Mundo ficciónIniciar sesiónDurante uma viagem de negócios a Angola, Helder Tex, um CEO de origem americana, perde a esposa num trágico acidente em Luanda, ficando sozinho com o filho ainda bebé nos braços. Decide permanecer no país para reconstruir a vida e expandir os seus investimentos, dividindo-se entre Luanda e a província de Malanje. Para cuidar do filho durante as suas ausências, contrata Ilda Ginga, uma babá respeitada na comunidade, mulher simples, dedicada e já noivada, com a vida aparentemente definida. À medida que o tempo passa, Helder torna-se profundamente obcecado por Ilda, não apenas pela forma como cuida do seu filho, mas pela presença, pelo silêncio e pela força que ela carrega. Mesmo sabendo que ela pertence a outro homem, ele luta contra o desejo, o ciúme e a necessidade de a ter por perto. Entre escolhas difíceis, pressões sociais e uma mulher rica e elegante que também tenta conquistá-lo, Helder terá de decidir até onde está disposto a ir por um amor proibido. Ilda, dividida entre o dever, a promessa do noivado e um sentimento que cresce contra a sua vontade, terá de escolher entre a vida que planeou e a vida que o destino lhe impõe.
Leer másO cemitério de Luanda estava silencioso demais para um dia tão quente. Helder Tex mantinha-se imóvel diante da sepultura recém-fechada. O fato preto colava-lhe ao corpo, mas o peso maior vinha do peito. Nos braços, o filho dormia, alheio ao fim do mundo que acabara de acontecer.
— Ela não merecia isto… — murmurou um dos amigos.
Helder não respondeu. Não chorava. O luto tinha-lhe roubado até as lágrimas.
— Helder, nós voltamos hoje para os Estados Unidos — disse um homem de meia‑idade, pousando-lhe a mão no ombro. — Se precisares de alguma coisa…
— Obrigado — respondeu ele, seco. — Vão em paz.
Os amigos despediram-se um a um. Abraços rápidos. Olhares de pena. Palavras vazias. Quando o último carro se afastou, Helder ficou sozinho. Só ele, o filho e a terra vermelha que agora guardava a mulher que amara.
— Somos só nós agora… — sussurrou ao bebé.
No mesmo dia, decidiu partir para Malanje.
A estrada era longa. O sol descia devagar. O carro avançava em silêncio, quebrado apenas pelo choro curto do bebé no banco de trás. Helder conduzia com os olhos fixos, a mente distante, perdida entre a dor e a obrigação de seguir em frente.
Foi então que a viu.
À beira da estrada, numa pequena cidade, uma mulher negra, de pele macia, cabelos longos e soltos, caminhava com uma calma que contrastava com o caos dentro dele. O olhar dela cruzou o dele por um segundo — apenas um segundo — mas foi o suficiente.
— Merda… — murmurou.
O volante virou bruscamente. O carro saiu da estrada, raspou na terra solta e quase embateu contra uma parede antiga. O impacto foi seco. O mundo girou. Helder perdeu os sentidos.
Quando voltou a si, vozes ecoavam à sua volta.
— Ele está vivo!
— Tragam água! — Tire o bebé primeiro!Mãos firmes abriram a porta. Outras pegaram no filho com cuidado. Alguém recolheu documentos, malas, o computador. Mulheres da comunidade aproximavam-se, falando baixo, protegendo.
— Calma, senhor… está em Cacuso — disse uma voz feminina.
Helder tentou levantar-se, mas o corpo falhou.
— O… o meu filho… — balbuciou.
— Está bem. Está seguro — respondeu a mesma voz.
Ele virou o rosto. Reconheceu-a.
Era ela. A mulher da estrada.O carro ainda estava parado quando Helder recuperou os sentidos. A testa ardia. O sangue escorria lentamente pelo rosto, quente, misturando‑se com o pó vermelho da estrada. Estava sentado numa das cadeiras simples de uma casa de barro, o corpo pesado, o coração descompassado. Uma mulher mais velha limpava-lhe a testa com um pano húmido, murmurando palavras de conforto numa voz calma. Outra ajeitava o bebé, que chorava baixo, assustado, mas ileso.
O ar estava frio, estranho para aquela terra quente. O céu carregado ameaçava chuva. Do lado de fora, crianças descalças corriam pela aldeia próxima à estrada, riam, apontavam curiosas para o carro amassado. A vida seguia, mesmo depois do quase desastre.
— Bebe isto, senhor… vai lhe dar força.
Uma mão jovem estendeu-lhe uma chávena de café forte, escuro, com o cheiro intenso da terra angolana. Helder segurou a chávena com cuidado, ainda atordoado. Quando levantou o olhar, viu-a.
Ela estava um pouco afastada, perto de uma casa baixa. Conversava com um homem jovem — o noivo — que gesticulava animado, sorria, falava de coisas simples. Ela escutava com atenção, mas havia nela uma serenidade diferente. Pele negra macia, cabelos longos caindo pelas costas, postura firme. O vento brincava com o vestido simples que usava.
Helder desviou o olhar para a janela… e voltou a olhar para ela.
Foi nesse instante que ela também olhou.Os olhares cruzaram-se por alguns segundos — curtos demais para serem esquecidos, longos demais para serem inocentes. Nada foi dito. Nenhum sorriso. Nenhuma palavra. Apenas um silêncio pesado, estranho, carregado de algo que Helder ainda não compreendia, mas que o fez sentir o peito apertar.
Ao redor, duas jovens riam, vestidas com roupas curtas, tentando chamar atenção, passando perto dele de propósito. Outras pessoas falavam, despediam-se, organizavam as coisas do carro. Mas Helder não via mais ninguém.
Via apenas ela.
Pouco depois, agradeceu a todos. Apertos de mão. Gestos simples. Gratidão sincera. Pegou o bebé no colo de uma senhora da comunidade, ajeitou-o com cuidado e seguiu em direção ao carro. Antes de entrar, voltou o rosto uma última vez.
Ela ainda estava ali.
E foi nesse momento que Helder Tex soube — sem entender como — que não estava apenas a deixar um acidente para trás. Estava a entrar numa história da qual já não conseguiria sair.
Assim que Helder ligou o carro, o choro do bebé rasgou o silêncio da aldeia.
Não era um choro qualquer. Era alto, desesperado, contínuo. O som ecoava dentro do veículo e batia no peito dele como culpa. Tentou ajustar o espelho, mudar de marcha, balançar levemente o corpo, mas nada funcionava.
— Calma… calma, meu filho… — murmurou, com a voz cansada e trémula.
O bebé chorava ainda mais.
Helder parou o carro outra vez, passou a mão pelo rosto suado e fechou os olhos por um segundo. Não conseguia seguir viagem assim.
Foi então que uma senhora mais velha, de lenço amarrado à cabeça e olhar atento, aproximou‑se. Chamava‑se Mena. Observava tudo desde o início, com a experiência de quem já tinha criado muitos filhos… e enterrado algumas dores.
— O bebé sente o ambiente — disse ela, com calma. — Ele precisa de colo… e de voz de mulher.
Helder olhou para ela, sem saber o que responder.
Mena virou-se para outra mulher, mais nova, de rosto firme e postura simples. Maria.
— Maria… manda a Ilda acompanhar o senhor só até mais à frente. Para acalmar a criança.
O pedido caiu pesado no ar.
Maria hesitou. Olhou para a filha. Ilda estava ali, parada, mãos cruzadas à frente do corpo, o vestido simples colado à pele pelo calor, os olhos grandes e atentos.
Antes que alguém dissesse mais alguma coisa, José, o noivo de Ilda, deu um passo à frente. O rosto fechado denunciava o ciúme, mas o tom tentou manter-se digno.
— Não é longe, pois não? — perguntou, seco.
— Só até o bebé se acalmar — respondeu Mena. — É coisa de mãe… e de humanidade.
José apertou os lábios. Não gostava da ideia. Não gostava do carro. Nem do homem. Nem do jeito como alguns olhares já se viravam para Ilda.
Mas também não queria parecer pequeno.
— Vai — disse, por fim. — Mas volta logo.
Ilda levantou os olhos para ele e assentiu, em silêncio.
Enquanto ela se aproximava do carro, algumas vozes começaram a murmurar, baixas… mas audíveis.
— Ilda sempre foi aproveitadora… sempre de olho em homem bonito.
— Maria tem sorte… todas as filhas dela são levadas por homens ricos — disse outra senhora, rindo e batendo palmas, como se aquilo fosse uma vitória.
Ilda fingiu não ouvir. Abriu a porta com cuidado e sentou-se.
O carro ainda não tinha arrancado quando o bebé, sentindo o novo colo, começou a acalmar. Ilda pegou-o com delicadeza, aproximou-o do peito e começou a cantar baixo… uma melodia antiga, quase um sussurro.
Helder virou o rosto.
O olhar dele ficou preso ao dela.
Não foi desejo imediato. Foi impacto. Como se o mundo tivesse diminuído de tamanho dentro daquele carro.
Cinco minutos.
Cinco minutos em que o bebé adormeceu.
Cinco minutos em que Helder esqueceu o funeral. Esqueceu o acidente. Esqueceu o luto.
— Ele gosta da sua voz — disse ele, finalmente, quebrando o silêncio.
Ilda sorriu de leve, sem mostrar os dentes.
— Crianças sentem quando alguém está triste — respondeu. — Ele só precisava de calma.
Helder engoliu em seco.
— E você… como se chama?
— Ilda — disse, quase num fio de voz. — Ilda Ginga.
Ele repetiu o nome, devagar, como quem guarda algo precioso.
— Ilda… é um nome bonito. Combina com você.
Ela desviou o olhar para a janela, envergonhada.
— Obrigada…
O carro arrancou.
Durante a viagem, Helder tentava manter os olhos na estrada, mas era impossível não sentir a presença dela ao lado. O cheiro leve de sabão, o cuidado com o bebé, a serenidade que contrastava com o caos que ele trazia por dentro.
— Você mora aqui perto? — perguntou ele.
— Sim… sempre vivi aqui — respondeu. — Trabalho com crianças… ajudo minha mãe… cuido da casa.
— E sonha com o quê, Ilda?
Ela hesitou.
— Nunca pensei muito nisso… — disse, sincera. — Só em fazer o que é certo.
Helder sorriu, triste.
— Às vezes… isso é mais raro do que sonhar alto.
Ilda respondeu apenas com um “sim”, quase inaudível.
Ela estava nervosa. Perdida entre o medo e a curiosidade. A beleza dele confundia. O jeito calmo, o olhar pesado de quem já viveu demais.
Quando o carro se aproximou do ponto combinado, ela começou a se mexer, preparando-se para descer.
— Obrigada por ajudar — disse Helder. — O meu filho… e eu.
Ela levantou os olhos pela primeira vez e sustentou o olhar dele.
Por alguns segundos, o mundo ficou suspenso.
Depois, desceu.
Helder seguiu viagem com o bebé no carro, agora em silêncio. Mas algo tinha mudado.
Não era só gratidão.
Era o início de algo que ele ainda não sabia nomear…
mas que já começava a doer.Depois de uma longa viagem desde o centro de Malanje até Cacuso, Helder estacionou o carro à entrada da aldeia. O sol já descia lentamente, tingindo o céu de tons quentes e perigosos. Os dois desceram do veículo em silêncio.Helder acompanhou Ilda até à a segunda entrada da aldeia. A mão esquerda dele deslizou pelas costas dela, num gesto instintivo, possessivo. Ilda estremeceu e afastou-se de imediato.— Isso não está certo — disse ela, nervosa. — Nós acabámos de nos conhecer. Não podes fazer isso. Se não me respeitas, pelo menos respeita o meu noivo. Estou prestes a receber o dote.Helder sorriu de lado, num sarcasmo contido.— Posso ser eu a dar esse dote — respondeu, num tom calmo, quase provocador.Ilda abanou a cabeça com firmeza.— Eu não quero ser noiva de um homem quase velho, com a idade já a passar dos quarenta. — Fez uma pausa, respirou fundo, e completou com ironia nervosa: — Até que o senhor é bonito… bom corpo, forte, bom português apesar de ser americano, branque-lo… m
Helder saiu cedo naquela manhã. O sol ainda lutava para romper as nuvens densas que cobriam Malanje, e o ar trazia um cheiro húmido de terra molhada. Precisava de comprar algumas coisas básicas, mas, mais do que isso, precisava sentir a cidade, observar rostos, ouvir vozes, compreender o lugar onde decidira ficar.Entrava em pequenas lojas, trocava cumprimentos curtos, fazia perguntas simples. As pessoas respondiam com curiosidade contida, olhares atentos ao estrangeiro de fala calma e postura reservada. Helder falava pouco, observava muito.Foi então que, ao virar uma das ruas de terra batida, o seu olhar ficou preso numa casa grande, antiga, de muros altos e pintura gasta. Parecia abandonada, mas havia movimento. A curiosidade puxou-o para mais perto.Algumas senhoras limpavam o quintal, varriam folhas secas e conversavam entre si. Helder aproximou-se devagar, cauteloso, com o bebé bem preso contra o peito.— Bom dia — disse, num tom respeitoso.As mulheres interromperam o trabalho
O cemitério de Luanda estava silencioso demais para um dia tão quente. Helder Tex mantinha-se imóvel diante da sepultura recém-fechada. O fato preto colava-lhe ao corpo, mas o peso maior vinha do peito. Nos braços, o filho dormia, alheio ao fim do mundo que acabara de acontecer.— Ela não merecia isto… — murmurou um dos amigos.Helder não respondeu. Não chorava. O luto tinha-lhe roubado até as lágrimas.— Helder, nós voltamos hoje para os Estados Unidos — disse um homem de meia‑idade, pousando-lhe a mão no ombro. — Se precisares de alguma coisa…— Obrigado — respondeu ele, seco. — Vão em paz.Os amigos despediram-se um a um. Abraços rápidos. Olhares de pena. Palavras vazias. Quando o último carro se afastou, Helder ficou sozinho. Só ele, o filho e a terra vermelha que agora guardava a mulher que amara.— Somos só nós agora… — sussurrou ao bebé.No mesmo dia, decidiu partir para Malanje.A estrada era longa. O sol descia devagar. O carro avançava em silêncio, quebrado apenas pelo choro





Último capítulo