LINHA INVISÍVEL

A luz da sala ainda estava acesa.

Theron desligou o carro, mas permaneceu alguns segundos imóvel, os dedos ainda firmes no volante. O sangue do traidor já devia estar secando no concreto frio do galpão, mas a adrenalina continuava vibrando sob sua pele.

Ele respirou fundo.

Uma vez.

Duas.

O Quimera entrava primeiro.

O homem ficava do lado de fora.

Ele abriu a porta do carro e caminhou até o chalé.

Girou a chave.

Entrou.

O cheiro leve de sabonete misturado ao ambiente o atingiu antes mesmo que ele a visse.

Cally estava sentada no chão da sala, as pernas cruzadas, o controle nas mãos. A televisão iluminava o rosto dela com tons azulados.

Ela não percebeu a chegada dele imediatamente.

Estava concentrada.

O mesmo foco silencioso.

O mesmo jeito estratégico.

Ele fechou a porta com mais força do que o necessário.

Ela virou o rosto.

Os olhos encontraram os dele.

E então ela viu.

O sangue na manga da camisa.

Não perguntou nada.

Não fez escândalo.

Apenas pausou o jogo.

— Você demorou.

A frase era simples.

Mas carregava algo doméstico demais.

Aquilo o irritou instantaneamente.

— Não sou obrigado a avisar horários.

Ela se levantou devagar.

Sem confronto.

Sem submissão.

— Eu não pedi justificativa.

O silêncio caiu pesado entre os dois.

Ele tirou a jaqueta.

Jogou sobre a cadeira.

O cheiro de metal ficou mais evidente.

Ela notou o corte na própria mão dele — pequeno, superficial.

Provavelmente respingo.

— Você está machucado.

Ele riu sem humor.

— Isso não é machucado.

Ela deu um passo à frente.

Instintivo.

Ele percebeu.

E o corpo reagiu antes da mente.

A proximidade dela, a camiseta larga caindo levemente de um ombro, o contraste absurdo entre aquela figura delicada e o que ele acabara de fazer minutos antes…

Algo dentro dele deslocou.

— Não chega perto — disse, mais ríspido do que pretendia.

Ela parou.

Mas não recuou.

— Eu só ia pegar um pano.

— Eu não preciso que você cuide de mim.

O tom cortou o ar.

Ela sustentou o olhar.

— Você sempre reage assim quando alguém tenta fazer algo simples por você?

Ele passou a mão pelo rosto.

Irritado.

Exposto demais.

— Você não sabe onde eu estava.

— Eu sei exatamente onde você estava.

O silêncio seguinte foi denso.

Ele deu dois passos até ela.

A diferença de altura se tornou evidente.

— Então deveria ter mais medo.

Ela inclinou levemente o rosto.

— De você?

Ele esperava hesitação.

Não encontrou.

E isso o desestabilizou.

A mão dele subiu.

Segurou o queixo dela com firmeza.

Não brutal.

Mas dominante.

O polegar roçou levemente o lábio inferior dela.

Ela prendeu a respiração.

Ele sentiu.

O corpo respondeu imediatamente.

Errado.

Errado demais.

Ele deveria estar contaminado pela violência.

Mas ali, com ela a centímetros, a adrenalina começou a se misturar com outra coisa.

Desejo.

Cru.

Sem filtro.

Ele desceu a mão pelo pescoço dela.

Lento.

Como se estivesse testando a própria permissão.

Ela não recuou.

Não o afastou.

Os dedos dela tocaram o pulso dele — não para impedir.

Para sentir.

Aquilo foi o erro.

O toque dela não era medo.

Era escolha.

A respiração dele ficou pesada.

Os olhos escureceram.

Ele inclinou o rosto.

Os lábios roçaram o canto da boca dela.

Não um beijo completo.

Um aviso.

Ela fechou os olhos por um segundo.

E isso quase o fez perder o controle.

Ele a pressionou contra a parede.

O corpo encaixando no dela.

Sem violência.

Mas com intensidade suficiente para tirar o ar.

A boca dele desceu para o pescoço dela.

Quente.

Lenta.

Quase reverente.

Ela arqueou levemente o corpo.

Um som baixo escapou da garganta dela.

Aquilo o atravessou como lâmina.

Porque não era medo.

Era desejo.

Ele parou abruptamente.

Como se tivesse atravessado uma linha invisível.

Afastou-se dois passos.

A respiração descompassada.

— Não — murmurou para si mesmo.

Ela abriu os olhos.

Confusa.

A pele ainda sensível onde ele tocara.

— O que foi?

Ele riu.

Mas era uma risada dura.

— Você realmente não entende?

— Entender o quê?

Ele passou a mão pelo cabelo raspado.

Frustrado.

— Eu estava arrancando dedos de um homem há menos de uma hora.

O silêncio caiu.

Mas ela não demonstrou repulsa.

Apenas o observou.

— E?

Aquilo o irritou.

— E você acha que eu posso simplesmente entrar aqui e… tocar você como se eu fosse normal?

Ela deu um passo à frente.

— Você não precisa ser normal.

— Eu preciso não ser um erro.

A frase saiu mais baixa.

Quase involuntária.

Ele a encarou.

A mandíbula travada.

— Você não faz ideia do que eu sou capaz.

— Eu vi o suficiente.

— Não. — Ele se aproximou novamente, mas dessa vez havia distância emocional. — Você viu o que eu permiti.

O ar ficou pesado.

Ele pegou a jaqueta da cadeira.

— Não confunda desejo com algo que eu possa oferecer.

Ela sentiu o impacto.

— Então o que foi isso agora?

Ele a olhou por um segundo longo demais.

— Impulso.

Mentira.

Os dois sabiam.

Ele caminhou até o corredor.

Antes de entrar no quarto, parou.

Sem olhar para trás, disse:

— Fique longe de mim quando eu voltar de trabalho.

A porta se fechou.

Cally permaneceu parada no meio da sala.

O corpo ainda quente.

A respiração ainda irregular.

Ele a quis.

Isso era inegável.

Mas tinha medo de querer.

No quarto, Theron apoiou as mãos na parede.

A cabeça baixa.

Ele podia ouvir a própria respiração.

Descontrolada.

Ele já havia quebrado homens maiores que ele.

Mas quase perdera o controle com uma mulher que mal chegava ao seu ombro.

E o pior?

Ele não queria apenas possuí-la.

Queria descer de joelhos.

E homens como ele não se ajoelhavam.

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