forma de concha que guardava há anos. Lembrança da primeira vez que sentiu que pertencia a algum lugar. O mar. Seu celular vibrou. Uma mensagem do pai: “Boa viagem.” Miguel leu, respirou fundo e travou a tela sem responder. Não por indiferença. Mas porque não sabia o que dizer. _ Na manhã seguinte, o aeroporto estava cheio. Laura segurava sua bolsa com força, olhando ao redor com uma mistura de curiosidade e insegurança. Nunca tinha viajado sozinha. Cada anúncio, cada fila, cada pessoa parecia saber exatamente o que fazer — menos ela. — Primeira vez? — perguntou uma senhora ao seu lado, sorrindo. Laura riu, um pouco sem graça. — Tá tão na cara assim? — Um pouquinho — respondeu a mulher, gentil. — Mas você vai se sair bem. Laura assentiu, respirando mais fundo. Talvez fosse isso. Se permitir tentar. Alguns metros dali, Miguel caminhava com tranquilidade, acostumado ao ambiente. Ainda assim, havia algo diferente naquele dia. Um tipo de inquietação que ele não sabia explicar. Como se algo estivesse prestes a acontecer. Ele olhou ao redor por um instante, observando as pessoas — histórias cruzando caminhos sem nem perceber. Sem saber que uma delas mudaria completamente a sua. Laura, já sentada na área de embarque, abriu o caderno pela primeira vez. Ficou alguns segundos olhando para a página em branco. Então escreveu: “Talvez essa viagem seja o começo de algo novo.” Do outro lado do saguão, Miguel recebeu o aviso de embarque. Seu voo seguiria em direção a Cancún, onde aconteceria o Congresso Internacional de biologia marinha. Um lugar cercado por águas cristalinas, vida marinha rica e… não tão distante da Cidade que Laura havia escolhido. Guardou o celular no bolso e seguiu em direção ao portão. Sem pressa. Sem saber. _ Quando o embarque foi anunciado, o coração de Laura acelerou. Era isso. Sem volta. Laura entrou no avião observando cada detalhe — o corredor estreito, as poltronas alinhadas, as pessoas já acomodadas. Caminhava devagar, conferindo o número do bilhete. — Fileira 22… — murmurou. Foi então que, distraída, deu um passo à frente ao mesmo tempo em que alguém vinha na direção oposta. O choque foi inevitável. — Ei! — disse ela, recuando um pouco. — Desculpa — respondeu o homem, rápido. Laura levantou o olhar. E, por um segundo, esqueceu o que ia dizer. Ele era alto, postura firme. Os olhos castanhos profundos pareciam analisá-la com a mesma surpresa que ela sentiu. Mas o momento durou pouco. — Você não olha por onde anda? — disse ela, cruzando os braços, irritada mais pelo susto do que por ele. Miguel arqueou levemente a sobrancelha. — Eu poderia perguntar o mesmo. — Eu tava procurando meu lugar. — E eu também. Laura soltou um suspiro impaciente. — Tá… tanto faz. Desviou dele e continuou pelo corredor, tentando ignorar a sensação estranha que aquele olhar tinha causado. — Grosso — murmurou, baixo o suficiente para que ele não ouvisse. Miguel a acompanhou com os olhos por um instante antes de seguir para seu lugar. — Estressada — pensou, balançando a cabeça de leve. Minutos depois, já sentada perto da janela, Laura ajeitou o cinto e respirou fundo. Tentava focar na viagem, no mar, na liberdade que tanto queria. Mas a imagem dele voltou à sua mente. — Que cara insuportável… — murmurou. Fez uma pausa. E, contra a própria vontade, completou em pensamento: Mas… que homem. Ela mordeu levemente o lábio, incomodada consigo mesma. Alto. Bem alinhado. Corpo definido sob a camisa. E aqueles olhos… — Ai, Laura, pelo amor de Deus — sussurrou, balançando a cabeça. — Um ogro daquele. Virou o rosto para a janela, tentando se concentrar nas nuvens. Sem imaginar que, entre tantos destinos aquela viagem, que parecia apenas uma pausa… Se transformaria em um recomeço inesperado.






