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O lobo que roubei do destino
O lobo que roubei do destino
Por: Isadora Sousa
Uma burlada em meus princípios

Senti o sangue escorrer pela minha bochecha. Havia acabado de ser atacada por um dominado. Não podia julgá-lo. A vida de um lobo escravizado era injusta e difícil, para dizer o mínimo.

Vi o sorriso sádico se formar em seus lábios. É claro que ele pegou leve. Só tentou me assustar.

— Vou levá-lo mesmo assim — confirmei, passando a mão no meu rosto e provando a ardência do corte.

O dono da loja estendeu a mão em minha direção, oferencendo um pano.

— Ele deveria ser grato! — exclamou o senhor proprietário. — Eu poderia devolvê-lo a antiga dona… — O senhor começou a pentear a barba com as mãos, andando calmamente pela loja — Caso ele não se comporte, farei isso.

Pude jurar que vi os olhos do jovem lobo se arregalarem um pouco. Mudando completamente de feição, ele me encarou e disse:

— Estou pronto para ir.

O senhor se espantou, garantindo que era a primeira vez que ele demonstrava querer ser vendido.

— Se eu soubesse que uma ameaça e uma compradora bonita teria esse efeito, teria providenciado esse combo antes — concluiu o velho entre gargalhadas roucas.

Apontando com o queixo, o funcionário da loja pediu para sairmos. Confesso que para mim foi um alívio deixar aquele ambiente terrível. Ver pequenos animais presos em gaiolas, e quatro jovens acorrentados pelos cantos não era nada agradável. Além disso, o cheiro de suor, especiarias e álcool estava me deixando enjoada. A única coisa boa do ambiente eram as luzes do telhado sofrido. Os pequenos feixes luminosos iluminavam a pele marrom clara do jovem lobo. Meu coração pesou quando observei que o dominado que havia acabado de comprar, estava sendo puxado violentamente.

Foi entregue em minhas mãos, a corrente que prendia o homem, e uma caixa.

— A parte do corpo do infeliz está aí dentro. Cuide disso como cuida da sua vida, ou vai perder todo o investimento, e quem sabe até a cabeça. A posse de uma parte do corpo deles é o cadeado da alma desses amaldiçoados. Tome cuidado, esse dominado é o mais forte que já vi. Te mata em um piscar de olhos.

Assenti sem saber direito o que fazer com uma caixa com uma parte humana dentro. 

— Qual parte foi arrancada? — perguntei sem pensar, e ouvi risadas abafadas logo em seguida.

— Você não vai querer saber — respondeu o jovem lobo com um sorriso malicioso.

— Ou talvez queira e até goste — sussurrou um funcionário.

— Tem sádica para tudo — comentou outro.

As risadas abafadas ao meu redor se tornaram altas gargalhadas.

Assim que entendi o que estavam querendo dizer, senti minha bochecha queimar. Girei um pouco a caixa, analisando-a. Estava na dúvida se aquilo era brincadeira ou não.

— Mas… coube numa caixa tão pequena? — questionei e me arrependi na mesma hora.

O sorriso do dominado se desfez no mesmo instante. Todos riram ainda mais, e não pude evitar engolir um sorriso também.

— Chega de gracinha — disse um funcionário ranzinza que tomou a corrente da minha mão. — Vou te levar até a estrada.

Seguimos caminhando até meu carro. Por um momento me preocupei com a reação do dominado em seguir viagem em uma minivan que irradiava lumithium — pedra responsável por toda geração de energia — rosa, e ainda dividir espaço com meus ingredientes de cozinha espalhados pelo veículo.

Porém, a única coisa que ele fez, foi passar os dedos sobre a pintura cobre, analisando as nuances onduladas da lataria. Não era um carro moderno. Foi desenhado por um artista há anos, herança de minha mãe. 

— Antes de te entregar ele, entre no carro e coloque o cadeado em um lugar do seu corpo que seja de fácil acesso, ou você vira sopa ainda essa noite — sussurrou o funcionário.

Entrei na van, ainda meio incerta de como guardaria aquilo, porém, logo lembrei de uma joia que minha mãe me deu. Ela possuía uma pequena bolsa com alça. Abri a caixa, com medo do que tinha dentro. Era um… dedo, mais especificamente o mindinho do pé. Tão pequeno que parecia de criança. Era de criança. Ele foi escravizado desde cedo. Engoli em seco. Não queria estar fazendo aquilo, mas não tinha outra saída.

— É temporário. É temporário — afirmei, tentando me consolar.

Peguei o dedo, não consegui evitar me sentir meio enojada. Ele parecia quase de madeira, preservado por magia, coloquei dentro do saquinho e pendurei no pescoço; em seguida passei para dentro do vestido.

Ao sair, observei aqueles olhos cor de mel, tão claros que pareciam amarelos, me encarando.

O funcionário me entregou a corrente, foi embora e, assim que ele partiu, joguei tudo no chão.

— Preciso de você livre. Bom, quase livre.

Ele me encarou sem dizer nada. Tirei a chave do bolso do vestido e abri o cadeado que segurava as correntes das mãos. Estendi a mão com a chave para ele soltar o resto. Não pareceu ser uma boa ideia me abaixar para ajudá-lo e ficar ainda mais vulnerável.

— Você sabe que há uma grande chance de eu conseguir te matar antes que você use o cadeado para me punir, não é? — questionou enquanto tirava as correntes do tornozelo.

— Você consegue ser tão rápido assim? — perguntei, tentando disfarçar o nervosismo. 

Quanto mais ele se soltava, mais sentia minhas pernas tremerem. Era difícil controlar.

— Hum… Então você guardou numa área muito fácil e rápida de pegar, não é? Pelo visto resolveu seguir o conselho daquele imbecil.

Merda. Fechei os punhos para evitar demonstrar minhas mãos trêmulas. Ele continuou:

— Algumas pessoas acham mais seguro esconder, e usar alguma chantagem criativa como garantia.

— Escute. Não preciso ser criativa com você. Vou direto ao ponto. Se você me ajudar, eu te liberto. Não tenho interesse em te manter comigo.

Ele sorriu com escárnio.

— Você acha que nunca escutei essa conversa? O poder vicia, princesinha.

Ele abriu a porta do carro e entrou, sem demonstrar interesse algum pela minha proposta. Decidi deixar para outro momento. Imaginei que ele estava cansado, então resolvi ir para uma hospedagem. 

Ao entrarmos na primeira que vi na estrada, me deparei com música alta, muitos bêbados no bar e olhares estranhos na direção dele. Precisava providenciar roupas, eram aqueles trapos velhos que chamavam atenção.

— Só há um problema, querida, o último quarto só tem uma cama — disse a moça da recepção.

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