Mundo ficciónIniciar sesiónCeline nunca imaginou que, para fugir de um casamento arranjado, precisaria atravessar a estrada mais perigosa do reino — onde nenhum humano passa impune. Para sobreviver, ela compra Zaryn, o lobo dominado mais forte e temido que ela encontrou. O acordo era simples: ele a protegeria até o outro lado, e ela lhe devolveria a liberdade. Mas nenhum deles esperava que o destino os entrelaçaria de formas tão profundas. Entre perseguições, batalhas sangrentas e segredos enterrados, Celine e Zaryn descobrirão que a verdadeira prisão não são as correntes no corpo e sim, as amarras do coração. Será que uma promessa feita no início da jornada sobreviverá quando desejo, lealdade e destino começarem a colidir? Prepare-se para uma história intensa, onde amor e liberdade são as armas mais perigosas.
Leer másSenti o sangue escorrer pela minha bochecha. Havia acabado de ser atacada por um dominado. Não podia julgá-lo. A vida de um lobo escravizado era injusta e difícil, para dizer o mínimo.
Vi o sorriso sádico se formar em seus lábios. É claro que ele pegou leve. Só tentou me assustar.
— Vou levá-lo mesmo assim — confirmei, passando a mão no meu rosto e provando a ardência do corte.
O dono da loja estendeu a mão em minha direção, oferecendo um pano.
— Ele deveria ser grato! — exclamou o senhor proprietário. — Eu poderia devolvê-lo à antiga dona… — O senhor começou a pentear a barba com as mãos, andando calmamente pela loja — Caso ele não se comporte, farei isso.
Pude jurar que vi os olhos do jovem lobo se arregalarem um pouco. Mudando completamente de feição, ele me encarou e disse:
— Estou pronto para ir.
O senhor se espantou, garantindo que era a primeira vez que ele demonstrava querer ser vendido.
— Se eu soubesse que uma ameaça e uma compradora bonita teriam esse efeito, teria providenciado esse combo antes — concluiu o velho entre gargalhadas roucas.
Apontando com o queixo, o funcionário da loja pediu para sairmos. Confesso que, para mim, foi um alívio deixar aquele ambiente terrível. Ver pequenos animais presos em gaiolas e quatro jovens acorrentados pelos cantos não era nada agradável. Além disso, o cheiro de suor, especiarias e álcool estava me deixando enjoada. A única coisa boa do ambiente eram as luzes do telhado sofrido. Os pequenos feixes luminosos iluminavam a pele marrom-clara do jovem lobo. Meu coração pesou quando observei que o dominado que havia acabado de comprar estava sendo puxado violentamente.
Foi entregue em minhas mãos a corrente que prendia o homem e uma caixa.
— A parte do corpo do infeliz está aí dentro. Cuide disso como cuida da sua vida, ou vai perder todo o investimento, e quem sabe até a cabeça. A posse de uma parte do corpo deles é o cadeado da alma desses amaldiçoados. Tome cuidado, esse dominado é o mais forte que já vi. Te mata em um piscar de olhos.
Assenti sem saber direito o que fazer com uma caixa com uma parte humana dentro.
— Qual parte foi arrancada? — perguntei sem pensar, e ouvi risadas abafadas logo em seguida.
— Você não vai querer saber — respondeu o jovem lobo com um sorriso malicioso.
— Ou talvez queira e até goste — sussurrou um funcionário.
— Tem sádica para tudo — comentou outro.
As risadas abafadas ao meu redor se tornaram altas gargalhadas.
Assim que entendi o que estavam querendo dizer, senti minha bochecha queimar. Girei um pouco a caixa, analisando-a. Estava na dúvida se aquilo era brincadeira ou não.
— Mas… coube numa caixa tão pequena? — questionei e me arrependi na mesma hora.
O sorriso do dominado se desfez no mesmo instante. Todos riram ainda mais, e não pude evitar engolir um sorriso também.
— Chega de gracinha — disse um funcionário ranzinza que tomou a corrente da minha mão. — Vou te levar até a estrada.
Seguimos caminhando até meu carro. Por um momento, me preocupei com a reação do dominado em seguir viagem em uma minivan que irradiava lumithium — pedra responsável por toda geração de energia — rosa, e ainda dividir espaço com meus ingredientes de cozinha espalhados pelo veículo.
Porém, a única coisa que ele fez foi passar os dedos sobre a pintura cobre, analisando as nuances onduladas da lataria. Não era um carro moderno. Foi desenhado por um artista há anos, herança de minha mãe.
— Antes de te entregar ele, entre no carro e coloque o cadeado em um lugar do seu corpo que seja de fácil acesso, ou você vira sopa ainda essa noite — sussurrou o funcionário.
Entrei na van, ainda meio incerta de como guardaria aquilo, porém, logo lembrei de uma joia que minha mãe me deu. Ela possuía uma pequena bolsa com alça. Abri a caixa, com medo do que tinha dentro. Era um… dedo, mais especificamente o mindinho do pé. Tão pequeno que parecia de criança. Era de criança. Ele foi escravizado desde cedo. Engoli em seco. Não queria estar fazendo aquilo, mas não tinha outra saída.
— É temporário. É temporário — afirmei, tentando me consolar.
Peguei o dedo, não consegui evitar me sentir meio enojada. Ele parecia quase de madeira, preservado por magia, coloquei dentro do saquinho e pendurei no pescoço; em seguida, passei para dentro do vestido.
Ao sair, observei aqueles olhos cor de mel, tão claros que pareciam amarelos, me encarando.
O funcionário me entregou a corrente, foi embora e, assim que ele partiu, joguei tudo no chão.
— Preciso de você livre. Bom, quase livre.
Ele me encarou sem dizer nada. Tirei a chave do bolso do vestido e abri o cadeado que segurava as correntes das mãos. Estendi a mão com a chave para ele soltar o resto. Não pareceu ser uma boa ideia me abaixar para ajudá-lo e ficar ainda mais vulnerável.
— Você sabe que há uma grande chance de eu conseguir te matar antes que você use o cadeado para me punir, não é? — questionou enquanto tirava as correntes do tornozelo.
— Você consegue ser tão rápido assim? — perguntei, tentando disfarçar o nervosismo.
Quanto mais ele se soltava, mais sentia minhas pernas tremerem. Era difícil controlar.
— Hum… Então você guardou numa área muito fácil e rápida de pegar, não é? Pelo visto, resolveu seguir o conselho daquele imbecil.
Merda. Fechei os punhos para evitar demonstrar minhas mãos trêmulas. Ele continuou:
— Algumas pessoas acham mais seguro esconder e usar alguma chantagem criativa como garantia.
— Escute. Não preciso ser criativa com você. Vou direto ao ponto. Se você me ajudar, eu te liberto. Não tenho interesse em te manter comigo.
Ele sorriu com escárnio.
— Você acha que nunca escutei essa conversa? O poder vicia, princesinha.
Ele abriu a porta do carro e entrou, sem demonstrar interesse algum pela minha proposta. Decidi deixar para outro momento. Imaginei que ele estava cansado, então resolvi ir para uma hospedagem.
Ao entrar na primeira que vi na estrada, deparei-me com música alta, muitos bêbados no bar e olhares estranhos na direção dele. Precisava providenciar roupas, eram aqueles trapos velhos que chamavam atenção.
— Só há um problema, querida, o último quarto só tem uma cama — disse a moça da recepção.
Saímos da festa, deixando para trás o som alto e a comemoração. Confesso que meu coração se tornou uma âncora quando me despedi de Kai e só vi pena em seus olhos, tão azuis quanto a maré baixa de Ravaryn.Arkos me puxou pela mão, arrastando-me pelos jardins como um cordeiro pronto para o abate. Dois guardas nos escoltaram até os aposentos reais. Apesar de seu toque ser macio, devido a nunca precisar fazer esforço algum, a mão suada do rei intensificou minha náusea. Ele me olhava como um objeto conquistado graças à sua posição. Cada passo que eu dava me aproximava da minha ruína. Senti minha alma rachar mais um pouco quando os guardas abriram a pomposa porta, detalhada em ouro e cravejada de rubis, do quarto real.Reconheci os rostos. Eles estavam entre os que prenderam Kieran. Um deles havia respondido minha pergunta, e o outro levado uma cotovelada em repreensão. Ambos me lançaram um olhar misericordioso. Tive que engolir a ânsia, antes que o bolinho de chumbo decorasse o chão do qua
A pergunta de Oen rondava minha mente como um obsessor assombrando seu algoz. Nunca havia matado ninguém antes, e, uma coisa seria fazer isso para me defender, outra seria planejar friamente o assassinato de alguém, por mais que esse alguém não valesse nada. Não consegui responder Oen, gaguejei e não formei uma resposta digna. Fazendo-o olhar para minha avó e para Nymeria com decepção. Ao chegarmos ao quarto, a conversa se estendeu, e o tópico rendeu um longo debate sobre a tirania do rei. Quase não falei nada, era difícil não pensar em Zaryn. Como eu não pensaria no primeiro beijo consentido da minha vida?E em como foi perfeito.— O rei já está para morrer mesmo — disse Kai, deitado no sofá, enrolado na manta vermelha que Nymeria trouxe para ele. Confesso que fiquei feliz ao ouvir a voz do menino, por mais que não gostasse da ideia dele estar se arriscando para ficar comigo. — Você estaria fazendo um favor ao mundo mandando aquele desgraçado para o inferno. Arkos só pensa no próprio
— Tentar melhorar a vida das pessoas? Sim, é isso que quero.— Você ao menos tem um plano? Sabe exatamente o que vai fazer?Fechei os punhos. Não tinha um bom plano ainda. Senti-me mais patética e insegura do que de costume.— Estou trabalhando nisso… mas pretendo fazer ajustes econômicos que viabilizem a liberdade. Vai ser mexendo no bolso dos nobres que essa realidade vai mudar — ele ergueu uma sobrancelha e continuou me encarando, como se esperasse mais. — Andei estudando, consegui até o balanço econômico de Ravaryn, que não foi nada fácil para Nymeria, mas, enfim, a economia escravagista está em crise, porém pouco se fala nisso para não afetar o reinado de Arkos. Existem cada vez menos vilarejos inexplorados de lobos. As fadas já sumiram, de feiticeiras só restam minha avó e eu… A escassez de lobos está fazendo o preço disparar. Além disso… — respirei fundo antes de continuar. — Os lobos têm parado de ter filhos. Nas grandes fazendas, eles estão sendo obrigados, mas mesmo assim nã
Certa vez, Niam e eu brincávamos no bosque. Meu avô sempre me proibiu de ir lá, mas eu não me importava. Sentia-me destemida ao lado dele, parecia que tudo era possível, e que o mundo era só nosso. Subimos numa árvore, a mais alta que encontramos. Ao chegar ao topo, dividi com ele o bolinho restante do lanche. Após um bom tempo conversando, reuni coragem para perguntar a Niam:— De onde você é? E onde estão seus pais?Niam ficou estranho, evitando contato visual e se remexendo na árvore, como se buscasse uma posição que trouxesse o conforto que minha pergunta roubou; logo me arrependi de perguntar. Para ter virado um servo da fazenda do meu avô, boa coisa não deve ter acontecido. Niam e vários outros servos eram responsáveis pela colheita e cuidado com os animais. Eles não tinham acesso à casa principal, pois não eram servos domésticos. Imaginava que a vida dele devia ser ainda mais difícil do que lidar com o mau-humor da minha mãe e com as panelas na cozinha.Ele puxou um colar. Era
Último capítulo