Mundo ficciónIniciar sesiónTrês semanas e dezessete entrevistas depois, Mariana estava começando a entender a diferença entre ambição e realidade. O mercado de trabalho que parecia tão promissor revelava-se um labirinto hostil, onde seu corpo, ao invés de ser irrelevante, tornava-se um obstáculo inesperado.
Na primeira entrevista, o gerente de RH interrompera a conversa sobre suas habilidades analíticas:
— Você é muito bonita para ficar trancada num escritório. Que tal a gente discutir sua carreira num jantar?
Mariana saíra da sala sem responder, as bochechas queimando de raiva.
Na consultoria multinacional, o diretor de operações fora mais sutil, mas não menos repugnante. Seus olhos percorriam descaradamente o decote dela enquanto falava sobre "cultura de meritocracia".
— Aqui valorizamos profissionais que sabem... colaborar. Pessoas flexíveis. Você me parece flexível.
A implicação era cristalina. Mariana agradecera educadamente e saíra, sentindo-se suja.
Foram cinco entrevistas assim. Homens de terno caro que a tratavam como mercadoria, como se seu diploma fosse irrelevante. Ela voltava para casa exausta, oscilando entre indignação e desespero.
Lucas era seu porto seguro. Ele a esperava com jantar pronto e ouvia pacientemente enquanto ela desabafava.
— Eles nem me veem como profissional, Lu — dizia ela, deitada no sofá, a cabeça no colo do namorado. — Olham para mim e veem só... isso.
Lucas afagava os cabelos dela com ternura.
— O problema não é você, Mari. É essa gente podre. Mas você vai conseguir, eu sei que vai.
O Conglomerado Cavalcanti ocupava três andares inteiros de um edifício espelhado na Faria Lima. Mariana ajeitou o tailleur bege e respirou fundo antes de entrar. A vaga era para analista financeira júnior.
A gerente de RH, Sílvia Andrade, era uma mulher de quarenta e poucos anos, magra e elegante, com um ar de eficiência impessoal. Ela cumprimentou Mariana com um aperto de mão firme e a conduziu a uma sala de reuniões.
— Então, Mariana... — Sílvia folheava o currículo sem muito entusiasmo. — Recém-formada. Sem experiência prévia. Por que deveríamos contratá-la?
Mariana começou sua resposta ensaiada, mas percebia que Sílvia mal a escutava, os olhos percorrendo o celular discretamente sob a mesa.
— Interessante. Vamos avaliar e entramos em contato.
Era a frase que significava "não".
Mas, naquele momento, a porta se abriu.
Enzo Cavalcanti entrou na sala com a presença de quem possui o próprio ar que respira. Alto, ombros largos preenchendo perfeitamente o terno cinza-carvão, cabelos grisalhos impecáveis. Seus olhos verdes varreram a sala e pousaram em Mariana.
E ficaram ali.
— Sílvia, desculpe interromper. Preciso dos números da fusão até as três.
— Claro, senhor Cavalcanti.
Mas Enzo não saiu. Seus olhos ainda estavam em Mariana — não com lascívia, mas com curiosidade. Avaliação. Reconhecimento.
— Você é candidata para qual vaga?
— Analista financeira júnior, senhor.
Enzo pegou o currículo das mãos de Sílvia, os olhos percorrendo rapidamente o papel.
— Formada em Administração. Inglês fluente. Primeira da turma — Ele ergueu os olhos. — Me acompanhe.
Não era um pedido. Era uma ordem.
Mariana seguiu-o pelos corredores de vidro e aço, consciente dos olhares curiosos dos funcionários. O escritório dele era imponente — janelas do chão ao teto com vista para a avenida, estantes de jacarandá, uma mesa executiva monumental. Enzo fechou a porta e indicou uma poltrona de couro.
— Sente-se.
Ela obedeceu, as mãos pousadas delicadamente no colo. Enzo se apoiou na borda da mesa, estudando-a com intensidade.
— Vou ser direto, Mariana. Não estou oferecendo a vaga de analista financeira.
O coração dela afundou.
— Estou oferecendo algo diferente. Preciso de alguém para cuidar do meu filho. Quatro anos. Alguém com educação superior, postura, inteligência. Alguém que seja mais que uma babá — uma influência positiva.
Mariana piscou, tentando processar.
— O senhor quer me contratar como... babá?
— Governanta educacional. Salário inicial de quinze mil reais mensais, vale-refeição, plano de saúde premium, décimo terceiro, férias remuneradas. Horário das oito às dezoito, segunda a sexta. Fins de semana livres. Após seis meses, avaliamos aumento.
Mariana ficou muda. Quinze mil reais. O dobro do que a vaga de analista júnior pagaria. Mais do que Lucas ganhava.
— Eu... não tenho experiência com crianças, senhor Cavalcanti.
— Você tem educação, paciência e inteligência?
— Sim.
O resto se aprende. — Enzo se inclinou ligeiramente para frente. — Estou fazendo esta oferta uma vez. Aceita ou não?
Mariana olhou para aquele homem — poderoso, magnético, envolvido numa aura de controle absoluto. E, por baixo da proposta profissional, sentiu algo mais. Uma corrente elétrica, uma promessa não dita.
E havia Enzo. Diferente dos outros homens. Ele a via. Realmente a via.
— Eu aceito.
Enzo sorriu pela primeira vez. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas que transformou completamente seu rosto.
— Ótimo. Começa segunda-feira. Sílvia vai preparar o contrato.
Mariana saiu daquele escritório flutuando, o coração acelerado. Ela conseguira. Não da forma que planejara, mas conseguira. E, enquanto esperava o elevador, não conseguia parar de pensar nos olhos verdes de Enzo Cavalcanti.
Mal sabia ela que acabara de cruzar uma fronteira da qual não haveria retorno.







