Capítulo 1

Mais cedo, no mesmo dia…

Liane pousou a mala no chão, ao lado do aparador da entrada. Pegou as chaves e os documentos do Chevrolet Tahoe que haviam alugado para a viagem até Anchorage, no estado de Chugach, e soltou o ar com força.

Ergueu o olhar para o espelho.

O cansaço estampado em seus olhos era evidente — pesado, quase palpável. As horas extras, as noites mal dormidas, a pressão para entregar o trabalho antes dos prazos da editora… tinha sido demais. Parte dela queria largar tudo ali mesmo, voltar para a cama e desaparecer sob os lençóis. Dormir por dias. Fingir que o mundo lá fora simplesmente não existia.

Mas havia outra parte.

Inquieta. Elétrica.

Batendo com força dentro do peito.

Liane estava empolgada demais para ignorar aquilo. Finalmente se reuniria com as amigas. Finalmente colocariam o pé na estrada — nem que fosse apenas pelas cidades vizinhas.

A rotina tinha engolido todas elas.

Os encontros rarearam, os fins de semana deixaram de coincidir, e, sem perceberem, foram se afastando na correria dos dias. Aquela viagem vinha sendo planejada havia muito tempo… e agora que finalmente acontecia, algo dentro dela despertava.

Algo estranho.

Difícil de nomear.

Era como um chamado silencioso.

Uma promessa.

Aventura. Descobertas.

Sua mente, sempre inquieta, sedenta por histórias, praticamente implorava por aquilo. Liane sabia — sentir, viver, explorar… era exatamente o que precisava para reacender algo dentro de si.

Uma buzina ecoou do lado de fora.

Ela virou o rosto na direção da porta, ainda aberta, e viu o carro de Olívia estacionando. Um sopro de ar frio invadiu o ambiente. Seus pais surtariam se vissem aquilo — aquecimento ligado havia meses e a porta escancarada no meio do inverno.

O frio não matava.

Mas irritava profundamente.

Sem perder tempo, Liane ergueu a mala e saiu, trancando a porta atrás de si. Desceu os degraus e seguiu direto para o SUV. As amigas já estavam do lado de fora, abrindo o porta-malas e organizando as bagagens às pressas, fugindo da friagem cortante.

Em poucos segundos, todas estavam dentro do carro.

— Finalmente! Férias! — Beverly praticamente vibrou ao seu lado, jogando o corpo contra o banco do passageiro, elétrica como sempre.

Liane soltou um suspiro cansado, apoiando a cabeça por um instante.

Beverly era um contraste ambulante. Rosto angelical, sorriso fácil… e uma mente completamente sem filtro. Dona de curvas generosas e uma confiança invejável, não fazia questão nenhuma de esconder o quanto gostava de se divertir. E, segundo ela mesma, muito bem acompanhada — mesmo que não fosse exatamente por outra pessoa.

— Vai com calma — murmurou Liane, ainda exausta. — Ao contrário de você, eu virei a noite trabalhando. Minha editora decidiu acabar comigo antes das férias.

— Drama — Amanda rebateu de imediato, estendendo um copo de café quente para ela. — Você trabalha sem parar o ano inteiro. Eles que lidem com isso.

Olívia concordou com um pequeno aceno, já acomodada no banco de trás.

Amanda tinha presença.

Não precisava levantar a voz para ser ouvida. Havia algo em seu olhar — firme, seguro — que impunha respeito. Sua beleza chamava atenção sem esforço: pele escura impecável, cabelos trançados com precisão, traços marcantes. Mas o que mais se destacava era a postura.

Ela não abaixava a cabeça para ninguém.

Muito menos para homem nenhum.

Mesmo trabalhando na mesma editora que Liane, as duas mal se viam. Amanda vivia viajando, resolvendo contratos, negociando direitos, sempre em movimento.

Já Olívia…

Olívia era o oposto.

Pequena, delicada, quase tímida.

Mas enganava.

Liane sabia que, por trás daquela aparência doce — os olhos grandes, o cabelo perfeitamente alinhado, os lábios sempre marcados — havia uma determinação silenciosa. No mundo da moda, onde trabalhava como aprendiz de estilista, ninguém sobrevivia sendo fraca.

— Eu só sei de uma coisa… — Beverly começou, já animada.

— Nem começa — Liane cortou, sem nem olhar para ela. — A gente acabou de sair e você já está pensando besteira.

As risadinhas vieram do banco de trás.

Beverly ignorou completamente.

E continuou.

Detalhando.

Sem pudor algum.

Liane apenas balançou a cabeça, já acostumada.

— Eu até concordo com ela… — Olívia arriscou, tímida. — Vai que eu encontro alguém…

— Príncipe encantado? — Amanda arqueou uma sobrancelha.

Um segundo de silêncio.

Então veio o sorriso.

— Você precisa mesmo é de um lobo mau.

O comentário caiu como uma faísca.

Amanda continuou, divertida, descrevendo vantagens com um entusiasmo suspeito, arrancando gargalhadas imediatas. Liane quase perdeu o controle do volante de tanto rir.

— Amanda… — Beverly tentou, entre risos.

Mas já era tarde.

— Pensa bem — ela completou, dando de ombros. — Muito mais interessante.

Olívia ficou vermelha até as orelhas.

— Olha o que você fez! — Beverly apontou, indignada.

— Fiz nada. Só falei a verdade.

A conversa se dissolveu em risadas, perdendo o rumo pouco depois.

E, sem perceberem, já estavam na estrada principal.

A placa da cidade surgiu à frente.

Liane a observou em silêncio, os dedos apertando o volante por um instante… até que passaram por ela.

Tok ficou para trás.

Ela soltou o ar devagar.

— Até breve… — murmurou, quase inaudível.

No banco de trás, as amigas continuavam rindo, fazendo planos, preenchendo o carro com vida.

Mas, por um segundo…

Liane teve a estranha sensação de que algo, muito além daquela estrada, já a esperava.

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