Mundo de ficçãoIniciar sessãoO Fiat velho roncou pela última vez ao estacionar em frente ao meu prédio em Bari, já passava das quatro da manhã. O céu ainda estava escuro, mas o cansaço nos meus ossos parecia pesar mais que a noite inteira no Rouge Velvet. As luzes de néon do clube ainda piscavam na minha cabeça, junto com os olhares dos clientes e as notas amassadas que eu havia enfiado na bolsa. Desci do carro com as pernas bambas, Rex latindo animado do banco de trás, como se minha volta fosse a melhor coisa do mundo. Abri a porta dele e ele pulou direto nas minhas pernas, lambendo minhas mãos cansadas.
— Calma, meu amor — murmurei, coçando atrás da orelha dele enquanto subia as escadas rangentes. — Hoje foi longa.Mal consegui girar a chave na fechadura do apartamento quando ouvi o som. Um gorgolejar baixo, como água entupida em cano velho. Entrei e acendi a luz da sala. O tapete da cozinha estava encharcado. Meu coração deu um salto. Corri até o armário debaixo da pia — água jorrava como uma torneira quebrada, o tubo principal tinha estourado. O chão virara um lago raso, subindo rápido, enfiando-se no sofá desbotado e nas minhas poucas coisas guardadas em caixas.
— Não… não, por favor! — gritei, quase escorregando enquanto tentava fechar a válvula principal com as mãos trêmulas. A água gelada já molhava meus tornozelos. Rex latiu em pânico, correndo em círculos.Peguei o celular no bolso, os dedos encharcados mal obedecendo enquanto discava o encanador 24h que eu lembrava de um vizinho.
— Encana Bari, boa noite — atendeu uma voz rouca do outro lado. — Meu apartamento tá inundando! Tubo estourou, água por todo lado! Preciso de ajuda agora! — Minha voz saiu aguda, desesperada, o pânico subindo pela garganta. — Endereço? — Ele foi direto, profissional apesar da hora.Dei o endereço entre dentes, enquanto tentava arrastar o sofá pra cima de uma cadeira. O homem prometeu chegar em 40 minutos. Desliguei e olhei ao redor: a ração de Rex boiando, minhas roupas de stripper encharcadas na mala aberta, papéis do tribunal flutuando como folhas mortas.
"Três semanas, no mínimo", ele disse quando chegou — um homem atarracado com lanterna na testa, avaliando o estrago com uma careta. “Tubo antigo, parede toda pra quebrar. Impossível morar aqui.”
Três semanas. Sem casa. Sem grana pra hotel. Meu estômago revirou. Sentei no degrau seco da escada com Rex no colo, o pelo dele molhado roçando meu rosto. Liguei pra Nicoletta, mas caiu na caixa postal — ela dormia, normal. Quem mais? Ninguém. Exceto… a mansão. O único lugar que eu conhecia agora, com espaço de sobra.
A ideia me deu arrepios. Morar com o Don? Inapropriado. Perigoso. Mas prático. Rex latiu baixo, como se sentisse meu desespero.
Suspirei e mandei mensagem pra Assunta, minha única aliada ali:
“Assunta, problema grave. Meu apê inundou. Encana diz 3 semanas. O que faço?”A resposta veio em segundos:
“Venha pra cá agora, menina. Traga o cachorro. Espaço há.”Meu coração acelerou. Espaço há. Ela não falava do Don, mas eu sabia que ele ficaria sabendo. Peguei uma mala rápida — roupas decentes, ração de Rex, o dossiê das crianças — e enfiei tudo no carro. Dirigi de volta pros subúrbios com o sol nascendo, o portão da mansão se abrindo como uma boca faminta.
Assunta esperava na entrada, o coque impecável mesmo às cinco da manhã. Seus olhos cinzentos me avaliaram de cima a baixo, notando a mala e Rex ofegante. — Entra, Isabella. Pelo amor de Deus, parece que viu fantasma — disse ela, voz baixa mas firme, como sempre. Pegou minha mala sem cerimônia. — Don Alessandro já sabe.Meu estômago afundou.
— Ele… o quê?Antes que Assunta respondesse, passos pesados ecoaram do corredor. Alessandro surgiu na penumbra, camisa preta desabotoada no colarinho, barba rente sombreando o maxilar tenso. Seus olhos azuis escuros me cravaram no lugar, como se eu fosse uma intrusa dupla agora. Rex rosnou baixo, sentindo a tensão.
— Senhorita Marconetti — a voz dele veio grave, sem emoção, mas com aquela autoridade que fazia o ar vibrar. — Assunta me contou sobre seu apartamento.Assenti, engolindo seco, Rex pressionado contra minhas pernas.
— Sim, senhor. Tubo estourou. O encanador disse três semanas… Eu não tenho pra onde ir. Mas eu posso ficar num hotel, ou...Ele ergueu a mão, cortando.
— Não. Hotel é risco. Você cuida dos meus filhos. Fica aqui. — Não era convite, era ordem. Mas algo na voz dele, quase imperceptível, soou… prático? Protetor? — Don, isso é inapropriado — protestei, coração martelando. Não engoli fácil. — Eu sou empregada. Não hóspede. E Rex… ele late, destrói coisas. Não quero causar incómodos.Alessandro estreitou os olhos, cruzando os braços sobre o peito largo. A presença dele enchia o hall de mármore, como se a mansão inteira orbitasse ao redor.
— Rex fica também. Quarto de empregada tem suíte vazia no andar de cima. Virou seu até as obras acabarem. Sem discussão.Assunta tossiu de leve, disfarçando um sorriso.
— Eu preparo, Don.Ele assentiu pra ela, mas não desviou o olhar de mim.
— Regras dobram. Nada de visitas. Nada de noites fora. Meus filhos primeiro. Entendeu? — Sim, senhor — respondi, voz firme apesar do frio na espinha.Relutei mais um segundo, pensando em Nicoletta, no Rouge Velvet, na minha vida lá fora. Mas Rex latiu animado pros sapatos polidos dele, e Alessandro… ele se abaixou, coçando a orelha do cachorro com uma familiaridade surpreendente. Escorpião possessivo, controlando até o caos alheio.
— Bom garoto — murmurou pro Rex, quase um ronronar. Depois se endireitou, me encarando de novo. — Descanse duas horas. Depois aulas. Não quero desculpas.Ele virou as costas e sumiu pelo corredor, deixando o eco dos passos. Assunta me puxou pelo braço.
— Vem, menina. Ele não morde… muito. — Ela piscou, levando minha mala escada acima.O quarto — suíte, na verdade — era ridículo comparado ao meu apê. Cama king coberta de lençóis brancos, banheiro com banheira de pedra, janela pro jardim de oliveiras. Rex pulou na cama, farejando tudo. Coloquei a mala no armário embutido, coração ainda acelerado. Morar aqui. Com ele. Com as crianças rebeldes. Com segredos que eu mal arranhava.
Sentei na beira da cama, Rex enroscando no meu colo. Prático? Sim. Perigoso? Absolutamente.
Ouvi passos leves no corredor. Assunta voltou com uma bandeja: café forte, pão fresco, queijo.
— Come. E não se preocupe. O Don protege os seus. — Ela arrumou a bandeja na mesinha. — Mesmo os inesperados. — Obrigada, Assunta. De verdade.Ela parou na porta, olhos sábios.
— Só não ande pela mansão de noite. Don Alessandro não gosta muito. Aqui, portas trancadas salvam vidas.A porta fechou com clique suave. Deitei com Rex, o cheiro de café misturando-se ao de lavanda fresca. Duas horas. Depois, o circo recomeçava. Mas pela primeira vez em meses, eu tinha um teto seco. E um Don que, talvez, não fosse só gelo.
Lá fora, o sol nascia sobre as oliveiras. Aqui dentro, algo novo começava a germinar — perigoso, inevitável.







