Os Herdeiros da Lua
Os Herdeiros da Lua
Por: Hannah Sophia Correia
Prológo

A sensação de conforto. O calor. A cama macia. O aroma intoxicante que envolvia Liane e deixava seu corpo ainda mais relaxado, como se finalmente tivesse encontrado uma segurança que nem sabia que precisava.

Um sentimento de perfeição invadiu seu peito e a manteve de olhos fechados por mais tempo, com receio de descobrir que tudo não passava de um sonho.

Depois do mal-estar do dia anterior, conseguir uma noite inteira de sono parecia um verdadeiro milagre. Tudo o que Liane mais queria era permanecer naquele pequeno casulo que criara para si, permitindo que o corpo descansasse. Instintivamente, se aconchegou na fonte de calor atrás de si, e a sensação foi tão boa, tão acolhedora, que chegou a parecer irreal.

Um estalo estranho chamou sua atenção, como madeira crepitando.

Ela franziu o cenho e abriu os olhos lentamente, contrariada. Piscou algumas vezes enquanto uma luz suave preenchia o ambiente… e só então percebeu a lareira acesa em um canto, lançando sombras douradas pelas paredes de madeira escura e rústica. A janela estava com os vidros embaçados, manchados pela poeira do lado de fora. Tapetes artesanais cobriam o chão.

Definitivamente, Liane não estava em seu quarto.

Sem coragem de se mover, observou o ambiente ao redor apenas com o olhar.

A decoração… a estrutura… nada lhe era familiar.

Um aperto tomou conta de seu estômago.

Antes que conseguisse reagir, braços fortes, pesados, peludos e perigosamente masculinos se envolveram em sua cintura, puxando-a de volta. Seu corpo foi encaixado contra o dele com uma precisão perturbadora, acomodando-a como se tivesse sido feita exatamente para aquele lugar.

O calor dele a envolveu por completo.

E então ela sentiu.

Algo rígido.

Vivo.

Pulsante.

Pressionado contra seu corpo.

Uma ereção matinal.

Grande.

Grossa.

Inconfundível.

O coração de Liane disparou.

Mas o que…?

Como tinha ido parar ali?

O instinto falou mais alto.

Ela saltou da cama como se tivesse sido queimada. Virou-se rapidamente para encarar o homem atrás dela…

E seu corpo inteiro travou.

Alphonse.

O choque foi imediato.

Seu coração martelava no peito, descompassado, enquanto sua mente se recusava a aceitar o que via.

Aquilo não fazia sentido.

Nada fazia sentido.

O medo veio logo em seguida.

E o grito escapou.


Dias antes…


Alphonse se levantou da cadeira e caminhou até a janela. Seus olhos se fixaram nos picos das montanhas ao longe, cobertos de neve, imutáveis como sempre. Ele soltou o ar com força, tentando puxar algum tipo de calma para dentro de si.

Já fazia horas que Rocco estava inquieto.

Uma inquietação estranha. Incômoda.

Difícil de ignorar.

Era quase como um pressentimento.

E aquilo não era bom.

Nada bom.

A voz de Johan o trouxe de volta.

Alphonse sequer percebeu em que momento ele havia entrado no escritório — e isso, por si só, já era um problema. Distração nunca fora algo comum para ele. Muito menos aceitável.

Uma matilha inteira dependia dele.

Mais de dois séculos haviam se passado desde que assumira a liderança.

Naquela mesma noite.

A noite em que seus pais foram brutalmente assassinados por um humano ousado o suficiente para invadir seu território e tentar tomá-lo à força. Alphonse tinha apenas dezessete anos. Ainda assim, mesmo diante dos corpos dos pais estendidos no chão, cobertos de sangue, encontrou dentro de si força suficiente para reagir.

E vingou a morte deles ali mesmo.

Depois daquela noite, Muuttua nunca mais foi a mesma.

Ele também não.

Sem sequer ter o lobo completamente desperto, foi forçado pelos anciãos a assumir um posto para o qual não estava preparado.

Hoje, com duzentos e quarenta anos, Alphonse finalmente compreendia o motivo.

Era o único em quem podiam confiar.

O único forte o suficiente para manter todos de pé.

Seguindo as leis ancestrais — as mesmas que o mantinham firme até hoje — a vila cresceu, prosperou e passou a coexistir entre humanos.

Sem que eles soubessem a verdade.

E assim continuaria.

— Nada… ou talvez algo que eu ainda não consiga explicar — respondeu por fim, a voz controlada. — Rocco está estranho. Como se estivesse antecipando alguma coisa.

Johan não questionou.

Apenas absorveu.

O alerta foi imediato.

A segurança seria reforçada. Estradas. Floresta. Entradas.

Tudo.

Alphonse assentiu.

Benson seria chamado.

Minutos depois, o beta já estava diante dele.

E bastou um olhar.

Benson também sentia.

Alphonse arqueou levemente a sobrancelha, e o sorriso discreto do outro confirmou o que ele já suspeitava. Benson sempre fora mais sensível — captava mudanças antes mesmo que elas se tornassem reais.

A matilha deles podia não ser grande.

Mas era forte.

Muito mais forte que as outras.

Lycans de sangue puro.

Não apenas lobos.

O comentário sobre a lua cheia veio quase como uma tentativa de racionalizar tudo aquilo. Talvez fosse apenas isso. Um reflexo do ciclo. Da necessidade de transformação. Do tempo que estavam reprimindo seus instintos.

Alphonse girou levemente a cadeira, voltando o olhar para o céu.

A lua já subia.

Cheia.

Imponente.

Ele respirou fundo.

Talvez fosse só isso.

Talvez fosse apenas Rocco… querendo liberdade.

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