Mundo ficciónIniciar sesiónO almoço decorreu com a serenidade que só as grandes casas sabem ter. Aquelas mesas longas, imponentes, pareciam exigir silêncio. A comida, apesar de deliciosa, parecia um mero detalhe diante das interações que se desenrolavam ali. Giulietta fez alguns comentários sarcásticos sobre o arroz, mencionando que "não sabia que risoto poderia ter tantos tipos", o que, claro, era só mais uma tentativa de desviar o foco daquilo que realmente importava. Ela estava, como sempre, insatisfeita com tudo. Lorenzo, por outro lado, permaneceu em seu silêncio habitual, comendo de forma mecânica, sem dar sinais de interesse ou sequer de um simples gesto de simpatia.
Eu tentei manter a compostura, mas algo dentro de mim parecia se desgastar cada vez mais. A vida com as crianças na mansão Lombardi não estava sendo como eu esperava. Giulietta me testava constantemente, enquanto Lorenzo se fechava ainda mais. E Alessandro… bem, Alessandro era uma história à parte. Um enigma difícil de decifrar, sempre observando, mas nunca revelando nada de si.
Alessandro almoçou no escritório, acompanhado de seus irmãos, Matteo e Enzo. Eu sabia que ele gostava de ficar longe da sala de jantar, como se fosse mais um ritual de poder, algo que ele considerava necessário. Pelo menos dessa vez, ele não havia me pedido para acompanhá-los, o que, no fundo, me fez respirar aliviada. Eu não tinha mais paciência para os olhares intensos e perguntas sutis. Durante o almoço, eu fiquei mais focada em tentar estabelecer uma conexão com Lorenzo. Ele estava sentado na mesa, com os olhos fixos no prato, como se o resto do mundo não existisse.
Quando terminei de almoçar, fui até a sala de estar onde Lorenzo estava. Ele tinha aquele jeitinho de quem quer ser invisível, mas eu queria ao menos tentar. Pus alguns carrinhos de brinquedo sobre a mesa e comecei a brincar com ele, tentando fazer com que falasse, qualquer coisa. Mas ele estava tão absorto em seu próprio mundo que, por mais que eu tentasse, ele não parecia notar minha presença.
— Vieni, Lorenzo, gioca con me! (Vem, Lorenzo, j**a comigo!) — falei, tentando um tom de voz amigável e divertido.
Mas ele não levantou os olhos. Continuou brincando com os carrinhos de maneira mecânica, como se estivesse em transe. Eu continuei ali, fazendo piadinhas, esperando que algo se rompesse no silêncio. Mas não havia reação. "Perché non risponde?" (Por que ele não responde?), eu me perguntava internamente, mas sabia que ele não era de falar. Lorenzo era uma ilha, isolado em seu próprio universo.
Giulietta, por sua vez, estava sentada no sofá, mexendo no celular, totalmente alheia ao que se passava ao seu redor. A cada risada que ela dava, um riso de zombaria, eu sentia como se houvesse uma barreira que nunca seria rompida. Ela não se importava com nada ali, nem com a comida, nem com o jogo de Lorenzo. Estava mais preocupada em ver o que os outros estavam fazendo. Ela mal olhou para mim.
O ambiente estava tenso, e eu já me sentia um pouco exausta da situação. Quando o almoço terminou, os três homens da casa — Alessandro, Matteo e Enzo — saíram do escritório e entraram na sala de estar. Matteo cumprimentou as crianças com um simples aceno, enquanto Enzo se aproximou mais devagar. Ele parecia mais interessado em mim do que nas crianças.
Ele me encarava com intensidade, como se tentasse me decifrar com os olhos. Eu desconfortável, tentei não olhar diretamente para ele, mas não pude deixar de sentir o peso da sua atenção. Era estranho, desconcertante até. Alessandro, que vinha logo atrás de Matteo, também percebeu o olhar de Enzo. Ele fez uma pausa, virando-se para o irmão mais novo.
— Enzo, perché stai fissando così Isabella? (Enzo, por que você está encarando tanto a Isabella?) — A voz de Alessandro, apesar de calma, tinha um tom firme. Era claro que ele notava os detalhes mais sutis.
Enzo desviou o olhar para Alessandro e deu de ombros.
— Non lo so... Mi sembra che già l'abbiamo vista da qualche parte. (Não sei... Me parece que já vimos ela em algum lugar.)
A frase me pegou de surpresa. Eu o encarei, tentando manter a calma, sem saber o que responder.
— No, non credo. (Não, eu não acho.) — Eu disse, tentando disfarçar o desconforto que começava a crescer em mim. — Eu nunca te vi antes.
Enzo parecia não se importar muito com a resposta. Ele apenas deu de ombros novamente e, com um sorriso sutil, virou-se para se afastar.
Alessandro me lançou um olhar fixo, mais um daqueles olhares penetrantes, antes de dizer, como se fosse algo sem importância:
— Forse è solo perché il tuo viso è abbastanza comune. (Talvez seja só porque seu rosto é bastante comum.)
Eu forcei um sorriso e apenas disse:
— Sì, può essere... (Sim, pode ser...) — e voltei a brincar com Lorenzo, como se a conversa nunca tivesse acontecido. Mas o silêncio entre Alessandro e Enzo estava claro demais. Algo estava sendo dito ali, mas eu não sabia o que.
Os três se afastaram em direção à saída, e eu fiquei ali, com Lorenzo, tentando novamente fazer com que ele falasse, mas a resposta não veio.
O resto da tarde passou sem grandes surpresas. As crianças estavam em seus próprios mundos, e eu estava cada vez mais consciente de que havia muito mais naquela casa do que eu poderia entender. Meu trabalho como babá parecia cada vez mais uma parte de um jogo de poder e silêncio, um jogo que eu não sabia se estava preparada para jogar.
Quando a noite se aproximou, decidi ir para o meu apartamento em Bari, como fazia todas as noites. A viagem até lá era sempre um momento de alívio, embora temporário. Eu precisava de uma pausa, de um respiro. E, claro, de uma distração. Eu passei um tempo com o meu cão, Rex, o único ser vivo que nunca me desafiava. Ele me acompanhou durante o passeio pelo parque, correndo e brincando, e eu aproveitei o momento para pensar na conversa com Nicoletta, minha irmã. O celular tocou, e eu atendi assim que vi seu nome na tela.
— Ciao, Isabella! Come va? (Oi, Isabella! Como vai?) — A voz de Nicoletta, sempre calorosa, preencheu o espaço.
— Ciao, sorella. (Oi, irmã.) — Eu respondi, tentando esconder o cansaço da minha voz. — Tudo bem, mas... o trabalho está difícil. As crianças na mansão Lombardi são complicadas. E o Alessandro... ele é estranho, Nicoletta. Muito estranho.
Nicoletta riu baixinho, mas logo percebeu que eu não estava exatamente brincando.
— Com'è strano? (Como ele é estranho?) — Ela perguntou, interessada.
— Ele é... muito observador. Como se estivesse sempre me testando. E os filhos dele... Giulietta e Lorenzo? São difíceis de lidar. Giulietta é uma tempestade, e Lorenzo, bem, ele é mais silencioso que uma sombra. — Eu disse, tentando simplificar a complexidade da situação.
Nicoletta ficou quieta por um momento, como se estivesse ponderando algo.
— Sii, ma non è una cosa che non puoi gestire. (Sim, mas não é algo que você não pode lidar.) — Ela disse, encorajando-me. — Sei che puoi farcela.
— Sì... mi speriamo. (Sim... espero que sim.) — Eu suspirei.
Após a conversa com Nicoletta, continuei o meu caminho para o Rouge Velvet, o lugar onde eu realmente sentia que era alguém. Aquele mundo subterrâneo e iluminado por neon era o único lugar onde eu realmente sentia que tinha controle, onde podia deixar minha identidade ser quem eu quisesse que fosse.
A noite prometia ser difícil, como todas as outras. Mas eu estava pronta. Porque, no fim das contas, o Rouge Velvet era o único lugar onde eu podia ser eu mesma, sem máscara, sem disfarce. A vida como babá, a vida na mansão Lombardi, eram apenas papéis que eu jogava, máscaras que eu colocava. A verdadeira Isabella, a única pessoa que realmente existia, só podia ser vista à noite.







