A madrugada ainda nem terminou quando o choro do bebê muda de tom. Não é resmungo de fome, nem reclamação de fralda; é um som agudo, apertado, que arranha o peito de Camila antes mesmo de ela acordar direito. Ela desperta sobressaltada, senta na cama com o coração disparado e precisa de dois segundos para entender de onde vem aquele desespero pequeno.
Levanta rápido, tropeça no tapete e alcança o berço. À luz fraca do abajur, o rostinho do filho está vermelho, o corpo se contorcendo, as mãozinhas fechadas em punho. Quando encosta a palma na testa dele, o calor que sente a faz puxar a mão de volta, como se tivesse tocado em algo em brasa.
— Rafael — sai num sopro.
A porta se abre quase ao mesmo tempo. Ele entra descalço, cabelo bagunçado, camisa aberta, respiração pesada de quem atravessou o corredor correndo.
— O que foi?
— Ele está muito quente — Camila responde, com a voz já trêmula.
Rafael precisa de um único olhar. Chega em dois passos, encosta os dedos na testa do bebê, sente o c