Sangue e Gaiola

A noite caiu pesada sobre o chalé.

O silêncio entre eles não era ausência de som — era contenção.

Eles passaram o dia inteiro evitando o que quase aconteceu na parede da sala. Cally ficou no quarto por horas, lendo o mesmo parágrafo três vezes sem absorver uma única palavra. Theron alternou entre o sofá e a varanda, como se o ar dentro da casa estivesse rarefeito demais para seus pulmões.

Não houve discussão.

Mas também não houve trégua.

Quando ela entrou na sala naquela noite, ele estava sentado no sofá, o controle do videogame abandonado ao lado, a televisão ligada em volume baixo. Não parecia assistir de verdade. O olhar estava distante, preso em algum lugar que ela não alcançava.

— Theron — ela chamou, parando na entrada.

Ele não respondeu de imediato. Apenas virou o rosto lentamente.

A cicatriz no rosto parecia mais marcada sob a luz amarela.

— Só pra avisar… — ela continuou, mantendo a voz firme — amanhã tenho consulta. E transfusão. Esqueci que era tão em seguida.

Ele sustentou o olhar dela por um segundo longo demais.

Não houve surpresa.

Nem irritação.

Apenas cálculo.

— Que horas?

— Oito.

Ele assentiu.

— Estarei pronto.

Simples assim.

Sem sarcasmo.

Sem resistência.

Sem comentários sobre obrigação.

Ela esperava confronto.

Recebeu eficiência.

E, estranhamente, aquilo doeu mais.

— Certo — ela murmurou.

Ele já tinha voltado os olhos para a televisão.

Conversa encerrada.

Cally ficou ali por alguns segundos, observando o perfil dele. O maxilar travado. Os ombros largos ocupando espaço demais naquele sofá.

Ele parecia um homem que nunca descansava por completo.

Ela queria perguntar sobre a noite anterior. Sobre o que tinha sido aquilo. Sobre por que ele a afastara como se tocar nela fosse atravessar uma linha proibida.

Mas o jeito como ele evitava olhar para ela dizia que qualquer pergunta seria recebida como ameaça.

Ela voltou para o quarto.

E nenhum dos dois dormiu bem.

Na manhã seguinte, Theron já estava de pé quando ela desceu.

Camiseta preta ajustada ao corpo. Calça cargo. Botas.

Pronto para guerra — mesmo que fosse apenas um hospital.

Ele trancou a porta com um movimento rápido e puxou o celular do bolso. Cally observou enquanto ele ativava o sistema digital de segurança. O portão de ferro emitiu um bipe seco quando foi selado.

Tudo ali respondia a ele.

Tudo obedecia a ele.

Ela cruzou os braços.

— E se eu precisar sair?

Ele parou.

O olhar deslizou para ela, avaliando.

— Você não precisa sair.

O tom era definitivo.

— Não a menos que seja comigo.

O peito dela apertou.

— Eu sei que não posso me expor. Não sou irresponsável. Mas do jeito que você fala…

Ela respirou fundo.

— Parece que eu sou uma prisioneira.

O silêncio ficou denso.

Theron guardou o celular no bolso com força controlada.

— Segurança não é prisão.

— Depende de quem tem a chave.

A resposta saiu antes que ela pudesse filtrar.

Os olhos dele escureceram.

Por um segundo, ela achou que ele fosse retrucar.

Mas ele apenas virou as costas.

— Vamos nos atrasar.

Ela o seguiu até o carro.

A Ford F-150 Raptor preta parecia deslocada na rua tranquila. Grande demais. Imponente demais. Intimidante demais.

Ela passou a mão pela lataria antes de entrar.

— Parece um tanque de guerra disfarçado de picape.

Ele deu partida.

— Faz o que precisa ser feito.

Como ele.

No caminho, o silêncio não era vazio. Era carregado de coisas não ditas.

Ela colocou a máscara antes de sair do carro no hospital. O gesto era automático, mas Theron observou.

Havia disciplina nela.

Aceitação.

Ela não reclamava da própria condição.

Enfrentava.

Ele desviou o olhar rapidamente.

O hospital reagiu a Cally como se ela fosse parte da estrutura.

Enfermeiras sorrindo. Acenos discretos. Cumprimentos calorosos.

Theron notou.

Ela era frágil fisicamente.

Mas ali dentro, tinha território.

Isso mexeu com algo nele.

Na sala reservada para transfusão, o equipamento foi preparado com eficiência silenciosa. Tubos transparentes. Monitores emitindo sons suaves.

Theron sentou na cadeira ao lado.

Estendeu o braço.

A agulha entrou na veia dele sem que ele piscasse.

O sangue começou a fluir.

Direto para ela.

Sem intermediários.

Sem estoque.

Direto.

Cally observou a linha vermelha que os conectava.

— Engraçado — ela murmurou.

Ele não respondeu.

— A gente divide o mesmo sangue agora.

Ele virou o rosto lentamente.

— Não romantize isso.

— Não estou romantizando.

Ela sustentou o olhar dele.

— Só constatando.

O silêncio voltou.

Mas dessa vez não era hostil.

Era elétrico.

Ele podia sentir o corpo dela a poucos centímetros. A respiração mais lenta. O calor da pele.

Ele odiava o efeito que aquilo causava.

O médico apareceu algum tempo depois.

Homem de meia-idade. Óculos finos. Sorriso profissional demais.

— Cally, minha querida, como você está?

Ela respondeu com naturalidade.

Mas Theron não gostou da forma como o olhar do médico demorou meio segundo a mais nela.

— E você deve ser o marido — disse o médico, estendendo a mão para Theron.

Theron apertou.

Firme.

Sem sorrir.

O médico hesitou imperceptivelmente.

Interessante.

No consultório, o médico analisou exames no tablet.

— Seus níveis estão estáveis — ele disse. — Melhor do que o esperado.

Ele virou a tela ligeiramente para Theron.

— O sangue dele realmente faz diferença.

Theron não gostou da forma como aquilo foi dito.

Realmente.

Como se fosse raro.

Valioso.

Observável demais.

— Vamos manter o protocolo — continuou o médico. — Talvez possamos intensificar alguns testes nos próximos meses.

Cally franziu a testa.

— Intensificar como?

— Nada invasivo. Só… estudos complementares.

Theron falou pela primeira vez desde que entraram.

— Que tipo de estudo?

O tom não era alto.

Mas era suficiente para alterar o ar da sala.

O médico ajustou os óculos.

— Monitoramento mais frequente. Talvez coleta adicional.

Adicional.

Theron memorizou a palavra.

Quando saíram do consultório, Cally estava pensativa. No dia seguinte teria outra consulta com o médico que a atendia desde que nasceu.

— Ele parece diferente — ela murmurou.

— Diferente como?

— Não sei. Observando demais.

Theron abriu a porta da picape para ela.

— Eu não gosto dele.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Você não gosta de ninguém.

Ele fechou a porta com um pouco mais de força do que o necessário.

No banco do motorista, ficou alguns segundos em silêncio antes de ligar o carro.

— Se ele tentar qualquer coisa fora do protocolo — disse, finalmente — eu resolvo.

Ela virou o rosto para ele.

— Você não pode resolver tudo com ameaça.

Ele olhou para ela.

Direto.

Intenso.

— Posso.

Ela sentiu o arrepio subir pela espinha.

Não era medo.

Era consciência do poder bruto sentado ao lado dela.

No caminho de volta, o silêncio era diferente do da ida.

Mais próximo.

Mais perigoso.

Quando chegaram ao chalé, ele desativou o sistema de segurança.

Ela entrou primeiro.

Parou no meio da sala.

— Theron.

Ele fechou a porta.

— O que foi?

Ela se virou.

— Eu não sou um ítem para você cumprir contrato.

A frase ficou suspensa no ar.

Ele ficou imóvel.

— Nem você é só um doador de sangue.

Ele deu um passo em direção a ela.

Lento.

— Não me dê papéis que eu não pedi.

— Então para de agir como se fosse só uma arma.

O maxilar dele travou.

Ela estava atravessando territórios perigosos.

Ele chegou perto demais.

O cheiro dele ainda tinha resquícios de hospital e metal.

— Você não sabe com o que está mexendo.

Ela sustentou o olhar.

— Talvez eu saiba mais do que você pensa.

O silêncio ficou cortante.

Ele poderia afastá-la.

Poderia endurecer.

Poderia repetir que aquilo era só contrato.

Mas não o fez.

Em vez disso, aproximou o rosto do dela, o suficiente para que a respiração se misturasse.

— Não testa meus limites — murmurou.

Não era ameaça.

Era aviso.

E havia algo vulnerável escondido ali.

Ela percebeu.

E ele percebeu que ela percebeu.

Isso o enfureceu.

Ele se afastou abruptamente.

— Descansa — disse, voltando ao tom frio. — Amanhã pode se sentir fraca.

Ela observou enquanto ele caminhava para o quarto.

O corpo dela ainda estava quente da proximidade.

E pela primeira vez, ela teve certeza de algo:

Theron não tinha medo do mundo.

Tinha medo dela.

E do que aconteceria no dia em que ele deixasse de se afastar.

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