7- Entre o céu e o mar

Do outro lado do avião, Miguel se acomodava na poltrona, passando a mão pelo cabelo de forma distraída.

E então pensou nela.

— Mas que mulher é aquela…

A imagem veio clara.

Corpo bonito.

Bem modelado.

Os cabelos castanhos, levemente ondulados, caindo de forma natural.

E os olhos…

Cor de mel.

Expressivos.

Mesmo irritada, havia algo nela que chamava atenção.

Ele soltou um pequeno sorriso de canto.

— E brava ainda…

Encostou a cabeça no banco, ainda com a imagem dela na mente.

Sem saber o nome.

Sem saber nada.

Mas, de alguma forma, sabendo que não era alguém fácil de esquecer.

O avião começou a se mover lentamente.

Os dois seguiram no mesmo voo…

Carregando a mesma primeira impressão:

Errada.

Mas impossível de ignorar.

_

O voo seguia tranquilo.

As luzes suaves da cabine, o som constante dos motores e o céu limpo além das janelas criavam uma sensação quase hipnotizante. Muitos passageiros cochilavam, outros liam ou assistiam a filmes. Tudo parecia exatamente como deveria ser.

Laura observava as nuvens pela pequena janela ao seu lado.

Ainda custava acreditar que estava ali.

Era a primeira vez que viajava de avião sozinha. Pela primeira vez, deixava para trás a rotina, o restaurante, as lembranças da mãe e os medos que insistiam em acompanhá-la. Não sabia exatamente o que encontraria no destino, mas tinha certeza de que precisava daquela viagem.

Talvez fosse o primeiro passo para mudar de vida.

Respirou fundo.

Fechou os olhos por alguns segundos e sorriu discretamente.

Até que...

Uma leve sacudida.

Ela abriu os olhos imediatamente.

Olhou ao redor.

Algumas pessoas também perceberam, mas continuaram agindo normalmente. Um senhor voltou a ler seu livro. Uma mulher sorriu para o filho pequeno, tentando distraí-lo.

Laura apoiou a cabeça no encosto.

— Deve ser normal... — murmurou para si mesma.

Algumas fileiras à frente, Miguel observava distraidamente o oceano pela janela.

Viajar de avião nunca o incomodara.

Pelo contrário.

Gostava da sensação de estar acima das nuvens. Gostava de imaginar o imenso mar lá embaixo, escondido sob aquele tapete branco.

Mas pequenos detalhes dificilmente escapavam à sua atenção.

Sentiu uma nova vibração.

Diferente da primeira.

Franziu a testa.

O avião sacudiu outra vez.

Mais forte.

Dessa vez, várias pessoas interromperam o que estavam fazendo.

O silêncio começou a substituir as conversas.

Uma das comissárias de bordo caminhou apressadamente pelo corredor, verificando os cintos e pedindo, com um sorriso que tentava parecer tranquilo, para que todos permanecessem sentados.

Segundos depois, a voz do comandante ecoou pelos alto-falantes.

— Senhores passageiros, estamos entrando em uma área de instabilidade. Pedimos que todos permaneçam sentados, com os cintos devidamente afivelados. A tripulação também retornará aos seus assentos. Agradecemos a compreensão.

Laura apertou o cinto.

Seu coração começou a bater mais rápido.

Tentou controlar a respiração.

Era só uma turbulência.

Precisava acreditar nisso.

Miguel cruzou os braços e olhou discretamente para a asa do avião.

Ela vibrava mais do que o normal.

Então veio outra sacudida.

Muito mais intensa.

O avião perdeu altitude por alguns segundos.

Foi como se o chão simplesmente desaparecesse.

Diversos passageiros gritaram.

Uma criança começou a chorar desesperadamente.

Alguém iniciou uma oração em voz alta.

Laura segurou com força os apoios da poltrona.

Os dedos ficaram brancos.

Sentia o peito apertado.

O ar parecia não chegar aos pulmões.

— Vai passar... vai passar...

Mas nem ela acreditava mais naquelas palavras.

As luzes da cabine piscaram.

Uma vez.

Duas.

Três.

Depois permaneceram acesas de forma irregular, lançando sombras inquietantes pelo interior do avião.

Foi então que um ruído diferente tomou conta da cabine.

Não era o barulho dos motores.

Era um som metálico.

Agudo.

Longo.

Como se alguma parte da aeronave estivesse sendo forçada além do limite.

Miguel ergueu o olhar imediatamente.

Seu instinto dizia que aquilo não fazia parte de uma simples turbulência.

Ao redor, os rostos já demonstravam pânico.

Uma mala caiu de um compartimento superior.

Outra deslizou corredor abaixo.

Uma comissária tentou se levantar, mas foi obrigada a voltar ao assento quando uma nova sacudida lançou seu corpo para trás.

O avião inclinou bruscamente para um dos lados.

Os gritos se multiplicaram.

Laura fechou os olhos.

Levou as mãos ao peito.

pensou na mãe.

Em todos os sonhos que ainda não tinha realizado.

Do outro lado da cabine, Miguel segurou o banco à sua frente.

Sua mente tentava entender o que estava acontecendo, mas não havia lógica suficiente para explicar aquela sequência de acontecimentos.

Então veio a queda.

Violenta.

O estômago pareceu subir até a garganta.

Os corpos foram pressionados contra os cintos.

Alguns objetos flutuaram por um breve instante antes de despencarem novamente.

O comandante dizia alguma coisa pelos alto-falantes.

Mas ninguém conseguia entender.

As palavras eram engolidas pelo barulho ensurdecedor do avião.

Outro impacto.

Ainda mais forte.

O metal estalou.

Um som seco atravessou toda a fuselagem.

Laura abriu os olhos no exato instante em que viu máscaras de oxigênio caindo do teto.

Antes que pudesse reagir...

O mundo pareceu girar.

Um estrondo ensurdecedor tomou conta de tudo.

O avião atingiu a água com uma violência inimaginável.

O corpo de Laura foi lançado contra o cinto.

Vidros estilhaçaram.

Bagagens voaram.

Pessoas gritavam por socorro.

Em poucos segundos, a água gelada começou a invadir a cabine.

Subia depressa.

Muito depressa.

O caos tomou conta de tudo.

E então...

A escuridão.

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