Mundo de ficçãoIniciar sessãoLara acordou com a sensação incômoda de que algo estava fora do lugar. Ainda deitada, demorou alguns segundos para abrir os olhos, tentando entender por que o silêncio parecia mais pesado naquela manhã. O apartamento sempre fora pequeno, simples, mas nunca vazio daquele jeito. Havia um tipo específico de ausência que não vinha da solidão comum, mas da interrupção de algo recente.
Ela se sentou na cama e olhou para a sala. O sofá estava vazio. A manta dobrada de maneira torta, o travesseiro deslocado e o copo de água esquecido sobre a mesa confirmavam que a noite anterior não fora um sonho. O estranho que ela ajudara, ferido e desacordado, não estava mais ali. Lara ficou alguns segundos parada, observando os detalhes, como se isso pudesse lhe dizer para onde ele tinha ido ou se ainda estava bem. Uma parte dela sentiu alívio. Outra, um incômodo silencioso. Ele mal conseguira ficar em pé quando acordara de madrugada. Andava devagar, apoiando-se nos móveis, com o rosto marcado por dor e exaustão. Não explicara nada. Apenas agradecera com os olhos antes de sair, como se palavras não fossem suficientes ou seguras. — Espero que você fique bem — murmurou Lara para o apartamento vazio. Ela sabia que não teria respostas. A vida raramente oferecia fechamentos perfeitos. Algumas pessoas entravam e saíam sem deixar nomes, apenas lembranças vagas. O dia não esperava. Lara tomou um banho rápido, deixou a água quente cair sobre os ombros e tentou afastar o cansaço que parecia permanente. Vestiu-se com roupas simples e prendeu o cabelo de qualquer jeito. No quarto, sobre a pequena escrivaninha, livros antigos de biologia e anatomia estavam empilhados com cuidado. Eram usados, riscados, cheios de anotações nas margens. Mesmo assim, eram preciosos. Ela passou os dedos por uma das capas. Medicina. Era ali que morava o sonho. Não no palco iluminado da boate, nem nos olhares que a despiram sem permissão, mas nos hospitais, nos corredores silenciosos, na possibilidade de aliviar dores reais. Lara queria entender o corpo humano, aprender, salvar quando fosse possível. Mas sonhos exigiam dinheiro. E tempo. Ela ainda não tinha nenhum dos dois. O dia seguiu comum. Pequenos trabalhos, tarefas automáticas, pensamentos que iam e vinham sem se fixar. Quando o céu começou a escurecer, Lara sentiu o peso familiar da noite se aproximando. Vestiu-se com calma, como se cada gesto fosse uma transição entre duas versões de si mesma. A fachada da boate brilhava em néon, prometendo excessos e esquecimentos rápidos. Lara respirou fundo antes de entrar, separando o mundo lá fora do papel que precisava desempenhar ali dentro. Nos bastidores, trocou de roupa em silêncio. O figurino fazia parte do trabalho, não da identidade. Diante do espelho iluminado, ajustou a postura e encarou o próprio reflexo. Não havia vergonha, nem orgulho. Apenas aceitação temporária. — É só mais uma noite — sussurrou. Quando subiu ao palco, a reação foi imediata. As conversas diminuíram, os olhares se voltaram, a música pareceu ganhar outra intensidade. Lara dançava com controle e precisão. Cada movimento era calculado, firme, carregado de uma confiança que não pedia aprovação. Ela não implorava atenção. Ela a comandava. Os homens reagiam como sempre. Alguns gritavam seu nome, outros apenas observavam, imóveis, como se o mundo tivesse se reduzido àquela dança. Notas de dinheiro surgiam, promessas também. Fortuna, viagens, conforto. Atalhos disfarçados de gentileza. Durante a noite, vieram as propostas. — Uma noite comigo e você não precisa mais trabalhar — disse um homem de terno caro, a voz segura demais. Lara sorriu, educada. — Não, obrigada. Ele insistiu, como quase todos. — Todo mundo tem um preço. O sorriso dela permaneceu, mas os olhos endureceram. — Eu tenho um sonho. Ela se afastou antes que ele pudesse responder. Outros vieram depois. Sempre vinham. Ofereciam segurança, status, uma vida aparentemente fácil. Para muitos, aquilo parecia sorte. Para Lara, era uma prisão dourada. Ela sabia exatamente o que perderia se aceitasse. Não era moralidade. Era identidade. Cruzar aquela linha significaria desistir de si mesma, e isso custaria mais caro do que qualquer quantia oferecida. No intervalo, sentada sozinha no camarim, Lara deixou os pensamentos vagarem. Pensou no estranho do sofá, no olhar cansado, na fragilidade escondida. Pensou em quantas histórias passavam pela boate todas as noites, quantas dores mascaradas de luxo, quantas pessoas tentando comprar o que não conseguiam sentir. Pensou em si. No futuro que parecia distante, mas ainda possível. Nos livros guardados, no sonho teimoso que insistia em sobreviver apesar de tudo. A música voltou a tocar. Era hora de retornar ao palco. Lara se levantou, respirou fundo e caminhou de volta para a luz. Dançou mais uma vez, inteira, consciente de cada passo, cada escolha. Porque, mesmo cercada por luzes que não curavam e promessas que não sustentavam, ela sabia quem era. A boate não era o destino final. Era apenas o caminho que precisava atravessar. E enquanto o sonho ainda estivesse vivo dentro dela, Lara continuaria seguindo em frente, resistindo, dançando apenas o necessário, até o dia em que pudesse trocar aquelas luzes artificiais por um lugar onde suas mãos realmente pudessem curar.






