Mundo de ficçãoIniciar sessãoA entrada da estrada parecia os próprios portões do inferno. Duas árvores, uma de cada lado, marcavam o início de uma floresta sem fim. A estrada se perdia entre a vegetação e a escuridão.
— Isso está pior do que da última vez que passei — disse Zaryn, com sua habitual indiferença.
— Quantas vezes você já fez isso?
— Umas quatro.
A resposta dele me deu um certo alívio. Se ele conseguiu tantas vezes, e eu estava com ele, tinha grande chance de dar tudo certo. No entanto, após alguns segundos enquanto encarava a paisagem desoladora sem demonstrar nenhuma emoção, ele continuou:
— Mas, sozinho, é a primeira vez.
Ótimo, era tudo que precisava ouvir.
— Você não está sozinho — comentei para aliviar a tensão. Ele riu com escárnio e me olhou de cima a baixo.
— Praticamente.
— O que tem, de verdade, de tão ruim aí? — questionei.
— Ladrões e lobos famintos. O resto é lenda.
Senti meu coração dar uma pirueta.
— Você se dá bem com eles, não é? Afinal, são iguais a você.
Ele respirou fundo antes de responder.
— Você se dá bem com todos os humanos puros? Conhece todos eles como se fossem uma grande família?
Senti-me uma idiota naquele momento. Fiz o que todo mundo fazia, tratá-los como animais, ou até pior que isso.
Olhei para baixo, com vergonha da minha tolice.
— Você tem razão. Desculpe — após alguns instantes de silêncio constrangedor, ousei perguntar: — Mas eles tentam te devorar também?
— Depende do nível de consciência que estão, como eles vivem aí há muito tempo, alguns enlouquecem e esquecem até quem são, ou seja, não se importam se sou um lobo também ou não. Outros só querem arrumar briga, e o resto apenas ignora a existência de quem está de passagem. Não tem como saber com quem vamos lidar.
— Esse lugar parece uma amostra gratuita do inferno — comentei — Por que alguns lobos se refugiam aí?
— Ser um lobo é só ter o inferno como opção. Ou você vive livre… em meio a escuridão, ou vive acorrentado sob a luz do sol.
Apesar de ainda ter muitas dúvidas, preferi não fazer mais perguntas, optei por tentar me acalmar.
O dia já estava se despedindo. Por alguma razão, não queria entrar ali naquele momento. Talvez só estivesse evitando o inevitável.
— Tenho um tempo, podemos atravessar amanhã bem cedo.
Zaryn não contestou como pensei que faria, talvez ele quisesse descansar mais.
Dirigi mais 20 minutos por uma estrada de terra. A poeira levantada fez meus olhos lacrimejarem. Ao chegar em um pequeno vilarejo, observei a precariedade do local. As casas eram feitas de madeira, mas já estavam desgastadas e descascando. A Iluminação era escassa. Havia poucos postes com limithium amarelo pelo local. Em busca de um lugar para passar a noite, encontramos apenas duas opções, que estavam lotadas. Ao sair da última pensão da vila, ouvi um barulho na rua, como se fosse alguma espécie de feira. Zaryn e eu caminhamos em direção à gritaria. Não pude evitar notar minhas botas afundando em algumas poças de lama pelo caminho.
A algazarra tinha um motivo simples: estavam vendendo crianças dominadas.
Sempre odiei essas feiras. Quando era pequena, saía correndo assim que via uma.Mas dessa vez… eu congelei.Fiquei paralisada ao ver um senhor esbofetear um garoto que estava em cima de um barril.O menino, que se recusava a mostrar os dentes para a plateia curiosa, caiu entre gaiolas e caixas.Sem pensar, corri até ele. Ajoelhei ao seu lado e o ajudei a se levantar. Quando levantei o olhar, Zaryn já me observava, e seu olhar era de reprovação.— Não pode tocar na mercadoria — esbravejou o velho cruel.
— Vou levá-lo, quanto custa? — perguntei.
O proprietário me olhou com desconfiança. Em seguida, encarou Zaryn, como se tentasse descobrir se ele era um dominado também. A olho nu, era difícil distinguir. Zaryn chamava atenção pela beleza, mas era um homem como outro qualquer; alto, um pouco mais forte que a média, mas nada fora do comum, no entanto, tinha uma aparência que deixava clara sua decência. Porém, o que entregava eram seus olhos. Todos os lobos possuem olhos muito claros, e alguns de cores que não tem como disfarçar, como os de Zaryn. Dizem que muito humanos puros — odeio essa expressão — foram mortos no passado, por serem confundidos. Antes da tecnologia derivada do limithium ser descoberta, era difícil distingui-los com exatidão.
— Não quero vender para você! — disse o senhor.
Não entendi direito o motivo, era óbvio que eu não era uma dominada. Meus olhos eram mais escuros que uma noite sem luar, mas, talvez, ele tenha se intimidado com a presença de Zaryn.
— 2 mil marvros! Façam seu lance! — gritou o velho para a plateia, enquanto eu ajudava o menino a subir no barril novamente.
— Pago 4! — gritei.
Torci para ele aceitar, era o máximo que podia pagar. Zaryn tinha sido muito caro para os meus cofres.
O velho enrolou o bigode, ponderando minha oferta.
— Aceito com uma condição — acenei com a cabeça para que ele prosseguisse. — Quero esse daí emprestado por alguns dias — concluiu apontando para Zaryn.
Não iria emprestar Zaryn como se fosse uma panela usada, e mesmo que ele quisesse, não tinha esse tempo.
— Está fora de cogitação — afirmei.
O velho sorriu, com escárnio e puxou o menino, fazendo-o quase cair.
— Negócio encerrado, então — disse olhando fixamente em meus olhos — Vá para gaiola, aberração — ordenou ao menino sem o encarar.
Zaryn segurou meu braço e sussurrou em meu ouvido:
— Vamos. Não dá para comprar esse.
Ir embora era a opção mais sensata.
Fechar os olhos — como sempre fiz — diante da ferida aberta que o mundo insiste em ignorar, parecia o mais viável naquele momento.Mas, ao encarar os olhos azuis quase prateados do menino, senti um pedido silencioso de socorro. E não consegui ignorar.Num impulso, puxei a faca do coldre preso à coxa de Zaryn — ele ainda a carregava desde o incidente no bar. Sem pensar duas vezes, cravei a lâmina na mão do velho que estava em cima do barril.Ele gritou, fazendo a multidão se agitar.Segurei o menino pela mão e disparei em direção ao carro.Zaryn veio logo atrás, com o maxilar travado e a expressão séria.Quatro homens começaram a nos seguir.— Ótima ideia nos matar antes mesmo de chegarmos na travessia! — resmungou Zaryn.Uma flecha passou zunindo em minha direção, mas Zaryn me empurrou a tempo.
Cambaleei, quase caí, mas o menino me segurou.Apesar do tamanho, ele corria rápido.Assim que deixamos o vilarejo para trás, Zaryn perguntou: — Quer que eu dê um jeito neles? — Seria ótimo — respondi ofegante. Não era nada fácil falar e correr ao mesmo tempo.— Então dê a ordem!— Quê!?— Você é minha dona, não é? Quer que eu faça as coisas do seu jeito, não quer? Então dê a ordem.Revirei os olhos. Ele só podia estar me punindo por reclamar do modo dele de fazer as coisas.Minhas pernas já queimavam como fogo, não aguentaria muito mais tempo.— Tente não os matar — afirmei.— Não é assim que se dá uma ordem — disse o menino me olhando com estranheza.Minhas pernas começaram a falhar, mas as dos homens que nos perseguiam não. — Acabe com eles sem os matar! — gritei. — Rápido!Ele não pareceu convencido, mas parou de correr enquanto Kai e eu seguimos em direção ao carro.
Não tive tempo de olhar o que ele faria com os capangas.Entrei no veículo e o aguardei com o coração aos pulos. O garoto me encarou ofegante, enquanto eu respirava fundo com as duas mãos em cima do coração, buscando me acalmar.Felizmente, Zaryn voltou três minutos depois. Preferi não perguntar o que aconteceu.— Você está bem? — perguntei ao menino. Antes que ele pudesse responder, emendei:— Qual seu nome?— É… Estou. Meu nome é Kai — respondeu, inexpressivo.Observei seus cabelos loiros, mais claros que os meus. Alguns fios pareciam até brancos. Não consegui evitar pensar: “eu deveria tentar tingir dessa cor da próxima vez”. Ele estava coberto de lama e vestia trapos, assim como Zaryn, no dia em que o comprei.
Ia perguntar se ele estava com fome, mas ele se adiantou:— Não espere que eu seja grato a uma humana pura.






