Mundo ficciónIniciar sesiónNotícias e Silêncios
Mariana entrou no apartamento de Lucas como um furacão de energia, jogando a bolsa no sofá e girando sobre os próprios calcanhares.
— Eu consegui!
Lucas estava sentado à mesinha de jantar, cercado por monitores, debugando código. Ele ergueu a cabeça, os olhos arregalados.
— Conseguiu o quê?
— Um emprego! — Mariana puxou-o pela gola da camiseta e plantou um beijo em seus lábios. — Um ótimo emprego, Lu!
Lucas afastou o laptop, sorrindo.
— Sério? Qual empresa? A consultoria? O banco?
— Melhor ainda. O Conglomerado Cavalcanti.
Os olhos de Lucas se arregalaram.
— Cavalcanti? Mari, é uma das maiores holdings do país! Você conseguiu a vaga de analista?
Mariana hesitou, indo até a geladeira e pegando uma garrafa de água.
— Não exatamente.
— Como assim?
Ela virou-se, apoiando-se no balcão.
— O dono da empresa, Enzo Cavalcanti, me ofereceu uma posição diferente. Como... governanta educacional.
Houve um silêncio. Lucas piscou.
— Governanta educacional?
— Babá — traduziu Mariana, erguendo o queixo. — Mas não é só babá, Lu. É cuidar do filho dele, um menino de quatro anos, educar, ensinar. Ele quer alguém com formação superior, fluência em inglês...
— Mari, você estudou quatro anos de Administração para virar babá?
A voz de Lucas não era acusatória, apenas confusa. Mas Mariana sentiu as defesas subirem.
— Quinze mil reais por mês, Lucas.
O apartamento ficou em silêncio. Lucas abriu a boca, fechou, abriu de novo.
— Quinze... mil?
— Mais vale-refeição, plano de saúde premium, décimo terceiro, férias remuneradas. Horário comercial, fins de semana livres. Após seis meses, possibilidade de aumento.
Lucas passou a mão pelos cabelos, processando.
— Isso é mais do que eu ganho.
— Eu sei — disse Mariana, segurando suas mãos. — E é temporário, Lu. Vou juntar dinheiro. Daqui a um ano, dois, tenho o suficiente para uma pós no exterior. MBA em Columbia, LSE, INSEAD. Aí sim volto com peso no currículo e entro no mercado pelo topo.
Lucas olhou para ela, e Mariana viu a rendição nos olhos dele.
— Você pensou em tudo, né?
— Sempre penso.
Ele a abraçou e suspirou.
— Tá, me conta tudo. Como foi? Como é o cara?
Eles se sentaram no sofá, pernas entrelaçadas, e Mariana contou. Falou sobre o edifício na Faria Lima, sobre a entrevista com Sílvia, sobre como Enzo Cavalcanti entrara na sala e simplesmente decidira contratá-la.
— Ele parece bem... direto — comentou Lucas.
— É. Meio intimidador. Mas profissional. Tem esposa, Helena, e o filho chama Theo. Começo segunda-feira.
O que Mariana não contou foi a forma como os olhos verdes de Enzo a estudaram. Não contou sobre a corrente elétrica quando ele ordenou que ela o seguisse. Não contou sobre o escritório imenso, sobre como ele se apoiara na mesa e a olhara como se ela fosse uma equação complexa a resolver.
E certamente não contou sobre o calor que subira por suas coxas quando ele dissera seu nome — Mariana — com aquela voz grave.
Essas coisas, ela guardou para si mesma.
Eles pediram comida tailandesa e Lucas abriu vinho barato. A conversa fluiu fácil, pontuada por risos e planos. Mariana falou sobre Paris, Londres, os programas de MBA que já pesquisava.
Quando a noite avançou, Lucas a puxou para o quarto. Ele a beijou com ternura ansiosa, as mãos explorando as curvas que conhecia. Mariana respondeu, deixando que ele a deitasse na cama, que tirasse seu vestido com cuidado quase reverente.
O corpo de Lucas sobre o dela era familiar, seguro. Ele a tocava como porcelana preciosa, sussurrando o quanto a amava. Mariana fechou os olhos, entregando-se às sensações conhecidas.
Mas então, no meio do ato, algo mudou.
As mãos que a tocavam se tornaram maiores, mais firmes, possessivas. A voz que sussurrava seu nome ganhou um timbre grave, comandante. Os olhos que a olhavam não eram castanhos e tímidos, mas verdes e intensos.
Enzo.
Os olhos de Mariana se arregalaram. Seu corpo enrijeceu, o prazer morrendo, substituído por culpa e confusão.
— Mari? Tá tudo bem?
— Tá, tá sim — ela mentiu, puxando-o para mais perto, enterrando o rosto no pescoço dele.
Eles terminaram em silêncio. Lucas adormeceu logo depois, o braço sobre a cintura dela. Mas Mariana ficou acordada, olhando para o teto, o coração acelerado.
O que foi aquilo?
Ela amava Lucas. Claro que amava. Ele era bom, gentil, a apoiava incondicionalmente. Era seu porto seguro, o homem com quem planejava casar.
Então por que, no momento mais íntimo, sua mente convocara a imagem de um homem que ela mal conhecia? Um homem casado, seu futuro empregador, alguém completamente fora de alcance?
Mariana virou-se, tentando racionalizar.
Foi só a adrenalina do dia. O alívio. Não significa nada.
Mas, no fundo, numa parte honesta e assustadora de si mesma, Mariana sabia que estava mentindo.
Algo havia despertado naquela sala de reuniões. Algo perigoso, inconveniente, impossível de ignorar.
E na segunda-feira, ela entraria na casa de Enzo Cavalcanti.







