Um flashback inesperado

A adrenalina da madrugada não me deixou pregar os olhos. Quando levantei, Zaryn já estava acordado, encarando o teto. Reparei que ele dormiu apenas com o colete que dei, sem usar a túnica por baixo, muito menos o lençol. Foi inevitável observar os músculos aparentes. Não era nada exagerado, mas era o suficiente para chamar atenção.

Ele me lançou um olhar cético, levantando uma sobrancelha; aquela cara só dizia uma coisa: “tá olhando o quê, enxerida?”

— Como você não congelou essa noite?

— Não tenho problema com o frio — respondeu ríspido.

Não falei mais nada. Decidi que, a partir dali, ia me esforçar ainda mais para não aborrecer meu guarda-costas temporário. Não tinha mais tempo para arranjar outro. Precisava mais de Zaryn do que ele imaginava.

Ele vestiu o sobretudo preto que lhe dei, e saiu do quarto em silêncio. Passei um tempo arrumando o cômodo e as minhas coisas. Enquanto me trocava, ouvi a porta abrir, e em um salto, cobri os seios com o primeiro pano que vi a frente, só depois reparei que era meu vestido. Por sorte já estava vestida com uma saia, pelo menos. Zaryn me olhou como se não entendesse minha reação.

— Precisa de alguma ajuda? Está demorando.

Era a primeira vez que ele falava sem rispidez, ainda soava gélido e indiferente, mas já era um avanço. Me repreendi por reparar aquilo. Parecia uma idiota observando detalhes irrelevantes.

— Você não vai sair? Estou me trocando! — falei mais brava do que deveria.

— Você se importa com isso? 

Fiz uma careta e um gesto com as mãos o mandando sair. Evitei falar, porque minha vontade era gritar. Ele saiu sem entender a situação direito, e para ser sincera, eu também não compreendi nada. 

No carro, não consegui evitar a pergunta:

— Você acha normal invadir o quarto de uma mulher enquanto ela se troca?

— Minhas antigas donas não tinham pudores comigo. Me viam como um ser inferior, abaixo de um pet na hierarquia da casa, não como um homem a quem se deve temer ou ter vergonha. Me desculpe por supor que você seria igual.

Fiquei sem palavras. Esperava qualquer coisa, menos aquela resposta, e menos ainda um pedido de desculpas. Após ponderar alguns segundos, falei:

— Tudo bem, depois de uma justificativa dessas, não tem como ficar brava.

O silêncio reinou durante duas horas de viagem. A sensação de estar com ele era reconfortante e sufocante ao mesmo tempo.

— Por que você quer ganhar a competição de confeitaria? Quer trabalhar no palácio? — perguntou, quebrando o silêncio.  

Olhar para a estrada por horas sempre me causava um tédio mortal, então confesso que gostei de ouvir aquela voz grave, já estava me afogando naquele mar gélido de quietude.

— Falei que queria participar…

— Ninguém entra em uma competição sem esperança de vencer, mesmo que seja pequena.

Respirei fundo, tamborilando os dedos no volante frio, ponderando se contava ou não, por fim, acabei falando:

— Quero ganhar pelo prêmio. Vou usar a chama azul para achar uma pessoa que conheci na infância e nunca mais encontrei.

Ele deu uma risada maldosa.

— Não acredito que você pagou 20 mil mavros em mim para achar um flerte de infância.

Em frações de segundo, um filme passou pela minha cabeça. Lembrei das mãos pequenas que um dia me puxaram do rio onde eu me afogava.

Certo dia, depois de muita insistência, pedi a uma serva feiticeira que usasse o dom da visão comigo. Prometi a ela que jamais contaria a ninguém o que estávamos fazendo. Segundo suas palavras, meu destino era viver como uma prisioneira, assim como ela. A diferença é que a minha gaiola seria de cristal, enquanto a dela não passava de ferrugens. A menos que um dia eu cantasse afinada o suficiente para fazer minha prisão explodir, continuaria nela para sempre.

Assim que a serva terminou de falar, ouvimos passos pesados se aproximarem. A serva segurava minhas mãos com delicadeza, mas, ao ouvi-lo chegando perto, apertou meus dedos com força. Ele nos encontrou sentadas no chão, escondidas atrás do balcão da cozinha.

— Não acredito que está de bruxaria dentro da minha casa, sem a minha permissão! —  gritou vovô.

Depois disso, a serva apanhou. Por minha culpa, ela ficou de cama por dias. A tristeza pelo meu destino e pelo meu egoísmo me corroeu. Afinal, que valor tinha viver uma vida como aquela? Sempre vista como um erro, fruto da indecência de minha mãe, e destinada a ser esposa de um homem desprezível. Por que viver em um mundo cruel onde até mesmo meu avô via outros seres humanos como inferior?

A primeira ideia que me ocorreu foi me jogar no rio. Queria por um fim em tudo, naquela dor, naquela tristeza, na solidão… Aquela parecia ser a forma menos difícil para uma criança. Além disso, ninguém seria punido por me afogar, seria apenas uma fatalidade. Porém, não contava com o arrependimento que viria assim que a dor e a agonia começaram a me consumir enquanto me debatia na água gelada. O abraço frio da morte não parecia nada acolhedor, e de repente, viver sozinha não pareceu tão ruim assim. Tentei subir, mas estava cansada demais e nunca soube nadar direito.

Foi então que aquele olhar gentil me encontrou pela primeira vez: olhos castanhos escuros, cabelos negros, pele marrom clara. Uma imagem que jamais esqueci. Ele me salvou. Mesmo com dificuldades, o garoto me puxou até a margem. Reparei seu peito, subindo e descendo com rapidez, enquanto observava as vestes esfarrapadas. Ele vestia uma camisa de linho bege velha, e uma calça de sarja marrom rasgada nos joelhos. Demorei alguns segundos antes de olhar para seu rosto. A vergonha me consumia, fazendo-me observar até a área fina sob meus dedos, e atrás de mim, encarei a água turva do rio que quase me engoliu.

Após recuperar totalmente o fôlego, criei coragem para encarar a face do garoto, que logo me repreendeu.

— A vida não é justa, mas não cabe a nós escolhermos a hora dela acabar. Tenho certeza que há uma maneira de você continuar vivendo — ele afirmou como se me conhecesse há anos.

— Não há. Sou uma prisioneira — falei, deixando as lágrimas rolarem e se misturarem com as águas do rio em meu rosto. Ele sorriu em resposta.

— De prisão eu entendo. Confie em mim, você vai arranjar um jeito de fugir e ter uma existência suportável — insistiu, tirando meus cabelos encharcados dos olhos. — Quando tiver vontade de fazer isso outra vez, lembre-se que você vai morrer de qualquer jeito, é só esperar o dia chegar naturalmente. Funciona comigo.

Lembro-me até de engolir o choro e dar um sorrisinho com o conselho trágico.

— Está rindo — comentou. — É um bom sinal.

Num rompante, o abracei. Lembro que fiquei feliz por não me sentir sozinha pela primeira vez em muito tempo. 

Desse dia em diante, nos encontramos inúmeras vezes naquele local, durante um ano e meio, até Niam desaparecer.

Ele não era só uma paixonite de criança, Niam foi o melhor amigo que tive em toda minha vida.

Pisquei com força, voltando a realidade. Após isso, não conseguir deixar de perguntar:

— Você é sempre grosso assim?

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