O Primeiro Dia

Amansão Cavalcanti erguia-se nos Jardins como uma fortaleza de pedra calcária e vidro, escondida atrás de muros cobertos por hera. Mariana desceu do Uber na entrada lateral e foi recebida por uma empregada uniformizada que a conduziu através de um jardim interno onde uma fonte de mármore sussurrava. A casa era um estudo em elegância, pisos de madeira que brilhavam como espelhos, lustres de cristal, obras de arte modernas nas paredes.

Helena Cavalcanti a esperava na sala de estar, sentada numa poltrona Le Corbusier branca, as pernas cruzadas. Ela usava vestido midi bege de linho, cabelos loiros presos num coque impecável, maquiagem sutil. Aos trinta e cinco anos, Helena possuía aquela beleza madura e controlada de mulheres que nunca precisaram se esforçar para nada.

— Mariana, presumo — disse Helena, sem se levantar, a voz fria como mármore.

— Sim, senhora. Bom dia.

— Sente-se.

Não era um convite. Mariana obedeceu, sentando-se na borda do sofá, as mãos no colo, consciente de que estava sendo avaliada.

Helena pegou uma pasta de couro sobre a mesinha.

— Seu contrato está assinado. Aqui estão as regras da casa. Serei clara e direta, pois não tenho paciência para repetições.

— Primeiro: seu horário é das oito da manhã às seis da tarde, de segunda a sexta. Você chega às oito em ponto, não às oito e cinco. Segundo: você usará uniforme branco durante todo o expediente. Três conjuntos foram providenciados. Espero que estejam sempre impecáveis.

Helena virou uma página.

— Terceiro: suas responsabilidades incluem cuidar de Theo das oito às dezoito. Preparar o café da manhã dele, supervisionar atividades, garantir que almoce adequadamente, conduzir atividades educativas, levá-lo ao parque quando o tempo permitir, e preparar o jantar dele às cinco e meia. Theo tem aulas de inglês às terças e quintas às três. Natação às quartas às quatro. Você o acompanhará.

— Quarto: Theo não come açúcar processado. Nada de doces, refrigerantes, sucos industrializados. A nutricionista deixou um cardápio que você seguirá. Quinto: tela, máximo uma hora por dia, apenas conteúdo educativo pré-aprovado.

Helena ergueu os olhos.

— Sexto: você é uma funcionária, não um membro da família. Quando houver visitas, você não participa de conversas. Não oferece opiniões. Não se senta à mesa. Você é invisível. Compreendeu?

— Sim, senhora.

— Você me chamará de Senhora Cavalcanti. Meu marido, de Senhor Cavalcanti. Nunca pelos primeiros nomes. Theo pode chamá-la de Mariana, mas você se referirá a nós sempre com os títulos apropriados.

— Entendido, Senhora Cavalcanti.

— Você será avaliada continuamente. Se considerarmos que seu desempenho está abaixo do esperado, você será substituída. Há dezenas de candidatas qualificadas aguardando. Lembre-se disso.

A mensagem era clara: você é descartável.

Helena se levantou.

— Rosa vai levá-la ao vestiário. Vista o uniforme e venha conhecer Theo. Ele está na sala de brinquedos.

O dia passou num borrão. Theo era adorável, olhos castanhos enormes, cabelos encaracolados, sorriso tímido. Ele a recebeu com curiosidade reservada, mas logo se aqueceu quando Mariana sugeriu construírem um castelo de blocos. Desenharam, leram livros em inglês, almoçaram quinoa com frango e brócolis. Theo falou sobre dinossauros com paixão intensa, e Mariana se pegou genuinamente encantada.

Mas o uniforme branco era desconfortável, justo demais nos seios e quadris. E a presença de Helena, que aparecia periodicamente, avaliando silenciosamente, pesava como uma sombra fria.

Às seis em ponto, Mariana se despediu de Theo, trocou o uniforme, e seguiu em direção à saída. A casa estava silenciosa. Ela atravessou o corredor que levava à porta lateral, mas parou ao passar pela cozinha gourmet.

Enzo estava lá.

Apoiado no balcão de mármore negro, ainda de terno, o paletó jogado sobre uma cadeira, a gravata afrouxada, as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços musculosos. Ele segurava um copo de cristal com uísque âmbar, os olhos verdes fixos na janela.

Ele parecia cansado. Mas, de alguma forma, o cansaço só o tornava mais atraente — a mandíbula marcada levemente sombreada por barba por fazer, os cabelos grisalhos ligeiramente despenteados.

Mariana hesitou na entrada.

Enzo virou a cabeça, os olhos encontrando os dela. Por um segundo, algo passou entre eles — um reconhecimento, uma faísca.

— Boa noite, Senhor Cavalcanti — disse Mariana, baixando os olhos.

Enzo tomou um gole do uísque, estudando-a.

— Como foi o primeiro dia?

— Muito bem, senhor. Theo é um menino maravilhoso.

— Ele gostou de você?

— Espero que sim, senhor.

Enzo colocou o copo sobre o balcão. Ele deu dois passos em direção a ela, diminuindo a distância, e Mariana sentiu o coração acelerar.

— Me chame de Enzo — disse ele, a voz grave. — "Senhor Cavalcanti" é para reuniões de negócios. Aqui, dentro de casa, sou apenas Enzo.

Mariana piscou, surpresa.

— Sua esposa... a Senhora Cavalcanti disse que eu deveria...

— Minha esposa tem suas regras. Eu tenho as minhas. — Ele inclinou a cabeça, os olhos verdes penetrantes. — Quando estamos sozinhos, você me chama de Enzo. Está claro?

— Sim... Enzo.

O nome saiu estranho em seus lábios, íntimo demais, perigoso demais. Enzo sorriu — aquele sorriso pequeno e devastador — e assentiu.

— Ótimo. Boa noite, Mariana.

— Boa noite, Enzo.

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